Sobrevivente e imortal

Aos 90 anos, Ignácio de Loyola Brandão celebra seis décadas de carreira com o lançamento de Risco de queda, seu 59º livro, cujo cenário é o caos urbano de São Paulo
Ignácio de Loyola Brandão, autor de “Risco de queda”. Foto: Fernando Rabelo
01/08/2026

Dois mil e vinte e seis é um ano emblemático para Ignácio de Loyola Brandão. Há exatas três décadas, ele sofria um aneurisma cerebral que por muito pouco não lhe tirou a vida. Agora, trinta anos depois, o escritor celebra a vida com as comemorações de seus 90 anos, completados em 31 de julho. De quebra, lança novo romance, Risco de queda, livro de número 59 em uma carreira de seis décadas — quase um por ano de vida literária.

É sobre essa trajetória intensa, cheia de livros impactantes, prêmios, viagens, encontros, ensinamentos e aprendizados que ele falou ao Rascunho. A entrevista aconteceu em 16 de junho (coincidentemente data do Bloomsday), um dia triste para a literatura brasileira, que perdeu o romancista e colunista do Rascunho Raimundo Carrero. “Mais um amigo querido e grande escritor que se vai”, lembrou Ignácio durante o bate-papo, realizado por videochamada.

A última entrevista de Ignácio ao Rascunho ocorreu há dez anos, por conta de seus 80 anos de vida. De lá para cá, o escritor nascido em Araraquara, mas que adotou São Paulo como cenário para sua ficção, publicou dois romances e um livro infantil, dedicado à neta, que ao lado do gato da família, foi presença constante no bate-papo.

Em fase de edição, Risco de queda se distancia dos dois últimos romances distópicos que o escritor publicou ao apresentar uma história bastante calcada no presente, com um toque noir. “O personagem tem quase 90 anos e vive numa São Paulo caótica, onde há muita violência, com a cidade tomada pelo consumo de drogas, principalmente o crack”, diz. Seria então um livro autobiográfico? Ignácio refuta totalmente a ideia e afirma que levou para todos os seus livros questões observadas em sua vida pessoal. Como exemplo, cita as experiências que contribuíram para a construção de seus dois romances mais aclamados: Zero e Não verás país nenhum.

A seguir, o imortal da Academia Brasileira de Letras demonstra que a lucidez e a urgência de sua escrita continuam intactas. Entre memórias afetivas, reflexões sobre o envelhecimento e um olhar agudo sobre o Brasil contemporâneo, Ignácio de Loyola Brandão reafirma por que é uma das vozes mais importantes da nossa literatura.

 • Aos 90 anos, você lançará um novo romance. Em que fase está o livro?
Bem, o livro já está na editora [Global] para os últimos retoques. Chama-se Risco de queda. Quem leu gostou. Valter Hugo Mãe, por exemplo, adorou. Estivemos juntos recentemente no Maranhão. Ele viu a prova, tomou-a da minha mão e a levou embora. Aí disse que tinha adorado o livro — gostado tanto que se ofereceu para fazer o prefácio, que inclusive já escreveu e me enviou. Mas é um livro completamente diferente do meu romance mais recente, Deus, o que quer de nós?, escrito durante a pandemia de covid-19.

• E como é a história?
O personagem tem quase 90 anos e vive numa São Paulo caótica, onde há muita violência e a cidade está tomada pelo consumo de drogas, principalmente de crack. O prefeito está demolindo tudo, inclusive prédios históricos, para construir torres enormes, de cem andares — numa espécie de síndrome de Dubai. Não há mais espaço para tantos carros nas ruas. A especulação imobiliária está tomando conta de tudo. Então, o livro fala dessas transformações da cidade de forma fragmentada, sem encadeamento entre os capítulos, pois é composto de vários segmentos. Inclusive porque é assim que vejo a cidade: toda segmentada. Moro em Pinheiros, mas, ao lado do meu bairro, há lugares completamente diferentes uns dos outros. Por outro lado, o livro também reflete muito a violência, com as facções tomando a cidade e o país. Esse é, então, o cenário em que o personagem está inserido. Nesse contexto, há outro problema. O protagonista descobre que um antigo algoz vive em uma casa de repouso. Esse oponente, um ex-professor de índole muito duvidosa, foi responsável por diversos atos que o prejudicaram ao longo da vida. Ele vai até a casa de repouso, mas o inimigo não o reconhece. O personagem se frustra porque queria que o homem se lembrasse dele. Então, o dilema passa a ser: matar ou não o homem que tanto o prejudicou ao longo da vida? Em meio a tudo isso, há ainda uma contextualização do que acontece no mundo contemporâneo, com guerras na Europa e no Oriente Médio, Trump, Rússia, bolsonarismo etc.

• Há exatos dez anos, fizemos uma longa entrevista por ocasião dos seus 80 anos. Nesse intervalo, você publicou três livros: dois romances de fôlego (Desta terra nada vai sobrar a não ser o vento que sopra sobre ela e Deus, o que quer de nós?) e um livro infantil (Só sei que nasci, dedicado à sua neta). É uma excelente média para um escritor de 80 e tantos anos, não é?
Sim, foi uma média boa. Entre eles, Desta terra nada vai sobrar a não ser o vento que sopra sobre ela foi muito bem. Também foi publicado em Portugal… e foi bem recebido pela crítica. Depois que foi publicado em Portugal, passei a frequentar o Correntes d’Escritas, um grande encontro de escritores de expressão ibérica realizado em Póvoa de Varzim, perto do Porto, cidade natal de Eça de Queirós. É um encontro belíssimo, que, ao longo de sua história, já reuniu centenas de autores. Desta terra… é uma espécie de continuação de Não verás país nenhum.

• Por falar nisso, o romance acabou se tornando a última peça de uma trilogia, juntamente com Não verás país nenhum e Zero. Dado o espaço de tempo entre a publicação do primeiro e do último livro, foi uma trilogia involuntária?
Totalmente involuntária. Porque tudo começou com o Zero, em 1964.

• Que também foi um livro “involuntário”, que nasceu meio por acaso, certo?
Sim, porque, quando veio o golpe militar de 1964, o Última Hora, jornal em que eu trabalhava, foi fechado. Um grupo de policiais quebrou tudo e prendeu várias pessoas. Quando voltamos, o jornal estava totalmente decapitado. Eu era crítico de cinema e fazia o caderno de cultura, o H Revista, mas, com a bagunça que se instalou, acabei virando editor. No entanto, a partir daquele momento, todas as matérias que eu fechava tinham de passar pelo crivo de um censor antes de serem encaminhadas à gráfica. Instintivamente, guardei as matérias censuradas e as levei para meu apartamento, na praça Roosevelt, em São Paulo. Depois de um ano, a atriz Ítala Nandi olhou todo aquele material acumulado na minha sala e perguntou o que era. Contei que eram textos censurados pela ditadura. Então, ela disse: “Ignácio, isso é um livro.” Foi quando deu um clique na minha cabeça. Mas aí, como montar aquilo? Havia de tudo ali: política, economia, literatura, cotidiano, fotografias e charges. Então, comecei a separar o material e a escrever pequenas crônicas a partir do que tinha, na tentativa de entender o que era aquilo. Fiz isso durante dez anos. Na época, li Manhattan Transfer, de John Dos Passos, que me influenciou muito pela fragmentação e pela colagem. Foi aí que entendi como seria o meu livro.

• E, depois de pronto, você teve problemas para publicar o livro, certo?
Sim, treze editoras recusaram o romance. Nessa época, eu já trabalhava na revista Realidade. Os originais estavam sobre minha mesa quando o grande dramaturgo Jorge Andrade passou, viu o material e perguntou o que era. Eu disse: “É meu livro novo, que nunca será publicado.” Ele ficou dez dias com o livro. Nesse meio-tempo, foi enviado a Roma para entrevistar o poeta Murilo Mendes e levou o meu livro. Jorge, então, entregou os originais — apenas a primeira parte; a segunda foi enviada depois — à professora Luciana Stegagno Picchio. Ela encaminhou o material à editora Feltrinelli, de Milão, que publicou o livro em 1974, com tradução de Antonio Tabucchi. Fiquei dois meses na Itália ajudando-o na tradução, explicando algumas palavras e expressões que ele não conhecia. Foi uma tradução maravilhosa e o início de uma grande amizade. Então, o livro saiu. Mas o governo brasileiro disse que o romance seria proibido no Brasil e que eu seria preso. O livro realmente foi proibido, mas eu não fui preso.

• E, no Brasil, quando foi publicado?
Em 1975. Os direitos foram adquiridos pela editora Brasília/Rio. Em 1976, o livro foi proibido e só voltou a circular em 1979, durante o processo de abertura política.

• O segundo livro da sua trilogia involuntária foi o best-seller Não verás país nenhum. Ele superou Zero?
Com certeza. É meu maior sucesso: foi traduzido para dez línguas, já vendeu mais de um milhão de exemplares e continua vendendo. E a história do livro também é curiosa. Eu morava em Perdizes, aqui em São Paulo, e, na minha quadra, havia um ipê reverenciado por todos os moradores. Mas ele começou a secar de repente e morreu. Certa manhã, na padaria, o padeiro me contou que, todos os dias, quando chegava para trabalhar, por volta das cinco da manhã, via uma mulher regando a árvore. Isso virou minha cabeça. Fiquei desconfiado. Descobri que a mulher era nossa vizinha e morava no número 67. Eu era amigo da professora Nanuza Luiza de Menezes, botânica da USP. Contei o que havia acontecido, e ela me encaminhou ao professor Aziz Ab’Sáber, que se interessou pelo caso e, semanas depois, atestou que a árvore havia sido envenenada. Nós, os vizinhos, fomos à casa da mulher do número 67, e ela confessou, descaradamente, que havia envenenado o ipê porque a árvore sujava sua calçada. É assim que começa Não verás país nenhum. Mas o livro também nasceu da percepção que eu já tinha, naquela época, das mudanças climáticas. A partir dessas observações, imaginei um país em que não houvesse mais árvores nem rios. Levei oito anos para escrever a história, num período em que eu estava desempregado. Em dezembro de 1981, antes de o livro sair, Alfredo Gonçalves, que era editor da Codecri, minha editora na época, me disse: “Ignácio, agora vamos para outro fracasso. Quem vai ler a porra desse livro maluco?”.

 • Em 1996, você precisou passar por uma cirurgia delicada para tratar um aneurisma cerebral, experiência que deu origem ao livro Veia bailarina. O que mudou em sua vida e em sua escrita a partir daquele episódio?
Ali, passei a ter um grande amor pela vida. Nunca tinha me preocupado muito com doenças. Tive três surtos de hepatite nos anos 1960 — e, naquela época, hepatite matava. Depois, passei por esse aneurisma e quase morri. A cirurgia foi feita na hora certa. Então, pensei que deveria cuidar mais de mim e da minha saúde e não me preocupar tanto com a morte, porque uma hora ela vem. A maioria dos meus amigos está indo embora. Zé Celso [Martinez Corrêa, diretor teatral], meu amigo de infância em Araraquara, morreu em decorrência de um incêndio. Então, a vida é agora.

• Outra paixão sua é o cinema. Ainda mantém o hábito de ver filmes?
Sim, vejo em casa, vou ao cinema, tenho mais de mil vídeos.

• E você continua admirando Fellini?
Sim. Fiquei e ainda fico impressionado com todos os filmes dele. Em 1963, ganhei de Fernando de Barros, meu amigo e diretor de cinema, uma passagem para a Europa. Então, economizei algum dinheiro e fui para Roma. Morei com outras seis pessoas, dividindo o aluguel. Um dia, li no jornal que Fellini estaria em um café selecionando figurantes para um novo filme. Fui até lá e o encontrei com uma prancheta. Ele começou a carreira como caricaturista. Os desenhos que fez a partir de seus sonhos são incríveis; tenho um livro com centenas deles. Então, perguntei se ele havia escolhido alguém da imensa fila formada pelos candidatos a figurante. “Não estou escolhendo ninguém”, disse. Fiquei confuso e perguntei o que estava fazendo ali, então. “Estou escolhendo o olho de um, o nariz de outro, a boca de mais um, um tique etc.” E tudo isso ele incorporava aos personagens, interpretados por pessoas estranhíssimas. Esse foi o ensinamento que ele me deixou: olhar para as pessoas e “chupar” tudo delas. Nunca mais esqueci isso. Fellini, para mim, é um mestre. Adoraria ter sido ele.

• Você faz parte da Academia Paulista de Letras e da Academia Brasileira de Letras. Como tem sido sua participação? Tem conseguido frequentá-las, sobretudo a ABL, que fica no Rio? Por que decidiu ingressar nas duas instituições?
Eu e alguns outros escritores éramos muito amigos de Rubem Fonseca. Ele dizia: “O primeiro que entrar para uma academia, corto a amizade”. Mas chegou um momento da minha vida, quando eu estava com cerca de 70 anos, em que os amigos começaram a insistir: “Venha”, e não sei o quê… Aí, a luzinha vermelha acendeu, e a vaidade também apareceu. Pensei no meu pai. Ele morreu há algum tempo, mas sempre me dizia que, apesar do meu sucesso como escritor, “faltava” algo para me consagrar… Eu dizia: “Pai, não falta nada. A consagração é o livro.” Mas ele insistia. Então, talvez tenha sido isso — e certa vaidade, claro. Fiquei muito feliz quando, no dia da minha posse, O Globo estampou a manchete: “Enfim, um escritor na Academia”. Mas não tenho frequentado muito a ABL, porque preciso ir ao Rio e estou meio cansado… Frequento mais a Academia Paulista, até porque os escritores de lá são mais próximos de mim. Mas, para mim, o mais importante continua sendo o livro.

• Você tem 59 livros, quase um por ano de vida literária. Se tivesse de escolher seus três preferidos, quais seriam?
Não vou citar nem Zero nem Não verás país nenhum. Acho, então, que escolheria Dentes ao sol. Publicado depois de Zero, o romance fala, no fundo, sobre um grupo de pessoas — o meu grupo — que queria ir embora de Araraquara. Lembro que minha mãe era contra e dizia que eu tinha de arrumar um emprego no Banco do Brasil. Mas eu não queria isso; já lia muito. E tinha um problema: eu me achava muito feio. Um dia, uma professora me deu O patinho feio para ler. Quando terminei, ela perguntou se eu tinha percebido que o patinho era, na verdade, um cisne e disse que eu também poderia ser um. Mas, para fazer o que eu queria, precisava ir embora de Araraquara. Então, fui para São Paulo. Zé Celso também foi embora. Minha mãe e a mãe dele eram amigas e catequistas. Antes de ele morrer, participamos de um evento no Sesc Araraquara. Em certo momento, quando estávamos só nós dois conversando, fiz a primeira pergunta do catecismo: “Zé, quem é Deus?” Ele sorriu para mim e disse: “É um espírito perfeitíssimo, criador do céu e da terra.” O outro livro que eu escolheria é O menino que vendia palavras, vencedor do Jabuti de Livro do Ano de Ficção, no ano em que O filho eterno, de Cristovão Tezza, vinha ganhando vários prêmios. Ele estava atrás de mim na premiação e, quando iam anunciar o vencedor, virei-me para ele e disse: “Vai, Tezza, pega, que é seu.” De repente, anunciaram o meu livro. Foi emocionante. Esse livro também já foi adaptado para o teatro; tenho muito orgulho dele. O terceiro seria Bebel que a cidade comeu. Apesar de não ser um livro bem estruturado, escrito por alguém que ainda não sabia escrever muito bem, foi ele que me mostrou que eu poderia escrever e ser escritor.

• Gosto muito de seu livro de viagem e memórias Acordei em Woodstock, em que você fala dos outros e de si mesmo. Nunca lhe ocorreu escrever uma autobiografia?
Não, mesmo porque eu ia mentir pra burro. Ia inventar tudo. Minha vida é uma ficção e eu inventaria uma vida pra mim. Então, prefiro fazer ficção.

• Há uma frase atribuída ao escritor francês Louis-Ferdinand Céline segundo a qual, para ser considerado grande, um escritor precisaria estar morto. Está satisfeito com sua carreira até aqui? Sentiu falta de algum tipo de reconhecimento?
Eu gostaria de mais alguma coisa, mas não sei o quê. Sempre temos de nos superar, superar nosso passado. É isso que me move. Por isso, digo que não estou aposentado. Vou escrever até o fim.

LEIA trecho inédito de Risco de queda.

Luiz Rebinski

É jornalista e escritor. Autor do romance Um pouco mais ao sul.

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