The hunger artist at home
After Kafka
In the days following my fastings
I sit in my empty cage, the door open,
hearing again the taunts of the crowds
who poke me, accuse me of stashed food,
curse me when I don’t respond.
What do they know, the imbeciles?
I would gladly double my forty days
if they’d let me. Then I might
approach the state of skin-covered bone
I aspire to, see in the night —
become a creature as light as the things
I surround myself with: the melon gourd,
the empty ostrich egg, the crow’s skull.
They cannot imagine this, the fools.
I nibble my foul-tasting crusts,
reach out a hand to set spinning
the globe of the moon, close my eyes
to imagine a skeleton slowly walking
across the moon’s surface, then climbing
into a crater to lie there and be still.
O artista faminto em casa
Depois de Kafka
Nos dias que se seguem aos meus jejuns,
sento-me em minha jaula vazia, a porta aberta,
ouvindo novamente as provocações da multidão
que me cutuca, me acusa de esconder comida
e me amaldiçoa quando não falo nada.
O que eles sabem, os imbecis?
Eu dobraria com gosto os meus quarenta dias
se me deixassem. Aí eu talvez pudesse
me aproximar do estado de pele e osso
a que almejo, que vejo na noite —
tornar-me uma criatura tão leve quanto as coisas
de que me cerco: a cabaça do melão,
o ovo oco de avestruz, o crânio do corvo.
Eles não conseguem imaginar isso, os tolos.
Belisco as cascas de gosto ruim,
estendo a mão para fazer girar
o globo da lua, fecho os olhos
para imaginar um esqueleto caminhando devagar
pela superfície lunar, depois entrando
numa cratera, para ali deitar-se e ficar imóvel.
…

The lighthouse keeper’s son
got arrested
as he wobbled home
on a lightless bicycle
after a late drink,
and he asked the cop
if the pockmarked moon
wasn’t light enough
not to mention the Plough’s
seven stars,
and his dad’s beam
igniting the road
twice a minute,
then searching the sea
the umpteenth time
for nothing
O filho do faroleiro
foi preso
enquanto voltava cambaleando pra casa
numa bicicleta sem lanterna
depois de beber até tarde,
e perguntou ao policial
se a lua com suas crateras
não fornecia luz suficiente
— sem falar nas sete estrelas
da Ursa Maior,
e no facho de luz do farol do pai
a iluminar a estrada
duas vezes por minuto,
para depois vasculhar o mar
pela enésima vez
em busca do nada
…

Poker
There were five of us playing that night,
Padge, Kieran, Neal and me —
and, stretched out in his coffin, Uncle Charlie.
We dealt him a hand each time
and took it in turns to bet for him,
waiving his losses, pooling his wins,
for what good were coins to him?
What could he win but his life?
Still, five of us played that night
and when we stopped it was daylight.
We left the cards with him
to remind him, forever, of that game
and Padge, Kieran, Neal and me
went up the road to our beds
and slept until we buried him,
then played until we had to agree
the good hands had gone with Uncle Charlie.
Pôquer
Éramos cinco a jogar naquela noite:
Padge, Kieran, Neal e eu —
e, estendido em seu caixão, o Tio Charlie.
Dávamos cartas para ele a cada rodada
e nos revezávamos para apostar por ele,
perdoando suas perdas e juntando seus ganhos —
afinal, de que lhe serviriam as moedas?
O que ele poderia ganhar, senão a própria vida?
Ainda assim, éramos cinco a jogar naquela noite
e quando paramos já amanhecia.
Deixamos as cartas com ele
para lembrá-lo, para sempre, daquele jogo
e Padge, Kieran, Neal e eu
subimos a rua rumo às nossas camas
e dormimos até a hora do enterro,
para depois jogar até precisar admitir
que as boas mãos haviam partido com o Tio Charlie.
…

Where fishermen can’t swim
Back there where fishermen can’t swim,
where the ice-age coast of Donegal
leaves rocks among the waves,
a lobster-boat cast-off, whose engine
croaked before the rocks were by.
The youngest in the crew leapt out
onto a rock to push the boat away,
then laughed when he couldn’t jump back.
But exactly when he did realise
that the boat would float no nearer;
that all those pulls on the engine cord
would yield no shudders; that no rope
or lifebelt existed to be thrown;
that those flares were lost in cloud;
that the radio would bring a copter
an hour later? He had forty minutes —
to cling while the waves attacked,
to feel the rock gradually submerge.
And they had forty minutes of watching,
shouting into the radio, till he cried
out, sank from view, and stayed there.
Onde os pescadores não conseguem nadar
Lá onde os pescadores não conseguem nadar,
onde a costa da era glacial de Donegal
exibe rochas em meio às ondas,
um barco lagosteiro ficou à deriva, pois o motor
morreu antes mesmo de passar pelas pedras.
O tripulante mais jovem saltou
sobre uma rocha para empurrar o barco,
e riu ao perceber que não conseguia voltar para ele.
Mas quando foi exatamente que ele se deu conta
de que o barco não poderia chegar mais perto;
de que todos aqueles puxões na corda do motor
não provocariam nem sequer um soluço; de que
não havia corda ou boia para ser lançada?
de que os sinalizadores haviam se perdido nas nuvens;
de que o rádio só traria um helicóptero
uma hora depois? Ele tinha quarenta minutos —
para se agarrar enquanto as ondas batiam,
para sentir a rocha submergir aos poucos.
E os demais tiveram quarenta minutos observando,
berrando pelo rádio, até que ele gritou,
afundou e desapareceu de vista, e lá ficou.
…
Gold
After the murder, I called a meeting
to see if we were happy. I declared
I was not — I said I liked the man
we shot. You all disagreed with this.
I asked if you knew him, his wife,
none of you did. “Kill me, then,”
I said. You all stared at me. “Why,
Bernard? Of course we won’t.”
“Why not?” I said. “He was a good
man, a better man than me. And
look at what I’ve brought you —
rubbish, dodgy tales, dross.”
“Easy to dismiss that,” you said.
“We appreciated it all. And you
wandered the wild paths to bring
it back to us — your songs, your
legends, magic stories, your gold.”
I thanked you, but shook my head.
The good man was dead. I didn’t care
what I’d brought you. I needed to go.
I packed up my sagas, my song lyrics,
my alchemy potions, my gold, and
I disappeared.
Ouro
Depois do assassinato, convoquei uma reunião
para saber se estávamos felizes. Declarei
que eu, não — disse que gostava do homem
que matamos. Vocês discordaram.
Perguntei se o conheciam, ou à esposa dele;
nenhum de vocês o conhecia. “Matem-me, então”,
eu disse. Vocês ficaram me olhando. “Por quê,
Bernard? É claro que não vamos.”
“Por que não?”, perguntei. “Ele era um homem
bom, um homem melhor do que eu. E
vejam o que eu trouxe a vocês —
bobagens, histórias duvidosas, lixo.”
“É fácil descartar tudo isso”, vocês disseram.
“Nós gostamos de tudo. E você
percorreu caminhos difíceis para nos trazer
tudo isso — suas canções, suas
lendas, histórias fantásticas, seu ouro.”
Agradeci, mas balancei a cabeça.
O bom homem estava morto. Não me importava
o que tinha trazido a vocês. Eu precisava ir.
Empacotei minhas sagas, as letras das minhas canções,
minhas poções de alquimia, meu ouro,
e sumi.