Rabo de galo

Conto inédito de Michele Lemos
Ilustração: Ana Elisa Granziera
01/06/2026

Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo.
Hebreus 10:31

Depois que a bebê nasceu, comecei a cuidar do bar de manhã. Subia no banquinho de madeira e ficava na altura perfeita para apoiar os cotovelos no balcão, ou abrir a caixa registradora, ou organizar os vidros de conserva em cima da estufa, ou lavar os copos na pia. As bebidas ficavam numa prateleira alta, para alcançar eu usava uma banqueta de pernas compridas.

Os velhos inventam uma rotina e cumprem direitinho, são muito leais. Minha mãe dizia que essa é a maneira que eles têm de se sentirem presos à vida depois de se tornarem inúteis. A gente saía no lucro, ela falava, e por isso eu precisava levantar as portas logo cedo.

Vinham no mesmo horário, na mesma ordem. Seu Roberto chegava antes de mim e esperava encostado no muro, mastigando um palito de dente em pose de flamingo, um pé na parede e outro no chão. Minha mãe ficava pistola porque a sola da botina carimbava uma pegada de terra vermelha na pintura que sempre foi suja. Assim que ouvia o clec da chave no trinco, enfiava os dedos para sempre empretecidos de graxa na fresta e fazia toda a força para enrolar a porta enquanto eu só fingia. Repetia todo dia “que barulheira esse trem, parece um duelo de bigorna com martelo”, e eu ria de verdade porque ele merecia.

Em segundo, seu Firmino, e eu tinha que morder a língua para não soltar “seu Pequenino” porque ele era um tampinha para valer. O rosto miudinho, engolido por costeletas. Megafã do Tião Carreiro. Arremessava no balcão os dois maços que tinha detonado no dia anterior achando, de coração, que contribuía para eu me tornar a maior colecionadora da história das partidas de bafo na escola. Não fumava nada além de derby, quando muito um continental, e isso qualquer um achava em qualquer sarjeta. Eu virava os maços na lixeira para jogar fora os fiapos de tabaco e fazia a dobradura dizendo “poxa, o senhor me ajuda muito” bem feliz, para ele acreditar.

Seu Dinei chegava por último. Tinha mãos grandalhonas com as palmas rachadas que quase arrastavam no chão. Era todo largo e massudo, com uma dobra grossa de pele caída em cima dos olhos que fazia ele parecer um gorila ruivo. Apoiava o chapéu no centro do peito antes de entrar no bar, igual os homens faziam na igreja. Carregava um canivete de mil funções preso no passante da calça e consertava de um tudo para mim — a caixa registradora quando travava, a torneira quando pingava, o rolamento da porta quando emperrava. Até nos ratos ele deu jeito. Meu favorito disparado.

Se moviam como se dessem passos de uma dança ensaiada muitas vezes. Meus mosqueteiros, meu trio ternura. Seu Dinei organizava as bolas no triângulo — amarela na ponta da frente, bola oito no centro, uma lisa e uma listrada em cada canto. Seu Firmino — uma bailarina na ponta da sapatilha — apagava a lousa e organizava os tocos de giz pelo tamanho, em ordem crescente. Seu Roberto segurava os tacos na altura dos olhos e desencurvava um por um, pressionando contra a coxa. Cada um gizava seu taco de um jeito diferente.

Eu ficava admirando e, quando estouravam a bola branca, começava a trabalhar. Enfiava goela abaixo do rádio um K7 de Tião Carreiro e Pardinho, ou Liu e Léu, que eram os que faziam, no primeiro acorde, seu Rogério gritar “aôôô mundão, caba não” e sair rodopiando agarrado no taco como se fosse numa moça. Aquilo era um barato.

Secava um prato grande e colocava no balcão, junto com o saleiro e o paliteiro. Tirava três salsichas, três pepinos e nove ovos de codorna da conserva e cortava tudo na metade. Subia na banqueta e puxava da prateleira o vermute, a cachaça, o cynar e três copos de fundo grosso.

Minha mãe fazia tudo no olho e eles achavam horrível porque bebiam o que o humor dela mandava. Imprevisível. Eu dosava com precisão aritmética as medidas que seu Dinei me ensinou — 50 ml de cachaça, 25 ml de vermute, 25 ml de cynar — e usava minha faquinha bem amolada para descascar a fita de laranja para o twist sem nenhuma pelinha branca, para não amargar. Era um barato ser boa em alguma coisa depois de não ter sido boa em nada.

Batia um por um o fundo dos copos para despertar o galo. Era igual tocar o sino da escola. Eles apoiavam os tacos na mesa e se debruçavam no balcão.

Brindavam, e comiam, e bebiam, e eu anotava as contas de cada um na caderneta de fiado, ou lavava uns pratos, ou passava um pano na estufa, qualquer coisa que me fizesse parecer muito concentrada para eles não perceberem que eu prestava atenção. Coletava as melhores histórias do bairro todo — quem tinha levado uma surra feia do agiota; quem descobriu que era uma quina de um triângulo amoroso; quem tinha beijado a morte na boca se tacando do viaduto — e contava todas para minha mãe. Ela dizia que eu era ridícula de tão enxerida, mas só depois de ouvir tudo abrindo muito os olhos, mordiscando as pelinhas dos dedos.

Depois que iam embora, cada dia uma coisa acontecia. Às vezes uma mãe de muitas crianças cortava um suspiro em seis partes iguais; às vezes o vendedor de cotuba contava quantos engradados a gente ainda tinha e passava um pedido em papel carbono; às vezes um bêbado que nunca tinha visto um chuveiro repetia várias doses de cachaça, conversava com o retrato holográfico de Jesus que a gente tinha na parede e chorava, chorava até cansar.

Às vezes, vinham as meninas mais lindas do bairro. Compravam com dinheiro que precisava de troco uma coquinha KS cada uma e prendiam o elástico de meia-calça na árvore da calçada em frente à porta do bar. De propósito. Tinham cabelos cheios e compridos, lisos ou de caracol, em tons de terra, petróleo e ouro. Eram tão levinhas que, quando pulavam, os pés batiam de volta no chão sem fazer barulho nenhum.

Me dava vontade de passar minha faquinha amolada no tornozelo de cada uma, tirar uma fatia de pele e fazer um twist para cada coquinha. Mas eu só me abaixava atrás do balcão e enfiava na boca todas as geleias de mocotó e suspiros e casquinhas de doce de leite e corações de doce de abóbora que conseguisse. Depois vomitava uma gosma rosa com pontinhos coloridos na privada sem tampa do banheiro do bar.

Outras vezes tudo ficava quieto e vazio, e eu sentava na mesa de ferro perto da porta para sentir o sopro da rua enquanto fazia um almaço inteiro de exercícios de caligrafia. A professora de português disse para minha mãe que minha letra era um garrancho, e entender o que eu escrevia era mais difícil que decifrar um enigma. O tanto que eu apanhei esse dia, isso eu prefiro nem contar.

Pedia muito a Deus para me concentrar, mas acho que ele não escutava porque qualquer bobeira me distraía. Então imagina como eu fiquei quando notei o galope soando no asfalto, chegando cada vez mais perto. Cavalo é um bicho que hipnotiza a gente, o mais especial no mundo todinho para mim.

Tive que apertar forte a garganta com as duas mãos para o choro não escapar quando vi o velho apear e dar um solavanco com toda a força na rédea. O cavalo apertou os olhos e o couro do pescoço fez várias ondinhas. Fiquei sem entender por que ele amarrou o coitadinho no cesto de lixo de ferro se, bem do lado, tinha uma árvore cheia de sombra.

Corri para detrás do balcão e quase caí para subir no banquinho. Ele entrou sem tirar o chapéu, virando a cabeça de um lado para o outro e, debaixo para cima, moendo o chão com uma bota pontuda, de bico de ferro. Se jogou no balcão com os braços cruzados e apertou os cotovelos com umas mãos sem carne nenhuma, cheias de veias que pareciam canos de esgoto.

“E, então, dona Maricota, comé que cê tá?”

Falou isso com um sorrisinho estúpido, parecia saber que eu odiava apelido.

“Maria, senhor”, tentei dizer com orgulho, mas minha voz saiu como um fio de cabelo bem fininho, a ponto de arrebentar.

“Igualzinha a vó. A marca registrada das mulheres dessa família é esse abuso? Essa porcaria tá impregnada no sangue de vocês, só pode”, foi desencostando o corpo, empurrando o balcão para cima de mim.

“Chama lá a sua mãe.”

Eu queria muito mesmo chamar, mas a bebê dava muito trabalho todo dia, se arranhava, puxava os cabelos, gritava e se mordia toda vez que qualquer pessoa, que não fosse a nossa mãe, chegasse perto. Se não quisesse virar picadinho, eu tinha que me virar com tudo. O que eu pudesse resolver sozinha, eu resolvia.

“Eu posso servir o senhor”, deixei as costas bem retas e os braços cruzados em cima do balcão, como as moças das lojas, as moças dos bancos.

“Sua mãe, Maria!” A voz dele ecoou, bateu nas paredes e voltou a toda velocidade em forma de agulha bem no meio dos meus ouvidos. Não conseguia nem piscar. Ele deu uma pancada de mão fechada que fez tremer todos os móveis do bar, e eu acordei na hora. Era a mesma voz de tempestade, a mesma força de rinoceronte da minha mãe quando queria brigar. Impossível não obedecer. Subi a rampa até a casa apertando dedo por dedo, como as contas de um rosário.

Deixei os olhos no chão para ouvir “você se esforça para ser inútil”, “não tem misericórdia?”, “eu fiz o quê para merecer, meu Pai, uma desgraça de menina dessa?”, enquanto segurava a bebê que berrava, chutava e tentava se livrar de mim empurrando o corpo com as mãozinhas de bisnaga.

Abaixou e encostou o nariz no meu, “culpa toda sua”, sugando alguma coisa bem do fundo dos meus olhos. Deu um beijo na cabeça da bebê e desceu para o bar.

Dei a volta pelo corredor lateral e passei pelo portãozinho até a calçada. Assim que os olhos molhados da bebê refletiram o appaloosa tipo dálmata, ela parou de ranhetar. Cavalo hipnotiza, eu tinha certeza que funcionaria. Esticou os bracinhos, abriu e fechou as mãozinhas e deu um sorriso cheio de baba que eu nunca tinha visto. Montei ela na sela, coloquei uma mãozinha na cernelha para sentir o sangue quente e a outra segurando a rédea, que encaixei na boca para ela ter o que chupar.

“Sua cara nem treme. Você, falando de perdão! A pachorra de aparecer aqui depois de todo esse tempo. Que diferença tem isso agora?” A voz da minha mãe saía de um jeito inédito, como se a garganta fosse um poço cheio d’água onde caíam gotas pesadas, que formavam um círculo e depois outro maior e depois outro, perdendo força até sumirem de vez.

“Jeová não deseja que ninguém seja destruído, deseja que todos cheguem ao arrependimento. Segunda epístola de Pedro, capítulo três, versículo nove. Andei estudando, tá certo? Não sei qual a sua dificuldade, suas irmãs entenderam tudo. Tenho direito à vida eterna, um ticket pra Terra restaurada, não é você quem vai me negar isso”, a voz dele como aquelas ondas enormes que terminam com um estrondo na areia.

“Elas não entenderam nada. Faça-me o favor. Não é arrependimento que esse deus de vocês exige? Você nem sabe o que é isso. O que você quer é o que você sempre quis: sangrar seus cordeirinhos para se livrar dos seus pecados. Eu vi quando fez isso da primeira vez, elas não, mas eu vi, eu estava lá. Guardo até hoje o vestidinho azul, vermelho de sangue. Não esqueci, nunca vou perdoar.”

“Tá certo, tá bom, não vou discutir. Mas cê entendeu o que eu disse? Acabou pra mim, tá na hora. Cê diz duas palavrinhas e pronto, vou embora em santa paz.”

“Vejamos, deixa eu pensar. Não, acho que não. Eu não tive paz, ela nunca mais teve paz. E, adivinha só, foi você quem tirou isso da gente. Fico com a alternativa da tortura permanente, um filho da puta corroído pelo próprio veneno, por toda a eternidade. O inferno é a única medida justa para você. Que delícia, que alegria se eu puder contribuir pra te levar até lá.”

Ela me viu espiando pela porta. Saiu pela calçada, tirou a bebê do cavalo. Fiquei pronta para sentir o tapa, mas nem roçou a mão. Ouvir eu já tinha ouvido, mas ver ela chorar era novidade para mim.

“Atenda esse senhor, Maria. Nada de pendurar no fiado, esse aí tem que pagar” entrou pelo portão e sumiu no quintal.

“Sua mãe tinha que te dar o nome dela, né? Como se o mundo precisasse dessa maldição. Fala logo, infeliz, o que tem pra beber nessa joça?”

“Minha especialidade é rabo de galo.”

“Pela misericórdia. Especialidade. Cê tem o quê, onze, dez anos? E o pai degenerado sou eu. Vai logo, então, um desse aí, que unzinho não é pecado.”

“Doze, senhor. Vou fazer um especial.”

Coloquei meia dúzia de ovos de codorna num prato pequeno, o saleiro e o paliteiro do lado. “Por conta da casa”, minha mãe ia ficar pistola se ouvisse isso.

Banqueta, cachaça, vermute, cynar. Tive que ficar muito na ponta e quase tombei para a frente para alcançar o potinho que eu tinha visto seu Dinei guardar bem no fundo da prateleira. Na cabeça dele seria impossível para mim alcançar, mas quando eu precisava resolver as coisas sozinha, eu resolvia as coisas sozinha.

Derramei um bom tanto das bolinhas no fundo do copo e amassei com um pilão. Não deixei sobrar nem faltar nenhuma gota de cada dose. Fiz o twist mais perfeito de todos, com três voltas e as pontas bem redondinhas. Espremi um pedaço da casca no fundo e esfreguei um pouco na borda. Misturei com bastante cuidado para incorporar. Seu Dinei tinha me explicado que os óleos da laranja disfarçam o amargor.

Subi no banquinho, despertei o galo, meu coração pulou assustado porque algumas bolinhas subiram, mas ele era distraído como eu e nem reparou, graças a Deus. Tomou um golão, apertou a boca com os beiços para dentro e abriu de uma vez. Saiu um barulho de champagne estourado.

“Muito amargo?”, perguntei para conferir. Já sentiu seu coração esmurrando tanto os ossos da costela que parece que sua pele vai rasgar para ele fugir?

“Não é que presta para alguma coisa a Maricotinha?” Um barato ser boa em alguma coisa depois de não ter sido boa em nada. “Uma salsicha empanada dessa aí. Por conta da casa, agora vai ser tudo assim. Tá quente isso ainda?”

Escolhi a que estava mais perto da saída de vapor da estufa e entreguei enrolada num tufo de guardanapo. Mordeu e caiu uma lágrima bem gorducha. Ele deu vários sopros bem curtinhos, de boca aberta. O tolete de salsicha lá dentro, pelando.

“A parte boa é que eu posso comer quantas dessas porcarias eu quiser, sabia disso?” Fez um monte encaracolado de maionese por cima e deu outra mordida. Bolotas amareladas sobraram nos dois cantos da boca. Que velho nojento, cruz credo.

Puxou minha mão e fechou meu punho. “Um trem do tamanho disso no meu pâncreas. Tic-tic-tac, uma bomba. O doutor falou que é coisa de seis, dez meses estourando e bye-bye.” Engoliu o resto do salgado, limpou a boca melecada, fez uma bolinha com o guardanapo e jogou na minha cara.

“Vai olhar com cara de bosta para mim, malcriada? O quanto devem ter envenenado essa cabecinha, hã? Nada de bicho papão para essa mocinha aqui, vovô é que é o monstro.” Uma gargalhada e mais um gole para dentro. “Quer dizer que meu lado não importa? Eu tive vááários motivos, viu? Vários. Cê acha que alguém descarrega um revólver assim, por coisa nenhuma? Bala é cara, menina, uma coisinha preciosa”, fez um chiado de chaleira, com a boca meio torta. “Essa insolência aí, essa teimosia da sua mãe. Toda respondona, toda marrentinha. Cê não sabe o que eu passei. Era isso, só que mil vezes pior. Não à toa sempre foram unha e carne essas duas. Filha de uma égua…” A palavra ficou engastalhada e fez ele engasgar. Tirou o chapéu para se abanar. O rosto num vermelho feio, coagulado. Tinha só uma penugem branca de cabelo nas laterais e os mesmos canos de esgoto da mão subiam do pescoço até atrás das orelhas.

“Vou te falar a verdade. Essa coisa de perdão, Jeová, sempre caguei pra isso. Mas sua tia na cabeça da gente, pregando e pregando, cê sabe, bota medo até em assombração. E, no fim, aqueles jardinzões, a gente abraçado nuns leões, parece mais divertido do que terra na cabeça e babau. Uma esperança, algo assim. Essa coisa de morrer deixa a gente sentimental”, tirou um triângulo de lenço do bolso da camisa e passou na testa que parecia meio derretida.

“Assim que soube, comprei um lote e mandei abrir logo o buraco. Nem pra morrer a gente pode vacilar, ninguém faz nada direito, tem que ficar de botija. Inventei de deitar lá dentro, ver se tava tudo certinho, conferir as medidas. Eita, menina, que arrependimento. O cheiro de terra podre impregna no nariz de um jeito. E cê fica lá, imaginando aquilo caindo por cima, tapando sua cara, e tudo acabando para sempre, deitado num berço esplêndido, lacrado de terra e concreto, por toda a eternidade. Saí de lá com essa de pedir perdão, garantir um lotezinho com riacho no jardinzão da vida eterna. Eu não sou o insensível que sua mãe pensa. Meu cu também tranca de medo, menina.”

Teve dificuldade para desabotoar os três primeiros botões da camisa. A mão nem parecia mais descarnada, de tanto inchaço. “É só falar da morte que a bicha manda uns sinais, oh só”, me mostrou os dedos esticados, parecendo salsicha de lata. Pediu um copo d’água. No bar tinha filtro, mas enchi da torneira.

Pedi para ele continuar contando, essas coisas precisam de tempo, precisam marinar. Os velhos são carentes, adoram que a gente escute o que eles querem falar, fáceis de distrair. Tomou o copo todo d’água e, em seguida, o último gole do rabo de galo. Gostou para valer, virou tudinho. Achei aquilo um barato.

“Ninguém é ateu quando o avião tá despencando, não falam assim? Ha-ha. O que eu não suporto é esse circo todo. Pra quê? No fim, ninguém morreu. Ficou ali uma coisinha ou outra, aquela história da bala alojada para sempre do lado do coração e tal, será que é verdade mesmo isso? Sei não, sei não”, levantou cambaleando da banqueta. Tentou se abanar, mas, já quase sem força, derrubou o chapéu no chão. “Sua mãe faz esse escarcéu porque foi a única que viu — a mamãezinha-queridinha-amadinha-lindinha no chão, sangue a dar com pau — foi quem socorreu. Ficou traumatizada a coitadinha? Arre! Frescura, pura frescura. O que não mata, fortalece. Isso ela não entende. Não tá na bíblia isso?” A voz saiu molhada, espessa, como se a garganta estivesse preenchida até a tampa de uma coisa gosmenta.

Olhou para mim, direto nos olhos, pela primeira vez. Me lembrou o cavalo enquanto ele puxava a rédea, apavorado. Dobrou o corpo e, com as mãos no joelho, vomitou um jato vermelho de ovinhos e toletes de salsicha. Puxou o ar bem fundo e caiu de cara por cima do vômito. Uma lambança horrorosa. Ficou por um tempo dando uns pulinhos como aqueles que a gente dá quando sonha que tropeçou.

Fiquei de ponta de pé no banquinho, olhando por cima do balcão, até acabar. Desci e fui até a calçada, desfiz o nó da corda e, depois de fazer um carinho, dei um tapa forte na garupa. O cavalo pinoteou e saiu de galope, a crina amarelinha no vento, voando, correndo para longe, sem olhar para trás.

Peguei a varetinha de ferro e abaixei a porta de enrolar. Lavei o prato, os copos, devolvi cada coisa para o seu lugar, tim-tim por tim-tim. Agora era só esperar amanhecer e pedir para o meu trio ternura me ensinar o que fazer com isso. Subi para casa pensando que, dessa vez, minha mãe ia gostar da minha história.

Michele Lemos

É redatora e escritora, com passagem pela formação de escritores do Museu Casa das Rosas. Já teve contos publicados na revista Trema e na coletânea Festa (Aboio).

Rascunho