A perda da inocência

O furto de uma bicicleta, no carnaval de 1977, e suas consequências na trajetória de um adolescente de dezesseis anos numa pequena cidade de Minas
Ilustração: FP Rodrigues
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on pinterest
Share on telegram
16/04/2021

Fiquei boquiaberto quando Josiane Lopes me falou que em Caratinga, cidade onde nasceu, e cuja residência localizava-se junto à rodoviária, não era incomum que, um dia, um sujeito que matara alguém, a facada ou foiçada num dos inúmeros distritos, fugisse para o Rio de Janeiro ou São Paulo e que, decorridos alguns anos, certo de que o crime já prescrevera na memória dos habitantes, voltasse para rever os parentes, e, mal os pés tocavam o estribo do ônibus, caía abatido com três tiros no peito. Na parede da casa onde morávamos havia marcas de balas, ela rememorava, com naturalidade, no início da década de 1980, em Juiz de Fora. Eu frequentava o apartamento que Josiane dividia com a irmã, Josete, na rua Santo Antônio, para filar os ótimos almoços que elas preparavam com o dinheiro curto, e que para mim eram mais divinos ainda, já que durante o resto da semana tinha que me contentar com a péssima comida servida no Restaurante Universitário da Universidade Federal.

Digo que fiquei boquiaberto porque este tipo de ocorrência era absolutamente incomum na minha cidade, Cataguases. Lá convivíamos com a violência doméstica – marido agredindo a mulher, ambos agredindo os filhos –, mas eram raros, ou melhor, raríssimos, os casos de roubo ou assassinato. Havia furtos, geralmente de pouca importância, e a cadeia vivia lotada de “vagabundos, marginais e desordeiros”, rubrica na qual a política repressiva da ditadura militar incluía todos aqueles que “importunassem a ordem estabelecida”, como gostava de bradar o famoso delegado, famoso por torturar pessoalmente os presos.

Na verdade, tudo isso nos parecia muito distante, alienados que estávamos, minha família, mergulhados na sobrevivência cotidiana. Nós, que vivíamos num cortiço encravado na Vila Teresa, finalmente havíamos conseguido adquirir um lote no Paraíso, bairro novo, cujo arruamento precário carecia de iluminação elétrica e redes de água e esgoto. A duras penas, construímos uma casa, em regime de mutirão, e nos mudamos para lá no início dos anos 1970. Cada um contribuía como podia para o orçamento doméstico: meu pai vendia pipoca na praça Santa Rita, meu irmão e minha irmã trabalhavam numa das fábricas de tecidos – ele como contramestre, ela como tecelã –, e eu, montado numa velhíssima bicicleta inglesa Rambler, aro 26, carregava as trouxas de roupa que minha mãe lavava e passava para fora.

Mas, em 1976, aos quinze anos, fui contratado para trabalhar na seção de algodão hidrófilo da Companhia Manufatora Mineira de Tecidos de Algodão – aliás, único setor que ainda funciona naquela empresa, que, como quase todo o resto do parque industrial da cidade, desmoronou. A primeira providência que tomei foi passar no Ulisses, que tendo começado com uma oficina de conserto de bicicletas na Vila Teresa, agora possuía uma revenda, para adquirir uma Monark aro 28, novinha, cor laranja, dando a Rambler de entrada…

Por quatro meses andei orgulhoso pelas ruas da cidade, montado no selim da minha bicicleta, que tinha capa com escudo do Flamengo, indo e voltando para o trabalho, indo e voltando para o Ginásio Antônio Amaro, onde estudava à noite. Mas, infelizmente, não durou muito minha alegria. Na madrugada de sábado de carnaval de 1977, acordei assustado, acreditando ter ouvido barulho no quintal. Sentei na cama, assuntei o breu da noite, mas me convenci de que fora apenas um sonho.

No entanto, ao levantar no dia seguinte e procurar a bicicleta que dormia estacionada na varanda, apenas um frágil cadeado a prender a roda traseira, meu coração sobrepassou. Pensei que talvez eu a tivesse colocado em outro lugar e rodeei toda a casa, sem sucesso: ela havia desaparecido… Ainda incrédulo, percorri todo o bairro, na esperança de que alguém a tivesse pegado emprestado sem me avisar ou de brincadeira a houvesse escondido somente para me assustar, mas, no fundo, eu sabia, nunca mais a veria… Voltei, minha mãe me aguardava na cozinha, eu a abracei, e só então as pernas fraquejaram e as lágrimas transbordaram pelo meu rosto…

Passei oito meses pagando prestações de uma bicicleta que não possuía, andando a pé e de ônibus, os olhos secos, o peito opresso, as mãos vazias.

Luz na escuridão
Alberto Mussa, romancista, contista, tradutor, ensaísta: “Depois que terminei o ciclo do Compêndio mítico do Rio de Janeiro, quis dar um tempo na ficção, precisava me desligar do ambiente daqueles cinco livros. E decidi escrever um ensaio, planejado há muitos anos, que se chama A origem da espécie: o roubo do fogo e a noção de humanidade. Estudei mais de trezentos mitos sobre a origem do fogo e reconstituí o que presumo ser sua versão original, a história do roubo do fogo como foi contada pela primeira vez, há pelo menos 160 mil anos (segundo meus cálculos). Procurei também entender a importância desse mito para a humanidade pré-histórica, e concluí que ele representou um verdadeiro programa ideológico, que define a própria noção do que é ser humano. Agora enfrento o grande desafio da minha carreira: escrever um romance passado nos anos 1970, na Zona Norte do Rio. Digo que é um desafio porque nunca cheguei tão perto de mim mesmo. A trama do livro (que também será policial) envolve o ambiente das escolas de samba, dos botequins, das favelas, dos terreiros de umbanda, do jogo do bicho, do Esquadrão da Morte. O romance já tem nome: Fantástico desfile da escola de samba Floresta do Andaraí”.

Parachoque de caminhão
“O fascismo é uma praga difícil de exterminar. (…) E contra ele só há um remédio verdadeiro: conquistar e manter a todo custo a liberdade do homem, e só há liberdade entre os homens quando cada um vale pelo seu trabalho – e não pelo seu nascimento nem pelos seus privilégios.”
Rubem Braga (1913-1990)

Antologia pessoal da poesia brasileira
Auta de Souza
(Macaíba, RN, 1876 – Natal, RN, 1901)

Súplica

Se tudo foge e tudo desaparece,
Se tudo cai ao vento da Desgraça,
Se a vida é o sopro que nos lábios passa
Gelando o ardor da derradeira prece;

Se o sonho chora e geme e desfalece
Dentro do coração que o amor enlaça,
Se a rosa murcha inda em botão, e a graça
Da moça foge quando a idade cresce;

Se Deus transforma em sua lei tão pura
A dor das almas que o Ideal tortura
Na demência feliz de pobres loucos…

Se a água do rio para o oceano corre,
Se tudo cai, Senhor! por que não morre
A dor sem fim que me devora aos poucos?

(Horto, 1900)

Luiz Ruffato

Estreou em 2001 com Eles eram muitos cavalos, e, depois disso, publicou outros cinco romances, uma coletânea de contos, uma de poemas, uma de crônicas, um ensaio e uma história infantil. Seus livros ganharam os prêmios APCA (duas vezes), Jabuti (duas vezes), Machado de Assis da Biblioteca Nacional e Casa de las Américas, de Cuba, e estão publicados em 13 países. Em 2012 foi escritor-residente na universidade de Berkeley (EUA); e em 2016 ganhou o Prêmio Internacional Hermann Hesse, na Alemanha.

Publicidade