Cama ou academia

Ao despertar, inicia-se uma negociação para enfrentar a academia e tentar preservar músculos, humor e dignidade no avanço da idade, sem lamentos
Ilustração: Kleverson Mariano
20/07/2026

Até onde me lembro, meu celular, invariavelmente na mesinha de cabeceira, nunca precisou acionar o despertador. Sempre marco o horário de me levantar — afinal, um homem prevenido vale por dois, e na minha idade às vezes tenho a sensação de ser apenas meio —, mas invariavelmente acordo antes. Aflito para desligar a geringonça, detesto ouvir aquele barulho infernal anunciando o término da preguiça, a precisão de acolhermos a nova manhã, rotinas inevitáveis. Como desadormeço por mim mesmo, cedo começo a implicar com o sabiá cantando lá fora, embora fique ainda um pouco, principalmente agora, no inverno, aproveitando o calor das cobertas. Tento não olhar para o rádio-relógio antiguíssimo, também ali do lado, junto ao copo de água, agora apenas relógio, já que o aparelho se esqueceu de como falar e cantar. Tem os números grandes e muito acesos. Dão à penumbra do quarto luminosidade azulada que me acalma. Permaneço por ali feito linguiça no espeto, girando para cá e para lá, evitando decidir abandonar o quentinho de minha companheira, frequentemente enroscada em mim, seu aquecedor particular. E então dou-me conta de ser dia de academia. Para imediatamente começar a difícil negociação comigo mesmo. Caso desista de puxar ferros, posso virar para o lado, fechar os olhinhos, ganhar mais um tempo de sossego. Faço isso. Adormeço, chego a sonhar por alguns segundos.

Mas a cantoria alada na árvore de frente parece estar sob o meu travesseiro. Nada pior do que um pássaro apaixonado. Acordo ouvindo também os conselhos do geriatra:

— Depois de certa idade, é importante fazer musculação. A atividade física garantirá um envelhecimento mais saudável.

E eu, que não me sinto velho, apesar de ser, tanto que, nos embates das redes sociais, sou muitas vezes brindado com a alcunha de “velho gagá”, o etarismo firme na consideração dos imbecis, desejando firmemente afastar o fantasma da sarcopenia (perda natural da massa muscular), começo a ceder.

Volto a negociar. Vou, não vou, melhor ir, minha cama tão gostosa… Decido.

Corro arrepiado para o banheiro, meu apartamento transformado pelo detestável clima em freezer. Um banho bem quente espanta o torpor, destrava as juntas, quase me sinto um ser humano normal.

Na academia, começam os exercícios, as repetições; concentro-me nas contagens até doze. Sempre doze, mesmo quando pedem para ir até quinze. Lá sou gatuno: roubo um pouco. Supino, supino inclinado, rosca, prancha, abdominal, puxada frontal, elevação lateral, agachamento, leg press, cadeira extensora, crucifixo. É como me sinto. Um Cristo crucificado. Tento não escutar as conversas dos meus companheiros de infortúnio. Ou me atrapalho: perco a contagem. Não é fácil lidar com a minha dúzia — “um, dois, três, quatro…” — e ouvir o falatório ao mesmo tempo. Talvez me considerem antipático. Não é por mal: apenas dificuldade masculina em fazer duas coisas ao mesmo tempo.

Na hora de ir embora, desço as escadas com cuidado, as pernas insistindo em me desobedecer. Bendito corrimão!

Ricardo Ramos Filho

É escritor, professor de literatura e produtor cultural. É presidente da União Brasileiras de Escritores (UBE). Autor, entre outros, de Computador sentimental, O livro dentro da concha, Conversa comigo e Cidade aberta, cidade fechada.

Rascunho