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Os desafios e vantagens de escrever um livro em dupla; uma delas é que serão dois autores criticando o texto
Montagem: Thapcom
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14/02/2021

Pouca gente faz literatura em dupla. Em outras formas de escrita, como reportagens e roteiros, isso é bem comum. Mas, em literatura, o trabalho em parceria é algo raro.

Há o célebre e gasto exemplo de Bioy Casares e Jorge Luis Borges. E já ouvi falar em uma dupla russa, numa americana e em outra francesa. Porém, são exemplos isolados. A verdade é que soa quase como um pecado escrever um livro a dois.

Acho que é um preconceito tolo. Ou, talvez, um preconceito esperto e interesseiro, porque desde a antiguidade os escritores tentam dizer que são inspirados por musas, que têm seus versos sussurrados por deuses e anjos. Trocar essas divindades por um sujeito igual a ele é perder muito glamour.

As vantagens de escrever em dupla são várias. Em primeiro lugar, são dois criticando o texto. Às vezes (muitas vezes (quase sempre)), um autor que acabou de escrever algo tem um sentimento de paternidade em relação ao seu texto e não consegue ver seus defeitos. Mais ou menos como uma mãe que acha seu recém-nascido maravilhoso, mesmo que ele esteja cheio de sangue e gosma. Escrever em dupla diminui essa cegueira, porque aquele que não escreveu o trecho recém-nascido vai vê-lo como um leitor. Ou seja, como um primo, não como um pai. E aí é bem mais fácil encontrar erros ou ver que falta um dedo.

Mas esta vantagem é justamente um dos motivos pelo qual escrever em dupla é algo pouco apreciado. O escritor é um monstro egocêntrico, e ter alguém encontrando falhas em sua obra-prima pode lhe parecer algo muito ofensivo. Imagino que, se alguns escritores tivessem que debater sobre o próprio texto com outros autores, teríamos algumas bocas cheias de papel até o sufocamento e jugulares perfuradas com canetas-tinteiro.

Uma segunda vantagem da escrita em dupla é que são dois buscando soluções. Claro que isso gera um embate. Mas isso é excelente, desde que você fique na troca de ideias e não chegue à troca de socos. Graças a esse processo chega-se a soluções que os dois autores isoladamente não alcançariam.

E eis aí outro senão. Muitos acreditam que um livro feito por duas pessoas não seja um derramamento d’alma. “Eu não uso tinta para escrever, mas meu próprio sangue”, poderia dizer um desses muitos.

Pura mitificação. Claro que num trabalho em dupla estarão lá seus sentimentos, suas ideias e suas ignorâncias. As suas e as do outro. Mas, talvez, melhor trabalhadas, filtradas, pensadas.

Eu e Marcus Aurelius Pimenta já publicamos quase trinta livros em dupla. Nosso método é o seguinte: decidimos sobre o que vamos escrever (por exemplo, as guerras de independência do Brasil ou uma releitura do Sítio do Picapau Amarelo); lemos sobre o assunto (alguns livros em comum e outros diferentes); planejamos juntos a história (um planejamento que nunca dará totalmente certo, mas que é muito útil para que a gente não se perca no meio do caminho); aí um primeiro escreve tudo; o outro reescreve tudo; o primeiro rerreescreve tudo; o segundo rerrerrescreve tudo e ficamos nessa tabelinha até achar que o livro merece passar ao estágio seguinte, que é fazer as versões finais cara a cara, lendo o livro em voz alta e propondo mudanças.

Muitas vezes, quando estamos nesse último estágio, percebemos que temos que voltar ao planejamento. Rangemos os dentes, mas fazemos isso. Os vermes, por exemplo, teve versões com três narradores diferentes. E nas primeiras versões de Nuno descobre o Brasil havia um grupo de cinco crianças. Mas bancamos o Herodes e restaram apenas duas.

Uma desvantagem prática na escrita em dupla é que os direitos autorais, já não muito gordos, têm que ser divididos ao meio. E isso é muito triste.

Por outro lado, eu não teria feito nem metade dos livros se não escrevesse em dupla. Um serve para empurrar o outro, para ajudar em momentos de empacamento, para cobrar pontualidade e qualidade. É muito fácil ser condescendente e preguiçoso. Mas com alguém vigiando, cutucando e cobrando, fica mais difícil.

Acho que escrever em dupla funciona bem para romances e outros escritos longos, como grandes reportagens e roteiros de longa-metragem ou de séries. Mas, em contos e poesia, me parece mais difícil.

Talvez num outro texto eu pense sobre isso, porque este já está grande demais e a maioria dos leitores já deve ter me abandonado. Com sorte, sobraram dois. Que um dia, talvez, escrevam juntos.

José Roberto Torero

Escritor e roteirista, Torero nasceu em Santos (SP), em 1963. É autor de O chalaça (prêmio Jabuti na categoria romance em 1995) e Os vermes, entre outros. Também é autor de livros de não ficção e de literatura infantojuvenil. Ao lado de Paulo Halm, assinou o roteiro do longa-metragem Pequeno dicionário amoroso.

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