Enquanto lia uma novelinha de Tyniánov

Conto inédito de Luciana Molina
Ilustração: Conde Baltazar
01/09/2026

Esses dias me lembrei do Tobias. Não sei por quê. Ou talvez eu saiba. Meu primo Michel disse que esteve em Praga e visitou o Museu de Kafka, que fica a poucos metros da Ponte Carlos. Ele mandou um relato mais ou menos detalhado de como é o museu e de suas impressões. Em circunstâncias normais, esse seria um assunto que me absorveria, mas meu primo deu um jeito de tornar a matéria protocolar e enfadonha. Essas casas em homenagem a escritores geralmente são instaladas em alguma antiga habitação do autor. Não é o caso do museu de Kafka. Uma das casas em que morou Kafka hoje pertence à Embaixada dos Estados Unidos na República Tcheca. O museu fica, na realidade, em uma antiga fábrica. E seu principal trunfo é ter um formato recortado e sinuoso, o que por vezes remete a um túnel fantasma.

Tobias estudou Kafka no mestrado. Uma obra não tão lembrada quanto A metamorfose ou O processo. Estudou Contemplação. Um belo livro de Kafka, sem dúvida — talvez aquele de tom mais abertamente místico. Uma escolha de tema que só acrescenta camadas à personalidade já curiosa de Tobias.

O que eu fiquei sabendo alguns meses após o ocorrido é que, na defesa de sua dissertação, ou, ainda, na qualificação, isto é, no exame que se faz alguns meses antes da defesa final, levou uma sova de Hertha Rethel, e, por isso, concluído o mestrado, abandonou de vez a academia. Eu perdi o contato com ele há muitos anos, ainda no doutorado. Depois que saí para fazer estágio de pesquisa na Alemanha, creio que não nos falamos mais nenhuma vez. Ele nunca teve redes sociais. Duvido muito que resolvesse ter justo agora. É claro que eu poderia ter tentado entrar em contato por e-mail. Mas imaginei que estranho seria depois de tantos anos mandar mensagem questionando o que andou fazendo nos últimos tempos. E eu acho que não teria nada a dizer a ele. Qualquer intimidade que algum dia tivemos já não existe mais. Se ainda está vivo, deve ter desaparecido pelo interior de Minas Gerais, onde tem família. São João del-Rei, creio. A probabilidade de nos encontrarmos por acidente é perto do zero. Eu nunca vou ao interior de Minas. Ele, por sua vez, até onde lembro, era um sujeito bastante estacionário, pouco dado a passeios ou viagens de turismo. Aliás, as viagens de turismo parecem avessas a sua índole. Não. Jamais encontraremos Tobias visitando o museu de Kafka em Praga, por exemplo. Creio que, se ele de fato abandonou a academia, com certeza nunca mais nos veremos, o que parece ser parcialmente confirmado pelo fato de que não nos vemos há 20 anos.

Eu o conheci aos 22, em um fim de semana de janeiro. Viajei para a cidade para fazer a matrícula no doutorado, que, à época, só poderia ser feita de maneira presencial, na sala da secretaria. Tempos depois eu e ele teríamos um rápido affair — que durou apenas, se não me falha a memória, dois encontros. Quando eu o conheci naquele fim de semana, essa possibilidade não passava nem remotamente pela minha cabeça, por motivos que ficarão logo claros.

Tobias parecia um sujeito deveras anacrônico. Quando você vai ao museu de Kafka, relata Michel, são exibidas filmagens antigas em que pessoas vestidas à la início do século 20 passeiam pelas ruas mais conhecidas de Praga, muitas das quais no estilo barroco ou ainda mais antigas, que datam da Idade Média. Homens com alfaiataria e cartola — várias réplicas de Franz em sua foto mais famosa — andando por entre as estátuas da Ponte Carlos. E você se sente ainda mais estranho porque, assistindo aos vídeos em preto e branco, distrai-se para olhar o caminho até o hotel pelo seu iPhone. A sensação com o Tobias era frequentemente essa. De que estávamos diante de um personagem de outra época. E, por isso, inevitavelmente nos sentíamos deslocados na presença um do outro. Um de nós dois com certeza estaria na época errada. Durante muito tempo pensei que fosse eu, mas agora vejo que me equivoquei.

Aos 32, recebi um e-mail anônimo enviado de um endereço descartável. Só agora me ocorre que pode ter sido uma mensagem enviada por Tobias. Questionei várias pessoas, em particular homens e ex-amantes, se eles teriam sido o autor da mensagem, o que todos negaram. Mas é evidente que nunca questionei Tobias. O que se infere da mensagem é que se trata de alguém que perdeu o acesso a mim. Além disso, parecia ter certo arrependimento em relação a como me tratou. Havia também uma rápida autodescrição, genérica o suficiente para que pudesse englobar quase qualquer homem com quem já me relacionei intimamente. Nosso mensageiro anônimo se autodescrevia como uma pessoa muito confusa e ansiosa, o que parece ser quase um pré-requisito para se relacionar comigo. Se o cara achava que era inesquecível, foi engolido pelo número expressivo de homens com quem me relacionei ao longo da vida e que casam perfeitamente com a descrição. Em termos estilísticos, a mensagem apresentava um tom pomposo e grandiloquente, o que, pensando bem, talvez reforce Tobias como suspeito.

Não sei se ele pensa muito em mim. Tampouco penso muito nele. Mas ocasionalmente calho de pensar, sim, como também penso em outras pessoas que fui abandonando ou que me abandonaram pelo caminho. Apesar de tudo, recordo-o com certa ternura. Talvez sua imagem retida na minha memória seja a desse fim de semana, muito mais do que a de tudo que ocorreu depois.

Ele também escrevia literatura. Aliás, levava muito mais a sério o ofício do que eu. Não fiquei sabendo de nenhuma obra sua que tenha estourado. Ao menos não há nenhuma com seu nome de batismo. Talvez tenha mantido seus textos ocultos esse tempo todo e no futuro as próximas gerações se depararão com escritos póstumos. Fico imaginando, pelo que sei dele, que ele não deve ter seguido uma vocação em sentido estrito. Mas me recordo do fim de semana em que o conheci. Alto verão no Brasil, dia ensolarado, e, no entanto, cheio de enigma, curiosidade, mistério.

Algumas semanas antes nosso orientador perguntou na lista de e-mails se alguém teria disponibilidade para ser caseiro por cerca de um mês na casa de Hertha Rethel. Ela e o marido sairiam de férias pela Europa, e não gostavam de deixar a casa por tanto tempo desassistida. Ademais, havia os dois labradores, que precisavam ser cuidados e alimentados. Quem ficasse na casa teria acesso à enorme biblioteca do casal e outras comodidades. Era uma casa ampla, confortável, em uma parte nobre da cidade. Dos orientandos, o Tobias, que à época já morava no estado, tinha disponibilidade, e logo se prontificou. Eu ainda estava encerrando um contrato de trabalho. Além disso, morava longe. Declinei a proposta. No entanto, quando fui fazer a matrícula, ofereceram-me a possibilidade de ficar em um dos quartos do casarão, e dessa vez aceitei, pois minhas economias como professora do ensino médio eram muito restritas. A matrícula deve ter levado no máximo dez minutos, e eu não tenho nenhuma memória específica desse momento.

Tampouco me recordo se peguei um voo para a capital ou direto para a cidade. Ou teria ido de ônibus? Naquela época era possível comprar passagens aéreas por valores módicos. Bastava ficar atenta às promoções.

Mas lembro com clareza de ter combinado com o Tobias, que, aliás, eu nunca tinha visto nem por foto (o que chama a atenção, porque, já naquela época, com as redes sociais, conhecíamos todo mundo previamente pelo menos por foto), que eu desceria em um ponto de ônibus específico, que ficava muito perto da casa de Hertha Rethel. Não sei se era sábado ou domingo, mas sei que eu, com toda a probabilidade, teria de fazer a matrícula em uma segunda-feira. Ou seja, não sei se o fim de semana durou um dia, um dia e meio ou dois dias. Mas sei que ele estaria me esperando ali no ponto de ônibus.

Uma característica muito própria dele e que logo ficou evidente é que ele era uma pessoa muito solícita. Quando desci do ônibus na cidade para o endereço que recebi por mensagem, foi fácil identificá-lo, pois somente ele estava ali parado à minha espera. Não havia engano sobre isso: ele era o Tobias, e eu era eu. Mesmo assim, ele interrogou meu nome. Eu confirmei. Era terrivelmente sem traquejo social, como sou, ainda hoje. Sou o tipo de pessoa que não se sente à vontade no próprio corpo. Tenho esperanças de que a experiência tenha melhorado meus modos, mas nem isso posso afirmar com segurança. Seja como for, naquela época eu era uma jovem mulher sem traquejo social conhecendo pela primeira vez um homem.

Não foi tão difícil quanto eu temia, pois Tobias, talvez por ser do interior, tinha aquele jeito de pessoa humilde, que está sempre a seu dispor. Se eu me sentia constrangida, era por culpa minha, e não dele. Apesar de a diferença de idade entre nós dois não ser, na realidade, tão significativa, estava diante de alguém mais velho, e que assim me parecia. Uma pessoa experiente e vivida, quase um matuto. Já eu tinha 22 anos mais vividos em livros do que em experiências concretas de mundo. Pensando agora, eu estava para iniciar o doutorado, e ele o mestrado. Então talvez para ele a sensação fosse do espelho invertido. Talvez esse fato explique por que ele sempre me tratou com deferência e solenidade.

Ele se ofereceu para carregar minha mala? Eu aceitei? Talvez se eu estivesse com uma mala extra e ele tenha insistido muito. Sou uma dessas mulheres que gostam de fazer tudo por si, inclusive levar as próprias malas. Agora abundam na internet youtubers afirmando que falta energia feminina para mulheres como eu, justamente porque não me permito ser servida, e que tudo isso diminui minha atratividade para os homens. Caso ele tenha insistido muito, o que é bem provável, é possível que eu tenha aceitado a oferta. Fomos caminhando até chegar à casa de Hertha Rethel, que ficava a poucos metros do ponto marcado para o encontro.

Logo de imediato eu percebi que estava diante de uma pessoa muito particular, que se destacava na paisagem dos estudos de pós-graduação de Humanas. Começa pelo fato de que ele era um homem que parecia ocupar papéis tradicionalmente masculinos, ou talvez tenha ficado com essa impressão porque, ao desempenhar papel de caseiro para Hertha Rethel e seu marido brasileiro, ele nos induzia a pensar isto: que fosse bom em serviços de manutenção doméstica. Alguém que poderia ganhar dinheiro como marido de aluguel sem problemas. Isto é, como faz-tudo. Estava convencida de que ele era bom com trabalhos manuais. Não poderíamos ser mais diferentes, portanto.

Ao longo da vida, conheci, no meio profissional, muitos homens que não sabem trocar a resistência de um chuveiro, e muitas mulheres que não sabem fazer arroz ou feijão. Mas o Tobias certamente saberia. E eu provavelmente me surpreenderia com outras coisas que ele sabia fazer. Aliás, como fora frequentemente um motivo cômico entre o grupo de pesquisa, ele havia, já naquela época, trabalhado em várias funções aleatórias, e estávamos todos convencidos de que só uma pessoa com muita desenvoltura poderia fazê-lo.

Leitores assíduos são acostumados a ficar muito tempo dentro de casa, ocupando-se somente dos livros. Sobra pouco tempo para ir ao mundo e aprender trabalhos manuais. Mas o Tobias não: ele aprendera inúmeras coisas práticas e, além disso, passara uns bons anos dedicando-se à leitura de livros. Tudo isso com a devoção daqueles que não se dedicam profissionalmente aos livros. Ele nunca conspurcou seu gosto por livros com a profissionalização. É fato, contudo, que as pessoas precisam ganhar dinheiro para viver. E algumas não sabem fazer muita coisa além de ler e escrever.

Quando chegamos à casa, fui instalada no antigo quarto da filha mais nova do casal. Ele me explicou que o cômodo estava vago há muitos anos. Os filhos já eram adultos. O mais velho atendia como psicanalista. A mais nova, como astróloga. Naquele quarto havia traços de uma ocupante adolescente. Alguns CDs de música pop do início dos anos 1990 estavam posicionados sobre a cômoda.

“Vou deixar você descansar um pouco enquanto eu passo um café na cozinha. Posso lhe mostrar a casa depois. Aqui em Jardim das Cerejeiras tem um restaurante a quilo não muito caro e podemos almoçar lá daqui a pouco.”

Enquanto ele desaparecia pela casa, fiquei observando o quarto ao redor. Aproximei-me das fotos na estante, com o casal e uma garota na casa dos 16 anos.

O marido de Hertha Rethel faleceu cerca de seis anos após esse fim de semana. Já ela o sobreviveria por pelo menos dez anos. Agora estão ambos falecidos. Ele foi professor de Filosofia na mesma universidade em que ela trabalhou. Um grande estudioso de Schopenhauer. Eu lembro que mais tarde a conheceria de maneira oficial em um churrasco na casa do meu orientador. Não lembro se o marido estava. Como é meu costume, fiquei absolutamente constrangida. Ainda hoje me envergonho desse episódio porque mal consegui conversar com ela. Passei um fim de semana em sua casa, e nunca consegui formular uma frase inteligente em sua presença. É o que me ocorre quando admiro em excesso uma pessoa. Por isso nunca tive a ambição de conhecer um escritor que eu admirasse muito. É possível que eu restasse muda ou caísse dura no chão. Lembro apenas da rabugice com que ela falou do gosto da pitaia, que, se fosse gosto de nada, daria no mesmo. É particularmente surpreendente o contraste entre o gosto e a aparência deslumbrante da fruta. Sobre isso, estamos de pleno acordo.

Mas agora eu estava na casa de ambos e parecia particularmente íntimo estar ali sem nunca ter sido oficialmente apresentada àquelas pessoas, só as conhecendo de nome, de foto, e por algumas publicações que de fato li. E eu transitaria pela casa por cerca de dois dias, dormiria na cama da filha por duas noites como se fosse Cachinhos Dourados invadindo a casa dos ursos, me despiria no banheiro social, com uma grande banheira que eu não usaria, para tomar uma ducha. Na manhã seguinte me sentaria à mesa da cozinha para tomar um café com Tobias e conversar sobre literatura, enquanto ele enrolava mais um cigarro de palha e esquentava pães de queijo comprados na padaria da esquina.

Lembro inclusive de ter deitado naquela cama de adolescente e, como tinha dificuldade de dormir em um colchão desconhecido, batia siririca para chamar o sono. Devo ter deitado de bruços, como sempre faço, e ter colocado os dedos por dentro da calcinha enquanto me imaginava sendo dominada por trás por um homem qualquer por quem estivesse obcecada naquela época. Com certeza não pensaria em Tobias, pois não o achava atraente em absoluto. Na realidade a primeira impressão visual que tive dele ao descer daquele ônibus em janeiro foi de que ele era um homem excepcionalmente feio.

Era estranho e um pouco desavergonhado — quase como um abuso de confiança — bater siririca em casa alheia, e na cama de outra pessoa. E, no entanto, eu o fazia assim mesmo, na esperança de adormecer. Com frequência começo a me tocar e nem chego ao ápice, pois o relaxamento proporcionado pela autocarícia já me permite cair no sono assim mesmo nessa posição. Ainda hoje, ocasionalmente, acordo de madrugada com a mão formigando.

Assim que me cansei de olhar para as fotos no quarto, encontrei Tobias na cozinha. A chaleira esquentava no fogão e ele manipulava a palha para fazer seu cigarro. Ele sabia usar as mãos e as usava com frequência. Quase o tempo todo preparava cigarros ou fumava. Há pessoas, por outro lado, que nunca sabem o que fazer com as mãos. Nunca sabem o que fazer com as mãos quando posam para uma foto. Ou quando ficam paradas conversando num grupo. Nunca sabem o que fazer com as mãos quando são apresentadas a uma nova pessoa. Ou quando, de luzes apagadas, conhecem o amante biblicamente. As mãos atrapalham e é quase como se fosse melhor não as ter.

Antes de terminar o preparo do café e acender o cigarro, ele deu um pulo no quintal, acariciou os cachorros, e dispôs a vasilha de ração para que eles pudessem se alimentar. “A Hertha detesta que eu fume aqui. Mas o que posso fazer?”

Aceitei um pouco de café, e foi aí que ele ficou me perguntando sobre o meu projeto de doutorado. Meu projeto foi modificado ao longo dos cinco anos que levei para finalizar a tese, mas, pelo que posso me lembrar, era uma proposta de análise de um autor que, naquela época, eu lia serialmente, um livro atrás do outro. Mas já não pego mais para ler há vários anos o velho Sebald. Tobias não simpatizava com Sebald. Aliás, ele quase não gostava de nada que fosse nosso contemporâneo. Sua visão sobre literatura era clássica, em essência. Alguém poderia supor que Kafka era uma exceção, mas se enganaria. O Kafka de que ele gostava era o clássico, como ficou cada vez mais claro conforme ele avançava em seus estudos.

Ele me fez contar sobre meu projeto e ficou interrompendo de um jeito um pouco implicante. Fazia comentários jocosos, mas nunca ofensivos. Ao contrário do meu, o senso de humor de Tobias era sempre cordato. Eu também não me aborrecia ou me intimidava, porque não só me sentia à vontade como também desejava qualquer assunto literário.

Ele conseguia tempo para ler livros enormes, mas ao mesmo tempo tinha um aspecto saudável, de pele corada pelo sol, e compleição esbelta e rígida, de alguém que está em forma e tem força física. No entanto, era feíssimo. A figura do seu rosto era muito pouco agradável. Por conta de seu temperamento modesto, vestia-se sempre com muita simplicidade, sem qualquer atenção ou maior preocupação com a estética ou o estilo. Sempre refleti sobre o fato de que alguns literatos depositam toda a sua preocupação com a forma na disposição das palavras no texto, de maneira que nada restasse de apuro estético para as demais áreas da vida. O dândi ao contrário. Esse era com certeza o caso de Tobias, que se vestia muito mal, quase maltrapilho. Era completamente desprovido de vaidade, e tampouco parecia ter qualquer gosto específico para as coisas, exceto pelo cigarro de palha — que devia ser mais vício que gosto, pensando bem. Talvez a literatura também fosse mais vício que gosto.

Algo que diminuiu minha ansiedade social perante ele foi saber que eu poderia abordá-lo com um assunto literário, pois ele com quase toda certeza teria uma opinião a compartilhar, mesmo que eu discordasse radicalmente dela, o que ocorria com uma frequência espantosa. Às vezes achava sua visão dos temas muito indisciplinada e diletante. Coisa de quem só poderia ser um completo ignorante em História, Sociologia, Filosofia… Uma vez ele me disse, e considerei o suprassumo da heresia, que o conceito de capitalismo não fazia o menor sentido. Às vezes achava que ele só expressava essas opiniões para assombrar quem o ouvia. Mas ele era sem dúvida uma dessas pessoas não domesticadas pelas instituições educacionais, o que, no caso de um escritor, era decididamente uma vantagem.

Gostava de compartilhar com ele o que eu chamo de minhas pequenas teses sobre arte. Embora eu goste de cultivá-las, nunca darão uma tese de verdade ou mesmo um artigo breve. Lembrei de uma daquele tempo, que eu compartilhei expressamente com ele nesse fim de semana: no fundo, Holy Motors e Cosmopolis eram o mesmo filme. Pensa bem. Um homem rico viaja em uma limusine enquanto tem encontros fortuitos pela cidade. Mas Holy Motors era muito superior, e pouco me importa que o segundo fosse uma adaptação de Don DeLillo.

Passamos ao tour pela casa. Um professor de literatura alemã da principal universidade do Paraná já havia definido Hertha Rethel como a maior especialista em Goethe do Brasil, quem sabe da América Latina. E o marido também usufruía de certo reconhecimento. Como era de se esperar da morada de dois intelectuais dessa envergadura, havia livros por toda parte. Passávamos por um corredor em que éramos cercados por eles, quase como se todo aquele arsenal pudesse cair sobre nós e nos esmagar a qualquer momento.

Do que me lembro com mais nitidez é que, passando pelo corredor, chegava-se ao escritório de Hertha Rethel, que consistia em uma salinha minúscula, com livros socados por todas as paredes. Não sei se havia janela naquele cubículo, mas a sensação que tive foi de claustrofobia. Uma pessoa com pressão baixa como eu poderia desmaiar facilmente naquele lugar. Por isso nem cheguei a entrar no aposento.

Cada parte do casal tinha seu próprio escritório. Para ver o escritório do marido, era necessário ir até o anexo, uma espécie de puxadinho. Você passava pelo quintal, subia uma escada, e dava de cara com o escritório dele. Lá dentro havia até banheiro e sofá, caso o ocupante quisesse ficar trabalhando até mais tarde e pernoitar por ali.

À noite, nos sentamos diante da televisão para ver um dos filmes em DVD da coleção do casal. Eu é que sugeri um clássico que já queria ver há tempos: A regra do jogo, de Jean Renoir. Estava achando o filme chatíssimo. Não sei se havia sido a privação do sono, mas mal aguentei ficar com os olhos abertos. Fiquei constrangida de não conseguir manter a pose. Vencida pelo sono, disse que precisava me deitar. Acredito que Tobias viu o filme até o final, enquanto manipulava seu cigarrinho de palha.

Ilustração: Conde Baltazar

Posso dizer com segurança que li uma novelinha de Tyniánov naquele fim de semana: O tenente Quetange. Não lembro de nada em particular da novela. Sei que escolhi pelo tamanho, pois me parecia mais factível ler algo menor em tão pouco tempo. E li nos dois dias de manhã cedo, pois, aparentemente estranhando a cama, acordei nas primeiras horas de luz. Fazia um silêncio imenso naquela casa enorme, como pude constatar indo ao banheiro pé ante pé. Presumindo que meu anfitrião ainda estivesse ferrado no sono, achei mais simpático permanecer reclusa lendo a novelinha.

Quando resolvi sair do quarto de vez no dia seguinte, Tobias estava preparando ovos mexidos na cozinha. Ele me recebeu com um sorriso. Enquanto segurava a frigideira e manipulava a espátula, meu olhar o circundava. Usava uma camiseta regata e seus braços estavam à mostra. Virou para mim num relance. Fiquei constrangida e me esquivei, olhando para o chão.

“Conseguiu dormir bem? Eu sempre faço o café da manhã para a minha namorada desse jeito. Estamos juntos desde o ensino médio… Há cinco anos, ela foi diagnosticada com leucemia. Foi uma barra, mas conseguimos superar. Ainda tem algumas sequelas do tratamento. Mas, fora isso, acho que está até bem. Estamos acostumados a namorar à distância, pois houve uma época em que ela foi estudar em Santa Maria… E você, namora?”

Fiquei surpresa com a pergunta como se tivesse sido questionada sobre um tema que fugia completamente à minha especialidade. Não era muito de falar de mim. Disse que não, sem mais detalhes. Ele resolveu então investir em outro flanco: “Você está trabalhando agora?”

“Sim, sim. Tenho um contrato com uma escola pública. Vou romper para vir para cá. Só estou esperando passar o carnaval. Dou aula de inglês.”

“E como é a experiência?”

“Não é tão ruim, na verdade. Gosto mais das aulas do que antecipava. Mas o que dá pena é que tem uma biblioteca até muito boa, com vários livros novos, e ela vive absolutamente fechada, por falta de bibliotecário. Eu inclusive li vários exemplares interessantes tirados da escola. O homem de areia, de Hoffmann, por exemplo. Aquilo tudo lá e os alunos sem poder pegar os livros por falta de bibliotecário. Uma coisa sem sentido.”

“Se ninguém tá lendo, você deveria era pegar uns e ficar com você.”

Eu ri sem jeito diante da ideia.

“Que isso. Sou certinha demais para isso.”

“Mas raciocina comigo. Não há pior uso para livros do que ficarem trancafiados numa biblioteca sem que ninguém possa lê-los.” Achei o argumento imbatível, mas me refugiei no imperativo categórico.

“Eu não faço o que é proibido. Não consigo.”

“Pega aí esse pano de prato pra mim.”

“Onde?”

“Aí do lado da sua cabeça.”

Ao pegar o pano de prato, esbarrei em um galinho de porcelana que ficava numa das prateleiras. Ele caiu no chão e se espatifou sem que eu pudesse salvá-lo a tempo.

“Ai, meu deus!”, gritei como se estivesse sofrendo fisicamente com o golpe. O galinho era o terceiro de um grupo de galinhos pouco elegantes. É o que em língua alemã chamariam de kitsch.

“Ah, que isso. Não é grande coisa. Não dá nada”, Tobias me consolou, ao ver minha consternação por ter quebrado um objeto da casa de Hertha Rethel. “Acho que ela nem vai reparar.”

“Tem certeza? Eu posso pagar, sei lá.”

Ele, ligeiro, pegou uma vassoura e uma pá, e começou a varrer os cacos com um sorriso sereno no rosto, sem demonstrar qualquer preocupação ou incômodo. “Isso realmente não tem a menor importância.”

Suponho que, ironicamente, o interesse maior deste relato no futuro talvez seja o testemunho de alguém que visitou a casa de Hertha Rethel e de seu marido brasileiro. O retrato de Tobias, este desaparecido no interior de Minas Gerais, é de menor importância. E, no entanto, é por isso que o estou escrevendo.

A casa ainda estaria na família? Depois de um tempo, ouvi dizer que eles a colocaram à venda. Como haviam se aposentado, preferiam morar na capital. Com os filhos crescidos, não fazia sentido ocupar uma casa tão grande. Sozinha, ainda menos. Talvez a biblioteca tenha sido doada a algum arquivo universitário. Talvez as margens de seus livros anotados sejam analisadas no futuro por estudantes ávidos por conhecimento.

Fui comentar com Michel que gostaria de escrever um livro sobre Kafka. Passei por quase tudo da bibliografia secundária dita obrigatória: Benjamin, Adorno, Anders, Calasso, Robert, Casanova… Penso, contudo, que há uma boutade em um ensaio de Susan Sontag que resume a grande questão para mim: mil intérpretes já tentaram imputar inúmeros significados a Kafka, sem que pudessem chegar perto de compreendê-lo. Em particular, há três tradições que se destacam: a religiosa, a psicanalítica e a social.

Minha opinião é a de que todas estão certas. A ascendência judia. A pressão familiar. O trabalho burocrático. Tudo isso está em Kafka. E outras coisas que as próximas gerações de críticos e escritores tentarão dissecar.

Quando morei em Praga, visitei o museu ao menos três vezes. No primeiro mês, com ansiedade e empolgação. Nas outras duas, para acompanhar algum amigo ou parente que visitava a cidade pela primeira vez. Meu primo ainda deve me mandar outros relatos sobre sua viagem a Praga. Talvez comentando sua visita ao túmulo de Kafka, o que, convenhamos, será um aborrecimento ainda maior. Sabe-se lá que outras memórias vai despertar.

Na realidade, Kafka não foi religioso, e só se reaproximou do judaísmo nos anos finais de vida, já à beira da morte, e sob a influência da mulher com quem estava na época. Era judeu por uma questão étnico-cultural, e não por convicção interior. Parece um exagero ler a obra de Kafka à luz do misticismo judaico. Mas talvez não tenha sido seu próprio judaísmo que informou a obra, e sim o judaísmo dos outros, daqueles com quem conviveu pela vida. A verdade é que um autor nunca sabe de onde vem seu próprio material.

A verdade é que, quase para provar a mim mesma que eu conseguia fazer algo proibido, acabei levando alguns livros da biblioteca comigo antes de largar o emprego em meados de março. Sem dúvida foi Tobias quem plantou a ideia na minha cabeça. Só não lembro se depois cheguei a confessar para ele o furto. Se sim, ele talvez tivesse sorrido sibilado, absolutamente orgulhoso de ter conseguido influenciar meu comportamento. Quanto a mim, ficaria particularmente constrangida se encontrassem entre meus pertences aqueles livros de VENDA PROIBIDA com o nome da escola em que trabalhei. No entanto, ao que tudo indica, caso venham a descobrir isso no futuro — se por acaso meu espólio interessar a alguém — eu provavelmente estarei morta, ou seja, já não fará a menor diferença e eu não terei mais nada de que me envergonhar ou me orgulhar.

Luciana Molina

É autora do livro de poesia híbrida Perder todo mundo (Patuá, 2026) e da pesquisa A arte nova e o novo na arte na filosofia de Theodor W. Adorno (Dialética, 2022), além de ter publicado diversos ensaios e artigos. Atualmente, trabalha em um livro de ficções, de que faz parte o conto Enquanto lia uma novelinha de Tyniánov. Vive em Praga (Tchéquia).

Rascunho