A forma do silêncio

Cléo Busatto: “Escrever é dar forma ao que amadureceu em silêncio”
Cléo Busatto, autora de “Água que canta, árvore que assopra”
01/08/2026

A paranaense Cléo Busatto se define, antes de tudo, como uma artista da palavra. Escritora, narradora de histórias e pesquisadora, é autora de mais de cinquenta obras, entre ficção, não ficção, literatura infantojuvenil e produções digitais, que somam cerca de 600 mil exemplares vendidos. Mestre em Teoria Literária pela UFSC, contou histórias para mais de 150 mil pessoas e formou cerca de 80 mil leitores, professores e mediadores. Seu livro mais recente é Água que canta, árvore que assopra. Neste Inquérito, Cléo fala sobre reescrita, musicalidade, infância e encantamento — elementos de uma literatura que, para ela, deve transformar o olhar e fazer alguma diferença na vida de quem lê.

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
A escritora surgiu em meu caminho sem pedir licença e, de certo modo, por acaso. Eu era atriz e começava a dirigir teatro para crianças. Um dia, levei a Tatiana Belinky, que, na época, era crítica de teatro infantil de O Estado de S. Paulo, o que eu imaginava ser a sinopse de uma peça. Ela leu e disse: “Aqui já existe um livro infantil. Por que você não tenta publicá-lo?” Segui o conselho. A Scipione publicou Dorminhoco em 2002. Foi meu primeiro livro. Curiosamente, eu nunca havia pensado em ser escritora, embora tenha um caso de amor com as palavras desde os três anos e meio, quando aprendi a ler. Talvez eu apenas estivesse caminhando em direção a elas sem saber. A escrita foi me escolhendo ao longo da vida.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Minha obsessão é reescrever e escutar, em voz alta, o ritmo das frases. Afinal, também sou contadora de histórias. Tenho obsessão pela musicalidade do texto e pelas imagens que ele produz. Gosto de pensar que a linguagem é um arranjo de sons, não apenas de letras. Também me interessa aquilo que não é dito, mas permanece vibrando nas entrelinhas. E tenho uma mania curiosa: leio muitos livros ao mesmo tempo. Gosto desse cruzamento entre personagens, vozes e universos.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Romances. Eles me permitem permanecer por muito tempo na companhia de personagens e mundos que transformam meu olhar sobre a vida.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Lula, qual seria?
Qualquer um dos meus, claro! (Risos.) Talvez Quatro histórias de amor para pequenos leitores. Acho que ele reconheceria ali muitas crianças brasileiras que cresceram largadas à própria sorte. Continuo acreditando que cuidar da infância é uma das formas mais profundas de construir um país.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Durante muito tempo, achei que precisava de uma paisagem inspiradora: montanhas, riachos, silêncio absoluto… Descobri que isso era uma fantasia. A literatura não espera pelas circunstâncias perfeitas. Ela acontece quando a gente se senta e trabalha. Um dos meus livros mais lidos nasceu durante um voo. Preciso mesmo de silêncio, concentração e tempo contínuo. Escrever exige mergulho e, se me interrompem, demoro para reencontrar o fio da história.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Silêncio. Gosto de ouvir apenas a voz do autor, em qualquer lugar onde eu possa esquecer o tempo.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Sou uma mulher da terra. Gosto de dar forma às coisas. Um dia produtivo, para mim, é aquele em que algo que antes não existia passa a existir. Materializar o invisível talvez seja a melhor definição do meu trabalho.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Entrar na história. Quando escrevo, torno-me amiga dos personagens. Rio, choro, converso com eles. Em determinado momento, deixo de estar diante do computador e passo a morar dentro da ficção. É esse desaparecimento da realidade que mais me encanta.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
Aponto duas coisas. A primeira talvez seja a pretensão de querer escrever uma grande obra e se esquecer de escrever uma obra verdadeira. A literatura não gosta de vaidade; gosta de escuta. A segunda é a pressa. A literatura tem o tempo da natureza: precisa ser semeada, esquecida na escuridão da terra, para depois brotar, crescer e florescer.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
O que mais me incomoda é quando o livro passa a ser tratado apenas como produto e se esquece de que ele é, antes de tudo, uma experiência humana. O livro serve para distrair, sem dúvida, mas, para mim, vai além disso: literatura é arte, e arte transforma.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Alice Munro. Gostaria de descobrir como ela consegue transformar o aparentemente banal em literatura extraordinária. Ela me faz acreditar que não existem vidas pequenas, apenas escritores capazes — ou não — de enxergar a grandeza que há nelas.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível é o livro que estamos lendo no momento. Se ele está na companhia do leitor, é porque, de alguma forma, tornou-se necessário. Há algo em suas páginas que chama o sujeito e o faz seguir adiante. Não acredito que existam livros descartáveis. Existem livros que ainda não encontraram seu leitor ou o momento certo para serem lidos. Para cada livro, há um leitor à sua espera.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
A falta de verdade. O leitor percebe quando um texto foi escrito apenas para cumprir uma função, e não por uma necessidade interior ou por um desejo genuíno de seu autor.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Não teriam lugar em minha escrita a banalização da violência, a humilhação do outro ou qualquer narrativa que empobreça nossa capacidade de sentir e de reconhecer a humanidade nas pessoas.

• Qual foi o lugar mais inusitado de onde tirou inspiração?
Da escuta das pessoas comuns. Por exemplo, ao voltar de uma viagem de mais de quatrocentos quilômetros, do interior do Rio Grande do Norte a Natal, observei durante horas o sertão que se estendia diante de mim. Então, o motorista que me conduzia disse: “Veja, Cléo, você está perto de tudo e longe do nada”. A frase virou o título de um livro meu que será publicado em breve.

• Quando a inspiração não vem…
Fico quieta, espero, caminho, observo. Meu processo de criação começa muito antes da escrita. As histórias vão sendo construídas lentamente dentro de mim, às vezes durante meses. Quando finalmente me sento diante do computador, boa parte do livro já aconteceu em meu imaginário. Escrever é dar forma ao que amadureceu em silêncio.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Lygia Bojunga. Gostaria de tomar um café com ela e conversar sobre o delicado encontro entre fantasia e realidade.

• O que é um bom leitor?
Será que existe um bom leitor? Existem leitores. Cada um lê com a história que viveu, as perdas que carregou e os sonhos que ainda alimenta. Para mim, quem lê já fez uma escolha importante.

• O que te dá medo?
Tenho medo de emburrecer, de perder a curiosidade. Acho que a curiosidade é o motor da criação. Também tenho medo de me acomodar intelectualmente. A mediocridade começa quando a gente deixa de fazer perguntas. Mas, sobretudo, tenho medo de perder a capacidade de me encantar. Enquanto houver encantamento, haverá escrita.

• O que te faz feliz?
Viajar, conversar com amigos, construir uma boa história e encontrar um leitor que me diga que um dos meus livros mudou algo dentro dele.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
A certeza é de que a literatura nos torna mais humanos. Já as dúvidas são várias: como dizer isso de maneira nova a cada livro? O que escrevo faz sentido para alguém? Tocará algum leitor? Essas perguntas nunca desaparecem. Talvez sejam justamente elas que me façam continuar escrevendo.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Que o texto faça alguma diferença na vida de quem o lê. Nem que seja uma diferença pequena.

• A literatura tem alguma obrigação?
Nenhuma. Justamente por isso ela é tão poderosa.

• Qual o limite da ficção?
A imaginação não tem limite. A única fronteira da ficção é a qualidade literária; ela pode ir a qualquer lugar.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
A uma criança. Ela provavelmente faria as perguntas mais importantes e acolheria o desconhecido com menos preconceito do que muitos adultos.

• O que você espera da eternidade?
Não espero nada. Na verdade, nem sei o que é a eternidade. Mas, se algum dos meus livros continuar morando na memória afetiva de um leitor depois que eu partir, talvez essa seja a única eternidade que faça sentido para mim.

Água que canta, árvore que assopra
Cléo Busatto
Ilustrações: Fê
CLB
96 págs.
Rascunho

Rascunho foi fundado em 8 de abril de 2000. Nacionalmente reconhecido pela qualidade de seu conteúdo, é distribuído em edições mensais para todo o Brasil e exterior. Publica ensaios, resenhas, entrevistas, textos de ficção (contos, poemas, crônicas e trechos de romances), ilustrações e HQs.

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