Até onde me lembro, meu celular, invariavelmente na mesinha de cabeceira, nunca precisou acionar o despertador. Sempre marco o horário de me levantar — afinal, um homem prevenido vale por dois, e na minha idade às vezes tenho a sensação de ser apenas meio —, mas invariavelmente acordo antes. Aflito para desligar a geringonça, detesto ouvir aquele barulho infernal anunciando o término da preguiça, a precisão de acolhermos a nova manhã, rotinas inevitáveis. Como desadormeço por mim mesmo, cedo começo a implicar com o sabiá cantando lá fora, embora fique ainda um pouco, principalmente agora, no inverno, aproveitando o calor das cobertas. Tento não olhar para o rádio-relógio antiguíssimo, também ali do lado, junto ao copo de água, agora apenas relógio, já que o aparelho se esqueceu de como falar e cantar. Tem os números grandes e muito acesos. Dão à penumbra do quarto luminosidade azulada que me acalma. Permaneço por ali feito linguiça no espeto, girando para cá e para lá, evitando decidir abandonar o quentinho de minha companheira, frequentemente enroscada em mim, seu aquecedor particular. E então dou-me conta de ser dia de academia. Para imediatamente começar a difícil negociação comigo mesmo. Caso desista de puxar ferros, posso virar para o lado, fechar os olhinhos, ganhar mais um tempo de sossego. Faço isso. Adormeço, chego a sonhar por alguns segundos.
Mas a cantoria alada na árvore de frente parece estar sob o meu travesseiro. Nada pior do que um pássaro apaixonado. Acordo ouvindo também os conselhos do geriatra:
— Depois de certa idade, é importante fazer musculação. A atividade física garantirá um envelhecimento mais saudável.
E eu, que não me sinto velho, apesar de ser, tanto que, nos embates das redes sociais, sou muitas vezes brindado com a alcunha de “velho gagá”, o etarismo firme na consideração dos imbecis, desejando firmemente afastar o fantasma da sarcopenia (perda natural da massa muscular), começo a ceder.
Volto a negociar. Vou, não vou, melhor ir, minha cama tão gostosa… Decido.
Corro arrepiado para o banheiro, meu apartamento transformado pelo detestável clima em freezer. Um banho bem quente espanta o torpor, destrava as juntas, quase me sinto um ser humano normal.
Na academia, começam os exercícios, as repetições; concentro-me nas contagens até doze. Sempre doze, mesmo quando pedem para ir até quinze. Lá sou gatuno: roubo um pouco. Supino, supino inclinado, rosca, prancha, abdominal, puxada frontal, elevação lateral, agachamento, leg press, cadeira extensora, crucifixo. É como me sinto. Um Cristo crucificado. Tento não escutar as conversas dos meus companheiros de infortúnio. Ou me atrapalho: perco a contagem. Não é fácil lidar com a minha dúzia — “um, dois, três, quatro…” — e ouvir o falatório ao mesmo tempo. Talvez me considerem antipático. Não é por mal: apenas dificuldade masculina em fazer duas coisas ao mesmo tempo.
Na hora de ir embora, desço as escadas com cuidado, as pernas insistindo em me desobedecer. Bendito corrimão!