Entrevista realizada por Rogério Pereira e Arthur Marchetto
A relação entre escritores e a sanidade é algo que suscita interesse nos leitores há muito tempo. Não são poucos os casos divulgados de autores que se suicidaram, ou que foram adictos de alguma substância ou, em casos menos intensos, repletos de hábitos “peculiares” para manter o processo criativo fluindo.
Como diz Rosa Montero nesta entrevista ao Rascunho, “escrever é uma maneira de viver e é uma maneira especialmente intensa”. Nascida em Madri, em 1951, a jornalista e escritora Rosa Montero, com mais de vinte romances publicados, tem a relação entre a criatividade e a insanidade como um de seus temas favoritos.
Nos últimos dois anos, a Todavia publicou dois dos principais livros de Montero. Em 2023, lançou O perigo de estar lúcida, narrativa de não-ficção que faz uma “autópsia invertida da criatividade”, dissecando o cérebro dos escritores para traçar paralelos entre a loucura e a criatividade. Montero mostra como a produção artística — tanto a boa quanto a ruim — está ligada a um funcionamento anormal do cérebro, movido por extravagâncias, alucinações, desequilíbrios e doenças mentais. E afirma que a normalidade nada mais é do que um mito construído a partir de padrões estatísticos de comportamento.
No ano seguinte, a Todavia publicou uma nova edição de um dos mais conhecidos livros de Montero: A louca da casa. A obra, que dialoga com a mesma temática citada acima, é um dos mergulhos mais pessoais da autora, entre recordações e o misterioso universo da criação literária. O sentido da vida está no centro da narrativa.
Para Montero, a escrita de um romance — e a arte como um todo — nasce do sofrimento humano mais comum e compartilhado, o medo da morte (a própria ou de pessoas queridas). Dentro da certeza da perda, a vida se torna a narração dos acontecimentos anteriores ao instante final. “A vida é o que contamos dela, não o que se sucedeu de fato”, afirma. Por isso, defende o conhecimento amplo das biografias contraditórias de “autores monstruosos” e é contra a literatura que não possui originalidade e veracidade, afinal “a arte é a esperança não só frente à barbárie, mas frente ao Mal com M maiúsculo, instaurado diante da angústia, da morte, da falta de sentido da vida”, diz Montero.
• Em A louca da casa, você afirma que os humanos são acima de tudo romancistas, “autores de um único romance que levamos a existência inteira para escrever”. Como escritora, apesar de produzir uma obra multifacetada, você também busca escrever um único romance, um longo romance, composto por vários livros?
Quando digo que as pessoas são romancistas da própria história, quero dizer que a vida é narração. O ser humano é, sobretudo, palavras. Palavras em busca de sentido. E dizia Epíteto que o que afeta o ser humano não é o que aconteceu, mas o que se conta daquilo que aconteceu. Ou seja, essa narração que fazemos da nossa vida é a vida que vivemos. É a isso que me refiro na primeira frase. E sobre a pergunta — se estou escrevendo um romance único com várias obras —, não é exatamente assim. Vou fazer um jogo, porque é uma pergunta muito interessante. É verdade que não se escreve um romance, mas uma obra, e essa obra é o conjunto dos seus livros e um caminho; e cada livro te leva ao seguinte. Não é o mesmo romance, mas sabe o que é? Uma vida. Explico: como pessoa que vive, você está escrevendo um romance como uma pessoa de verdade, mas como escritora o que está fazendo é construir uma vida, livro após livro, porque escrever é uma maneira de viver, e uma maneira especialmente intensa. Em cada livro, aprende-se algo, e cada livro te leva ao seguinte, a outra aprendizagem ou até mesmo a outro erro, como às vezes acontece na vida. Assim, eu diria que o que fazemos é construir uma obra e que a obra é sinônimo de uma vida.
• A louca da casa é amplamente amparado no trinômio escrita, paixão e loucura. No entanto, muitos escritores relacionam a escrita ao sofrimento, a algo carregado de dificuldades. A escrita seria, então, uma paixão carregada de alegrias, dores e decepções?
Note que sou completamente contrária a esse tópico e a essa ideia. Não acredito que muitos escritores digam isso, mas principalmente as pessoas que não escrevem; alguns escritores, sim, dizem isso, mas não acho que seja a maioria. Mas é verdade que existe um lugar-comum que prevaleceu por muitos anos que dizia que, para ser artista, tem que sofrer muito e, quanto mais sofre, melhor o artista e melhor a obra. Mentira. Na verdade, acredito que sofrer muito não é uma necessidade para nada. Infelizmente, a vida se encarrega de fazer com que a gente sofra, mas o sofrimento não é necessário para nada. Dizem essa bobagem que também me incomoda: “Ah, mas o sofrimento ensina”. Bom, ensina se não te matar, porque o sofrimento pode te matar. Creio que há maneiras muito melhores de aprender do que pelo sofrimento. Mas é verdade que a escrita, a arte e o romance nascem da dor da perda. Na vida de todas as pessoas, inclusive na vida do homem ou da mulher mais felizes do mundo, haverá sofrimento o suficiente com a ideia da própria morte e da morte dos seres queridos para escrever uma biblioteca inteira. Assim, não é necessário ser um sofredor extraordinário, para além do sofrimento básico que afeta o ser humano, esse sofrimento existencial.
• Você cita grandes autores que, como cidadãos, tiveram atitudes desprezíveis (machistas, racistas, ególatras, etc.): “É que até os grandes homens (e as grandes mulheres) têm buracos de estupidez e de miséria”. Ao ler um autor/a que admiramos é preferível desconhecer sua biografia de misérias?
Não. Prefiro conhecer quem era ou é o autor e o que fez. Não gosto de mitificar, entendo a natureza complexa e contraditória do ser humano e, por outro lado, gosto de saber o que cada ser humano fez com sua vida, não quero que me vendam autores como Pablo Neruda, por exemplo, que escreve poesias cheias de sentimentos estupendos, mas foi um miserável, um violador reconhecido em sua própria autobiografia. É isso que quero saber e acredito que o tempo também ajuda a aceitar as misérias cometidas depois de certo tempo do ocorrido. O magnífico pintor Caravaggio era um monstro, um assassino, mas era Caravaggio. E quero saber que ele era um monstro e um assassino. A monstruosidade está muito próxima, principalmente quando diz respeito a alguém que você leu e que não sabia que tinha essa faceta, como Alice Munro, por exemplo, porque faz com que seja difícil que você continue lendo sua obra. Não estou dizendo que devemos cancelar ninguém, mas acredito que deveriam ter notas informativas nas obras contando as misérias que os autores cometeram.
• Você afirma que “a qualidade literária é um dos valores mais subjetivos e mais dificilmente mensuráveis que conheço”. Quais valores você mais admira em uma obra literária?
Sim, felizmente ou infelizmente. Não existem regras de qualidade artística ou literária que te dizem que o que você está fazendo está bom ou é uma estupidez ou que não serve para nada. Não há regras objetivas para isso, mas depende do gosto e o gosto, é claro, se refina. O que busco primeiro em uma obra é veracidade, porque tenho uma espécie de radar e de intuição quando leio livros de grandes escritores, mas que, de repente, leio seus livros e fico com uma raiva espantosa porque me parece que são mentiras, que não são livros que seus autores precisam escrever, que não está fazendo isso porque precisam escrever esse livro, porque precisam iluminar suas obsessões, porque qual seria o sentido de escrever. A procura pelo sentido da vida. Então, existem autores que não fazem isso, mas escrevem para que os críticos digam que é estupendo, ou para ganhar muito dinheiro, ou para épater la bourgeoisie, como diz a famosa frase francesa. Essa falta de veracidade na busca pelo sentido da vida é o que acho pior. Tenho um olfato afinado para isso e quando sinto em um autor que escreve bem, fico ainda mais indignada. Normalmente, leio os livros, guardo alguns, mas, em sua maioria, coloco para circular e dou para outras pessoas. Mas quando leio um desses livros de bons autores que escrevem um livro que me parece muito mentiroso, jogo direto no lixo. Depois da veracidade, a originalidade. Os escritores têm que desejar escrever um livro que ainda não foi escrito, precisam buscar uma voz própria que, mesmo que falhe, tente ser original. Não é a ruptura formal pela ruptura formal, o experimentalismo vazio também não me interessa. Um livro é o que conta e a maneira com que conta, as duas coisas: é o conteúdo e a forma. As pessoas que fazem só experimentalismos também são falsas, também procuram críticos que digam: “Oh, que atrevido!”. Por fim, também busco um livro que me emocione e que me faça sentir a beleza enquanto eu leio.
• A vaidade é o pior dos pecados de um escritor/a?
Acho que se fala muito sobre a vaidade do escritor, mas me parece que não somos tão vaidosos assim. Somos pouco vaidosos, somos inseguros patológicos pelo mesmo motivo que disse antes, porque não existe uma regra objetiva que diga que o que estamos fazendo tem algum ou nenhum sentido. Então, você está extraindo coisas que estão profundamente dentro de você. Penso que nós, escritores, acreditamos que nossa obra é melhor do que nós. Nossa obra é o que há de melhor em nós. Então, você pega o livro, coloca-o ali para que os outros o examinem e é como se tivesse retirado seu coração ou seu fígado e os deixado expostos em uma mesa. E, de repente, começam a passar pessoas e dizer: “Que fígado feio, não?”, “Que cor horrível nesse coração”. E você quer morrer, porque acredita que esse fígado e esse coração não são só o seu eu mais profundo, mas sua melhor parte. Então, essa tremenda insegurança é o que nos torna muito carentes, muito necessitados da aprovação dos outros. Mas isso não é vaidade, acho que é exatamente o oposto, é uma espécie de buraco enorme na segurança e na autoestima de uma pessoa.
• Após uma longa e bem-sucedida carreira literária, como você lida com a crítica literária, seja diante de uma avaliação positiva ou negativa do seu trabalho?
Estou tão angustiada com o olhar dos outros que fico anos sem ler as críticas e tento não ler nenhum tipo de crítica, nem as positivas, porque às vezes tenho medo de que eu não reconheça a crítica positiva, de que eu não reconheça o livro de que se está falando, e, no caso das negativas, porque, é claro, me deixam nervosa. Ou seja, não leio críticas porque me deixam muito angustiada. Como somos frágeis…
• Entre os muitos comentários sobre livros em A louca da casa, um deles chama atenção, quando você diz que Ulisses, de James Joyce, “é um romance que só me interessa, e não muito, como artefato modernista”. Por que a narrativa de Joyce não te seduz para além da experimentação modernista?
Não são todas as narrativas de Joyce de que eu não gosto. Falei de Ulisses e também não gosto de Finnegans Wake, mas gosto muito de Dublinenses e outros romances anteriores. Não gosto de Ulisses pelo motivo que disse antes, porque me parece falso. Parece que é uma tentativa de mostrar quão inovador, sofisticado e extraordinário era. Em Finnegans Wake isso beira ao ridículo já que é um livro ilegível. Ulisses tem mais valor porque esse experimento modernista ajudou a romper as convenções literárias e isso beneficiou a todos nós, escritores, que viemos depois. Assim, como experimento modernista, me parece útil, mas, como romance, não gosto.
• Você afirma que “deixar de ler é a morte instantânea”, ressaltando a importância dos livros na sua vida. A leitura foi a melhor maneira que você encontrou para enfrentar a vida e preparar-se para a morte?
Minha mãe me ensinou a ler muito antes da escola e, com três anos, eu já lia. A leitura é essa sensação que tenho, como um talismã. É mentira, é claro, mas eu tenho a sensação, como todos os leitores apaixonados, de que, se tenho um livro por perto, nada de mau pode me acontecer. Não é verdade, claro, mas, como pode ver, é um poderoso talismã para nos refugiar. Então, ler é também uma maneira de viver especialmente intensa e maravilhosa. Ler te coloca em contato com outros mundos, outras cabeças, outras pessoas, com outros séculos. Ler te põe em contato com o universo e é um dos atos mais íntimos que se pode fazer. Acredito que seja mais íntimo do que fazer amor, porque você se enfia na cabeça do escritor ou da escritora. É maravilhoso. Não sei se ler me fez perder o medo da morte. Escrever, sim. Ler me ajudou em algo ainda mais importante, me ajudou a aguentar a vida e a viver.
• Em O perigo de estar lúcida, você procura estabelecer a relação entre criatividade e loucura, mas logo apresenta a normalidade como algo construído. Sendo assim, o binômio loucura/normalidade ainda é um filtro eficaz para compreender a realidade?
Não, claro que não. O binômio loucura/normalidade é absurdo e não nos permite compreender a realidade, mas o contrário da realidade. O que digo é justamente o contrário, o livro diz que a normalidade não existe. Nos dizem que a normalidade é um sinônimo do mais habitual, do mais comum, mas é mentira. Um estudo feito na Universidade de Yale, em 2018, demonstrou que o que chamam de normalidade não é nada mais do que a média estatística de todas as respostas muito variadas dos seres humanos frente a uma questão. Na verdade, essa média estatística não representa ninguém e não deveria haver nenhum homem ou mulher no mundo sintonizado com essa média estatística em todos os seus parâmetros. Somos todos divergentes em alguma coisa, todos. Assim, o binômio loucura/normalidade é uma mentira. Não existe.
• Ao longo do livro, você afirma que escritores têm um “cérebro mal cabeado” capaz de propor novos conjuntos criativos e imaginativos. Mas os leitores não precisam ter um pouco dessa loucura para aproveitar a ficção?
Mais do que ter um “cérebro mal cabeado”, temos que ter um cérebro conectado de uma forma diferente da que a maioria dos cérebros está conectada. Sua observação parece bastante acertada. Na verdade, na apresentação de O perigo de estar lúcida, digo que a maioria das pessoas também tem o cérebro sem podar, esse cérebro conectado de maneira distinta, porque as pessoas que, por exemplo, são leitoras apaixonadas e que precisam ler apaixonadamente para poder viver, elas também têm o cérebro conectado de maneira diferente. São pessoas que também têm o cérebro sem podar.
• Por outro lado, você diria que as pessoas “sãs” não são criativas?
Não. A verdade é que eu não sei o que são as pessoas sãs. Como digo, segundo os estudos de especialistas, parece que, para as pessoas que se dedicam a coisas criativas, sejam artistas bons ou ruins, a qualidade é igual, porque o cérebro de um artista ruim está configurado da mesma forma que o cérebro de um bom artista. Para as pessoas que se dedicam profissionalmente à arte, uma das condições é a falta de amadurecimento neurológico. O cérebro humano demora muitos anos para amadurecer, só termina o processo de amadurecimento aos 30 anos, e um dos primeiros passos mais importantes desse amadurecimento acontece na primeira puberdade. Então, aos 12 anos, o cérebro da criança está hiperconectado, todos os neurônios estão conectados uns aos outros, o cérebro da criança é uma tempestade elétrica. Então, nessa primeira puberdade, o que acontece é uma poda das conexões que não são úteis para formar o cérebro útil, o qual é muito bom para a evolução da espécie. No entanto, acontece que há cerca de 20% de pessoas cujo cérebro não termina o processo de poda ou que a poda não acontece direito e, entre esses mais ou menos 20%, não se sabe muito bem quantas são, porque incluem também pessoas com problemas mentais e pessoas que se dedicam a coisas criativas. Mas, insisto, que também estão muitas outras pessoas que não dedicam suas vidas a coisas criativas, mas que também têm o cérebro menos podado e que também são criativos. A criatividade é parte da essência do ser humano. O que acontece é que temos pessoas mais criativas e pessoas menos criativas. Claro, dentro da criatividade, não estão só os artistas, mas também os cientistas.
• É possível aprender com transtornos mentais?
Aprendi com ataques de pânico, algo muito comum. Os transtornos mentais afetam pelo menos 25% da população em algum momento de sua vida, como afirma a Organização Mundial da Saúde, mas acredito que as cifras reais são ainda mais altas. É algo muito comum. Há muitos tipos de transtornos mentais. Tive ataques de pânico, que são transtornos mentais neuróticos menos graves do que uma psicose, mas ainda assim temos que aprender a conviver com nossas bagagens de escuridão. Todos levamos uma bagagem de escuridão e de aprendizagem pela vida, entre outras coisas. Precisamos e podemos aprender a conviver com essa bagagem.
• Você diria que O perigo de estar lúcida estabelece um modelo para identificar pessoas criativas ou de um exercício de autoanálise?
Não é um modelo para identificar pessoas criativas. O que fiz foi tentar entender por que nós, que nos dedicamos a coisas criativas, temos essa necessidade peremptória de nos dedicar a elas. O fato de que a vida, para nós, não tem sentido se não nos dedicarmos a isso é, na verdade, um absurdo, não? Como se sentar em um canto na sua casa e ficar inventando mentiras. Por que essa pulsão? O que me obriga? O que me leva a isso? Então, não quis estabelecer um modelo, nem fazer uma lista redutora de que esses são criativos e esses não são. Também não é um exercício de autoanálise. Claro que me analisei, mas tentei me observar como mais uma na legião de pessoas que vivenciam isso. O que eu queria entender é o que leva os seres humanos a sentirem essa pulsão, digamos.
• Apesar de ser um tema recorrente na sua escrita, você aprofundou bastante a relação entre a loucura e a criatividade em O perigo de estar lúcida. Você acredita que voltará a escrever sobre isso?
Não sei se seguirei escrevendo sobre o tema porque você não escolhe os livros que você escreve, mas os livros te escolhem. De qualquer forma, um livro focado nesse tema, é certo que não. Mas estou certa de que meus romances, sem dúvida, continuarão falando sobre loucura e criatividade.

• Você fala da loucura como um elemento que isola e que escapa à linguagem. A dor física intensa ou crônica e a dor do isolamento social podem gerar a mesma sensação?
A dor intensa ou crônica podem te levar a um transtorno mental. Muitas vezes pessoas afligidas por isso, por exemplo, se suicidam ou caem em uma depressão profunda. A enfermidade rouba suas palavras e acredito que, fundamentalmente, porque caíram em um transtorno mental causado pela dor intensa ou crônica. O isolamento social já se responde em si mesmo, porque o isolamento social é uma sensação de solidão tremenda. Então para quem vai contar de sua solidão se está socialmente isolado? Mas o que eu queria definir é que a solidão da loucura é totalmente diferente do conceito que temos e que utilizamos normalmente da solidão. Não é que faltem pessoas, mas é a sensação de que você está distanciado da espécie humana, você tem a sensação de ter se convertido em um marciano, de ser um alienígena e, por isso, pensa que a palavra é inútil porque não sabe explicar o que acontece com você e como é o único marciano, o único alienígena com esse conhecimento e que você não faz mais parte da espécie humana, acha que não existe ninguém que pode te entender. Por isso, é uma falta efetiva de palavras que diz respeito a causas muito específicas de transtornos mentais, mas é verdade que grandes dores físicas são inefáveis. Quando você sente uma dor muito grande, não só física, mas também emocional, seu coração literalmente se parte. Existe uma doença chamada coração partido, em que as pessoas morrem de ataque cardíaco, certo?
• Além das predisposições neurológicas, vemos como a vulnerabilidade social e econômica gera um forte impacto na saúde mental. Você acredita que esse impacto se reflete na produção criativa?
O que chamamos de loucura tem sido uma arma do poder e uma arma ao longo dos séculos para escravizar e oprimir os diferentes. Volto a repetir que a normalidade é uma mentira, a normalidade impõe o poder ou a convenção social mais poderosa porque é uma mentira. Então, em situações sociais muito tirânicas e pouco democráticas, esse poder que impõe uma normalidade muito restritiva pode causar represálias aos que são diferentes, acusando-os de loucura e enclausurando-os, incluindo com tratamentos de eletrochoque ou com choques químicos. Foi uma prática habitual em diversos regimes. Na União Soviética, internaram os dissidentes em manicômios e destruíram suas mentes. Foi bastante comum. As mulheres que saíram da norma do machismo, nos séculos 19 e no começo do século 20, era algo muito comum em determinados países colocá-las em um hospital psiquiátrico dizendo que estavam loucas.
• O mundo está passando por conflitos terríveis no momento em várias regiões, inclusive na Europa. O escritor brasileiro Guimarães Rosa tem uma frase icônica, em Grande sertão, veredas: “viver é muito perigoso”. Essa frase definiria com precisão o mundo de hoje?
Viver é sempre muito perigoso porque acaba te matando. Viver acaba com a morte, inexoravelmente. É muito perigoso, mas também muito bonito, glorioso e grandioso, mas também é assustador e atroz, em algumas ocasiões. A vida tem de tudo, nós, animais que vivemos, insistimos em viver e nos regozijamos em viver, mas a vida é frágil e é sitiada pelo mal e pelas sombras. Agora vivemos em um tempo muito escuro, eu diria, um tempo muito escuro onde o mundo tem medo do futuro. E com razão.
• O que mais te assusta no mundo atual?
Temos problemas em níveis que nunca vimos antes. O aquecimento global é uma catástrofe crescente que vai trazer um número enorme de pessoas desabrigadas, uma quantidade horrível de violência e matanças no mundo, fomes tremendas. A crise da Síria foi a primeira causada pelo aquecimento global. Todos os especialistas do Pentágono e de outros lugares dizem que os sete anos de seca tiveram muito a ver com isso. Na Síria, um milhão e meio de pessoas migraram do campo para as cidades e a situação social se tornou um barril de pólvora. Não sabemos o que fazer com a crise dos deslocados, dos imigrantes, e isso vai se tornar cada vez mais atroz. Também estamos em um momento de regressão ideológica brutal, em uma política de ódio que incentiva guerras, confrontos e a matança daqueles que são diferentes. Também temos o desafio da inteligência artificial, que é outro grande perigo para a sobrevivência humana. Estamos em um momento complicado.
• A literatura pode ser encarada como uma forma de esperança diante da barbárie?
Não só a literatura, mas a arte. A arte é a esperança não só frente à barbárie, mas frente ao Mal com M maiúsculo, instaurado diante da angústia, da morte, da falta de sentido da vida. Tem uma frase do pintor abstrato francês Georges Braque que, para mim, é um lema e é tão importante que tenho tatuado em uma perna, que diz: “A arte é uma ferida feita de luz”. O que vamos fazer com as feridas constantes da vida se não tentar convertê-las em luz para que não nos destruam?
• No Brasil, somente no primeiro semestre de 2024, a média diária de feminicídios chegou a 4,98. É a barbárie do machismo contra as mulheres de forma absurda, instalado no coração do país. Como você vê a violência cometida por homens contra mulheres no século 21?
O machismo, o patriarcado e o sexismo feroz foram, ao longo da história, terríveis e causaram matanças espantosas. Avançamos muito no Ocidente, mas a maioria do planeta continua sob uma situação brutal de desamparo feminino. No Afeganistão, as vozes das mulheres foram proibidas de serem ouvidas nos espaços públicos, o que é o ápice da aberração das doenças verdadeiramente monstruosas do sexismo. No Irã, matam mulheres que andam de cabelo solto. Em suma, sem chegar a esses extremos, porque a média diária de feminicídios a 4,98 é uma brutalidade. Então, o que acontece com os homens? Como dizia Simone de Beauvoir, o problema do machismo não era um problema das mulheres, mas um problema dos homens com as mulheres. É verdade. Eu tenho a esperança de que cada dia haja mais homens no mundo que saibam que o feminismo também é um tema e uma reivindicação suas, não só algo das mulheres, porque até que os próprios homens assumam as rédeas dessa aberração que alguns homens cometem, não mudaremos.
• Qual seria uma maneira possível de reduzir a violência contra a mulher?
Educação, educação e educação. E insisto que os homens participem dessa guerra que é deles, em primeiro lugar. Que os homens deveriam pensar: o que acontece com a gente? o que temos que mudar? como posso me defender desses outros homens tóxicos que estão convertendo meu gênero ao horror?
• Como você avalia as conquistas do feminismo, digamos, da década de 1960 até agora?
As conquistas são enormes, mas não só desde a década de 1960 até agora, mas em 100, 120 anos, estamos destruindo um sexismo milenar. As mulheres não podiam estudar nas universidades no começo do século 20. Na Espanha, em 1911, por exemplo. Não podíamos votar até os meados do século 20, em alguns países até mesmo depois, até os anos 1960, 1970 e 1980. Na Arábia Saudita, mulheres não podem votar nas eleições gerais, só nas municipais. No Afeganistão, não podem votar em nenhuma. Mesmo assim, temos avançado muitíssimo em muito pouco tempo, mas ainda há um caminho enorme para percorrer.