Integrante de uma seita

Martha Batalha: “Qualidade de escrita e número de seguidores não são sinônimos, mas parâmetros de atividades radicalmente opostas”
Martha Batalha, autora de “A vida invisível de Eurídice Gusmão”. Foto: Jorge de Luna
01/06/2026

Martha Batalha começou a escrever ainda no jardim de infância, com A vaca e a borboleta — e, ao que parece, nunca deixou de acreditar no entusiasmo da mãe diante do primeiro livro. Nascida no Recife, criada no Rio de Janeiro, a autora de A vida invisível de Eurídice Gusmão, Chuva de papel e Nunca houve um castelo vive hoje em Santa Mônica, na Califórnia (EUA), onde cultiva uma horta, um viveiro de minhocas e a certeza de que a literatura deve, antes de tudo, “dizer a verdade”. Leitora diária de romances, admiradora de cartas e diários de escritores, Martha defende o silêncio contra a tirania da popularidade online e prepara para agosto o lançamento do primeiro livro de crônicas, O algoritmo sou eu (Arquipélago). Neste Inquérito, fala de bloqueio, edição, fé nos leitores, Bukowski, Ganymédes José — e da literatura como esse lugar onde o mundo é devolvido com mais nitidez.

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Escrevi no jardim de infância meu primeiro livro, A vaca e a borboleta. Minha mãe achou o máximo. Acho que até hoje eu estou acreditando nela.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Livros de cartas e diários de escritores. Tchekhov descrevendo crianças numa prisão, John Steinbeck questionando a qualidade da escrita, Van Gogh dizendo ao irmão que deseja pintar a beleza, Clarice Lispector recusando a sugestão de Rachel de Queiroz para entrar na ABL, Henfil em Nova York com saudades de pastilhas Valda, Simone de Beauvoir chamando o amante de “meu docinho”. Em livros assim, os autores se tornam personagens. Gosto de vê-los imperfeitos e vulneráveis.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Eu tenho que estar lendo um romance. Preciso da companhia da mesma e longa história, de levar os personagens comigo pelo dia, ir desvendando o arco e a estrutura da história.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Lula, qual seria?
As 48 leis do poder, de Robert Greene. Maquiavélico e interessante pelos exemplos históricos.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
De manhã, seis dias por semana, em semanas consecutivas e sem internet. E de um momento na vida em que seja possível pagar as próprias contas para, a partir dessa liberdade, ter as condições ideias para escrever.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Talvez seja o inverso, a leitura tornando qualquer circunstância ideal. É o superpoder dos nerds, né? A gente abre um livro e some do mundo. Mas eu gosto muito de um avião. Nada acontece e eu estou presa à cadeira. Existe algo de transgressor quando se é a única leitora num voo com gente grudada à tela. Eu me sinto totalmente parte de uma seita.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Quando eu olho para o relógio de manhã, olho de novo e se passaram três horas.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Não ter ideia por onde seguir, permanecer digitando e descobrir que eu sei e estava o tempo todo em mim. Como a cena do Indiana Jones no Última cruzada, em que para atravessar um abismo ele tem que acreditar em si mesmo. Indiana dá o primeiro passo no precipício e uma pedra surge.

• Qual o maior inimigo de uma escritora?
Ela mesma. E também a maior amiga.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
Eu não sei se é exatamente o meio literário, ou o mundo, mas existe a tendência de associar qualidade de obra com popularidade online. Qualidade de escrita e número de seguidores não são sinônimos, mas parâmetros de atividades radicalmente opostas. Creio que muitas escritoras vivem o dilema entre se mostrarem para o mundo e se fecharem para no silêncio produzirem o melhor. Corre-se o risco de sair de moda e do radar das pessoas que decidem no “meio literário”. Mas posts vão, livros ficam, e o que é bom será descoberto ou redescoberto. Eu acredito na inteligência dos leitores.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
José Cândido de Carvalho. A linguagem de O coronel e o lobisomem é única e genial. Ele não desafina em sequer uma frase.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível: Casa grande & senzala, Gilberto Freyre. Descartável: Os marimbondos de fogo, de José Sarney.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Falta de um bom editor. Muitos livros não se tornam obras-primas, ou mesmo só bons, por falta de edição. E todo autor dever ser também seu próprio e primeiro editor.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Pedofilia.

• Qual foi o lugar mais inusitado de onde tirou inspiração?
A inspiração só vem de lugares inusitados, ou de um modo inusitado de ver o mundo. É como se fôssemos esta imensa narrativa, e o trabalho da escritora de ficção é perceber o que está nas entrelinhas, a mensagem subliminar. Pegar do mundo, colocar na ficção e devolver aos leitores para que percebam melhor o mundo. Exemplo: num restaurante escuro, meu marido pediu pela primeira vez os meus óculos de grau para ler o menu. Deu crônica, e não era sobre a iluminação deficiente em restaurantes românticos, mas sobre duas pessoas envelhecendo juntas.

• Quando a inspiração não vem…
Eu permaneço sentada e me sinto miserável. Eu sei que vou jogar fora quinhentas ou mil palavras e decido que, já que vou jogar fora, é melhor não escrever (erro). Eu preciso escrever e jogar fora para chegar às melhores palavras adiante. É como ter sob o braço uma lata de lixo e só conseguir caminhar depois de jogar aquilo no caminho. Não há outra forma de lidar com a coisa além de passar pelo lixo e persistir. Ouvi do Malcolm Gladwell que bloqueio é quando a gente escreve algo só na cabeça e se frustra. Quando uma coisa está só na cabeça (prestem atenção), ela não está no papel e, portanto, não é escrita. Às vezes também eu desisto. Deixo a história quieta e vou escrever outras coisas. Dali a pouco, ela fica com ciúmes e se revela, nós voltamos ao trabalho. Mas o melhor é escrever as crônicas de O Globo. Há prazo de entrega e meu subconsciente se comporta, recolhe a lata de lixo e me dá o que eu preciso em um ou dois dias.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Ganymédes José. Era um escritor prolífico de literatura infantojuvenil dos anos 1980. Lia tudo o que publicava e escrevi para ele, dizendo que queria me tornar escritora. Ele me respondeu e eu organizei uma visita dele à minha escola. Ganymédes morreu em 1990. Adoraria poder abraçá-lo. Nós dois, colegas de ofício.

• O que é um bom leitor?
O que dialoga com o livro. Já briguei muito com o Bukowski (que amo) em comentários nas margens.

• O que te dá medo?
A nossa mente pode ser um lugar bem assustador.

• O que te faz feliz?
Atualmente, minha horta e uma viveiro de minhocas. Umas caixinhas sobrepostas que transformam restos de alimento em comida de minhoca e, posteriormente, adubo. Tem sido fascinante acompanhar o ciclo da semente à colheita e transformação de lixo em plantas com viço. Nasceu tanta couve, aqui em casa ninguém aguenta mais comer. A vida é complicada e também muito simples.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Será que eu vou me tornar a Martha Batalha que anseio, aquela que está no alto da montanha e eu vejo daqui enquanto subo?

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Manter o texto vivo. Verdade, prazer da leitura e voz.

• A literatura tem alguma obrigação?
Dizer a verdade.

• Qual o limite da ficção?
O mundo que a ficção constrói tem que fazer sentido. A vaca pode voar, desde que você construa um universo em que seja absolutamente aceitável que ela bata asas. O acordo com o leitor é que, em troca do tempo dele, daremos de volta uma narrativa coerente.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Do jeito que o mundo está, eu pediria para ele me levar. (Mentira, eu adoro isso aqui.)

• O que você espera da eternidade?
Eu ainda espero muito da vida.

Rascunho

Rascunho foi fundado em 8 de abril de 2000. Nacionalmente reconhecido pela qualidade de seu conteúdo, é distribuído em edições mensais para todo o Brasil e exterior. Publica ensaios, resenhas, entrevistas, textos de ficção (contos, poemas, crônicas e trechos de romances), ilustrações e HQs.

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