A utopia da convivência

É bem possível que a memória afetiva esteja me traindo, mas vocês não acham que já fomos melhores ao lidar com as nossas divergências?
Muhammad Ali e o antológico nocaute de Sonny Liston, em 25 de maio de 1965
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22/02/2021

Pode ser que eu esteja apenas ficando velho e a observação que farei a seguir não passe de um cruzado de direita no queixo, desferido pela nostalgia, esse sentimento traiçoeiro que, como Muhammad Ali, se aprochega leve como uma borboleta, apenas para picar a nossa consciência com a crueldade de uma vespa. É bem possível que a memória afetiva esteja me traindo e incluindo mais um corno em sua longa lista. É mais do que possível. Na verdade, é bastante provável — e espero que os leitores mais jovens saibam me perdoar. Mas vocês não acham que já fomos melhores ao lidar com as nossas divergências?

Eu sei que corro o risco de estar lembrando de coisas sob influência (no sentido lisérgico) da saudade, mas eu realmente poderia falar horas sobre tempos em que a gente discordava em quase tudo, de partido político a clube de futebol, passando por marca de cerveja, ketchup na pizza, escola de samba, religião e Titãs versus Paralamas sem jamais chegar perto de brigar. Lembro que na eleição de 1989 eu tinha um monte de amigos que votaram no Brizola, outros tantos no Lula, muitos no Collor, alguns no Covas e até no Ulysses. Juro que conheci um cara que votou no Caiado e outro no Aureliano. Fora os iconoclastas que foram de Enéas. Saíamos para beber e falar de política, sempre com uma mistura deliciosa de entusiasmo e bom humor. Apurados os votos, voltávamos todos a fazer o que sempre fizemos: meter o pau no governo. Ter que escolher entre apoiar um político, ou mesmo uma ideologia, e perder um amigo era algo fora de questão. “Vem cá, seu comuna safado, vamos tomar uma gelada!” “Só se você pagar, reaça pão duro!” No final, a conta era devidamente rachada.

Eu não sei dizer o que aconteceu e nem quando começou, apenas sei que se passaram mais de cinco e menos dez anos desde que esse negócio de ter razão passou a ser mais importante do que rir da vida. A política parece ser parte central da questão, mas o cisma vai além dela: de certa maneira, é como se as pessoas não se sentissem mais estimuladas a conviver com diferenças e contradições — duas coisas que figuram com destaque na lista daquilo que nos torna humanos.

Eu estava pensando nisso numa noite vadia de segunda-feira, daquelas em que nada parece ser mais atraente — ao menos para um sujeito de 55 anos — do que ir até estante com velhos discos de vinil, passear o olhar e as saudades pela coleção, escolher uma bolacha e, após um vigoroso sopro de trompetista para arrancar a poeira de décadas, colocar o anacrônico objeto para tocar em um não menos anacrônico equipamento de som. O LP que escolhi era de uma banda nacional do início dos anos 1970: Sá, Rodrix e Guarabira. A primeira faixa que ouvi tinha o sugestivo título de Ama teu vizinho. E a letra começava assim: “Ama teu vizinho como a ti mesmo. Mesmo que ele faça barulho, mesmo que ele acorde as crianças de madrugada. Ele também gosta de silêncio e paz, ele também quer sossego. Mas acontece que ele vive num horário diferente do teu”.

Era um disco bem antigo. Basta dizer que outro verso da canção diz assim: “Ama teu vizinho como a ti mesmo, mesmo que ele seja um grilo na comunidade”. Não sei o que é mais bocomoco: a gíria grilo, o conceito ripongo de comunidade, ou a expressão bocomoco, que acabo de usar. A expedição à estante de vinis veio a calhar, já que a guerra civil ideológica instalada nos Estados Unidos, onde moro — mas também em nossa Pindorama radicalizada —, atiçou minha vontade de entender a antropologia da vizinhança.

Há muitos anos, quando ciscou pelo Brasil para fugir do inverno portenho, o grande escritor argentino Adolfo Bioy Casares se aventurou por alguns dos nossos programas de entrevistas. Num deles, perguntado sobre o porquê de tanta rivalidade entre Brasil e Argentina, respondeu que nós, seres humanos, somos assim mesmo: preferimos odiar quem está mais à mão. Não brigamos com a sogra do nosso amigo, mas com a nossa. Da mesma forma que nós, escritores, brigamos muito com a crítica, mas brigamos ainda mais entre nós mesmos. Só posso concordar com Casares. Realmente, fora alguns modelos de vestido da Björk, jamais nutri grandes antipatias pelos islandeses. Também não chego a ter particular implicância com os times de futebol de Burkina Faso ou com os halterofilistas do Uzbequistão. No entanto, botem uma bola de futebol para rolar na grama e uns cabeludos com camisa celeste e branca do outro lado e, creiam-me, vocês conhecerão o lado mais sinistro deste cronista. Tanto que escrevo isto e já me apresso em corrigir: concordo com Casares — apesar de ele ser argentino.

Encerro esta pequena crônica sobre a tolerância com uma fofoca de vizinhos. Quando ainda morava em apartamento, havia um cara no andar de cima que quase diariamente dava um ataque cinematográfico de gritos e xingamentos, entre quatro e cinco da manhã, horário no qual sua esposa costumava voltar da rua depois de encher a cara. Cansado de ser acordado pelo quebra pau e de acompanhar o fabuloso progresso que meus filhos vinham fazendo na ancestral arte dos palavrões, decidi conversar com o tal vizinho. Na verdade, não falei com ele, mas com a esposa: “Minha senhora, não tenho nada a ver com a sua vida e coisa e tal, mas as crianças precisam dormir, sabe como é… Será que não daria para a senhora voltar para casa um pouquinho mais tarde? Quebraria o maior galho”. Dali em diante a compreensiva mulher passou a chegar da farra às 6 da manhã, e o meu serviço grátis de despertador — o quebra-pau do 702 — jamais decepcionou.

A convivência pacífica é sempre possível, mesmo nas situações mais improváveis. Agora, preciso encerrar o texto porque a campainha acaba de tocar. É o vizinho da casa ao lado, reclamando que a música que estou ouvindo é muito esquisita, muito latina e, principalmente, muito alta. Ele, definitivamente, deve viver em um horário diferente do meu.

Marcos Caetano

É cronista com textos publicados nas revistas Piauí, Bravo!, Trip e Placar e colunas nos jornais O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e Meio & Mensagem.

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