Contra o esquecimento

Em "Antes que apague", Natalia Timerman acompanha uma psiquiatra diante do Alzheimer da mãe e investiga memória, luto, vínculos familiares e os limites éticos da escrita
Natalia Timerman, autora de “Antes que apague” Foto: Luiza Sigulem
01/09/2026

*Colaborou Rogério Pereira

As fragilidades da memória e as complexidades das relações familiares estão entre os temas centrais de Antes que apague, novo romance de Natalia Timerman. Na trama, uma psiquiatra e escritora acompanha o avanço do Alzheimer da mãe, descobre segredos familiares, enfrenta o luto antecipado e lida com sentimentos conflitantes.

Longe da promessa de um final feliz, Natalia constrói uma narrativa sensível sobre uma doença devastadora. Para chegar ao livro, incorporou anotações, registros, cartas, mensagens e materiais escritos ao longo de vários anos. “Há um entrelaçamento de três histórias: a da perda de memória de Alice, mãe da narradora; a da mulher que a mãe foi, sob a forma de um segredo trágico de sua juventude; e a da escritora que se pergunta sobre o lugar que o ofício ocupa na sua vida, mas também no mundo ― o que é ser uma escritora hoje”, afirma, nesta entrevista concedida por e-mail.

A proximidade biográfica torna o processo de escrita especialmente delicado: a mãe de Natalia também teve Alzheimer. “Alice, a mãe do livro, não é minha mãe, ainda que ambas tenham essa doença horrorosa e incrivelmente triste que é o Alzheimer. Mesmo que elas não coincidam, escrever esse livro na iminência de que algo acontecesse com minha mãe me arrancou noites de sono e me trancou a garganta muitas vezes. O remédio foi fazer disso o motor da própria escrita.”

Ao longo da entrevista, Natalia fala ainda sobre a residência literária que fez em Ghent, a relação entre ficção e verdade e a escrita como forma de combate ao esquecimento.

• A primeira versão de Antes que apague começou a ser escrita no período em que você esteve na Art Omi, uma residência literária em Ghent, Nova York. O que a distância de casa e da rotina produziu na escrita desse livro?
O propósito da Art Omi é singelo: que os residentes tenham tempo para usar como quiserem. Nem sequer o desenvolvimento do livro que apresentamos na fase de seleção dos projetos é obrigatório. Eu nunca tinha tido tanto tempo para escrever e ler: quatro semanas longe de casa, afastada da rotina dos meus filhos e da agenda do consultório. Soa idílico — e é —, mas foi também angustiante. Notei, diante da abundância de tempo, que em São Paulo, onde vivo, encaixo a escrita nas brechas dos dias, escrevo quando e como dá, e isso interfere no ritmo do texto, na sua respiração. Na rotina atolada, o texto precisa sair e pronto; se não sai, parto para a próxima atividade e volto a ele só depois. Na Art Omi, eu orbitava em torno desse planeta inexistente dia e noite, um planeta que eu ainda precisava construir. O ponto de partida do livro ― o Alzheimer de uma mãe ― inicialmente me causava muita culpa, e a culpa me aguardava também se eu não conseguisse escrever, afinal de contas, deixei momentaneamente a vida em São Paulo só para isso. O resultado desse caldo de tempo e angústia e paz e culpa, de escrever diante de uma janela que amanhecia com veados pastando do lado de lá e de estar rodeada de uma língua estrangeira, foi a primeira versão (incansavelmente reescrita depois) de um livro ao qual incorporei também tematicamente a angústia de escrevê-lo e cuja linguagem estava mais madura, mais atenta ao próprio silêncio.

• No início, você cogitou escrever um romance de não ficção, mas depois reconsiderou. Em que momento percebeu que a ficção lhe permitiria chegar a lugares que a não ficção talvez não alcançasse?
Olhando em retrospecto, percebo que a ficção se insinuava desde o começo do projeto, a verdade do livro sempre dependeu disso. Há livros que precisam reivindicar sua relação com a realidade: o autor ou a autora, por motivos principalmente políticos, necessita afirmar que o escrito aconteceu, que aquilo foi vivido; não é o caso de Antes que apague. Logo no primeiro capítulo, a narradora relembra uma acusação feita anos antes por sua mãe, agora com Alzheimer: a de que ela foge da vida para os livros. A escrita se dá como resposta e afronta a essa mãe e investiga a relação entre vida e literatura, dentro do campo da ficção.

• Embora seja uma obra de ficção, Antes que apague se alimenta de experiências pessoais e histórias familiares. Como você estabeleceu a fronteira entre o vivido, o lembrado e o inventado?
As fronteiras entre o vivido, o lembrado e o inventado não existem na ficção. Às vezes, nem na memória.

• Henrique, um dos irmãos da narradora de Antes que apague, foi inspirado em um personagem de Philip Roth. O que havia nesse personagem que lhe permitiu encontrar uma forma literária para Henrique?
Henrique foi inspirado em Henry, irmão de Nathan Zuckerman em O avesso da vida, romance que faz, com cada capítulo, um trançado ficcional da relação entre vida e literatura. Roth narra um mesmo evento — um homem recebendo o diagnóstico de um problema cardíaco — modificando seguidamente seu desfecho, ou mesmo quem o sofre, e vai colocando em jogo questões como os limites da ficção e a legitimidade de apropriar-se da vida alheia para escrever. É essa discussão que me interessou insinuar, por meio de Henrique, em Antes que apague.

• O romance incorpora anotações sobre a perda de memória da mãe, registros, cartas, mensagens e materiais escritos ao longo de vários anos. Como você transformou esse conjunto disperso de documentos e lembranças em uma narrativa?
Antes que apague foi sobretudo um grande trabalho de montagem para transformar esses fragmentos num todo narrativo. Há um entrelaçamento de três histórias: a da avassaladora perda de memória de Alice, mãe da narradora; a da mulher que a mãe foi, sob a forma de um segredo trágico de sua juventude de que a filha nunca tinha tomado conhecimento, o qual agora, por conta da demência, já não pode ser tema de uma conversa entre as duas; e a da escritora que se pergunta sobre o lugar que o ofício ocupa na sua vida, mas também no mundo — o que é ser uma escritora hoje. Os diários não estão em ordem cronológica porque priorizei a cadência temática, como se os fragmentos datados se prestassem a ser a costura das outras histórias do livro. Mexi incansavelmente no livro até o último momento, alterando a ordem dos fragmentos, cortando trechos, reescrevendo outros, até mesmo depois que ele já estava diagramado. Fazer isso na última etapa da edição foi importante porque fui ganhando cada vez mais noção do todo do livro, então conseguia vê-lo de cima, como um mapa.

• O romance inteiro se dirige a um “você” que talvez nunca possa lê-lo ou compreendê-lo. Para quem, afinal, escreve a narradora quando escreve para a mãe?
Há, em Antes que apague, uma alternância de voz narrativa: a narradora às vezes se dirige à mãe e às vezes não; talvez ela não tenha coragem de se dirigir à mãe quando revela o seu segredo, tão bem guardado por décadas. E, quanto ao “você” a quem ela afinal se dirige — essa mãe que já não fala e muito menos lê —, o livro inteiro nasce justamente da impossibilidade de ser escutada. Como todo livro, talvez — a literatura como o encontro irrealizável entre solidões.

• Em determinado momento, a narradora afirma que o ofício do escritor não acontece no palco, mas na solidão. Mais adiante, chega ao paradoxo de que “a literatura afasta da literatura”. Como você lida hoje com a tensão entre a exposição pública que acompanha a carreira literária e o recolhimento necessário para escrever?
Aprendo a falar dos meus livros depois de escrevê-los, aprecio imensamente a troca com leitoras e leitores, mas há de fato algo paradoxal na figura do escritor no palco, lugar de performance, de atuação, já que a escrita acontece primordialmente em silêncio. Imagino que ótimos escritores que não se sintam confortáveis diante de uma plateia corram o risco, hoje, de serem lidos por menos gente, o que é uma pena.

• Ao citar Diana Klinger, o romance questiona a ideia de que a literatura possa simplesmente reparar ou compensar o mal do mundo. O que essa percepção modifica na maneira como você pensa a própria escrita?
Essa percepção não modifica a maneira como penso a escrita, mas vai ao encontro dela. No momento em que se escreve: há entrega total, sem freios, sem preocupação em reparar ou compensar o mal do mundo, indo até o limite, até a possibilidade de escrever o próprio mal. Talvez a literatura seja uma das melhores maneiras de enxergar esse mal, ainda que ela não precise servir para nada, nem mesmo para isso.

• Neige Sinno aparece no romance associada à ideia de que só conseguimos formular uma experiência traumática quando estamos um pouco a salvo. Antes que apague, no entanto, é escrito enquanto a experiência ainda está em curso. Era possível encontrar alguma distância enquanto sua mãe continuava presente e a história permanecia sem desfecho?
Alice, a mãe do livro, não é minha mãe, ainda que ambas tenham essa doença horrorosa e incrivelmente triste que é o Alzheimer. Mesmo que elas não coincidam, escrever esse livro na iminência de que algo acontecesse com minha mãe me arrancou noites de sono e me trancou a garganta muitas vezes. O remédio foi fazer disso o motor da própria escrita.

• Em muitos momentos, a psiquiatra sabe nomear o que está acontecendo, mas a filha continua sem compreender o que está acontecendo com a mãe. A literatura começa justamente onde o diagnóstico deixa de ser suficiente?
Sim, essa é uma bela formulação.

Natalia Timerman. Foto: Luiza Sigulem

• O romance tenta preservar uma memória ao mesmo tempo que mostra reiteradamente a precariedade da memória da própria narradora. Escrever contra o esquecimento não é, portanto, uma batalha previamente perdida?
Sim. Ouvi de Tatiana Salem Levy, sobre Antes que apague: é um livro que fracassa, e esse é o seu sucesso. Um livro que se debruça sobre um dos jeitos mais terríveis de envelhecer não poderia ganhar nenhuma batalha. Perde todas. Ele só ganha em um quesito: existir.

• Uma das tensões mais fortes do livro está no direito de transformar pessoas próximas em personagens. Houve algum limite que você decidiu não ultrapassar, alguma coisa que poderia entrar em Antes que apague, mas que permaneceu fora justamente por uma questão ética?
Sim. Nesse sentido, distanciei-me de Knausgård, por exemplo, que se esforçou, em sua sequência de romances Minha luta, por levar a escrita para além dos limites, inclusive o ético. Fiz essa opção não só pelas questões éticas em si, mas também porque entendo ser possível tratar dessas complexidades na ficção.

• Há um momento em que a narradora procura na própria mãe uma espécie de autorização para escrever sua história. Mas ela sabe que não pode ter certeza do significado daquela resposta. Era importante deixar no livro essa impossibilidade de obter um consentimento verdadeiro?
Antes que apague surge da impossibilidade desse consentimento. Se a mãe pudesse falar, o livro não existiria. Não à toa, logo no primeiro capítulo, a narradora afirma: “Escrevo para você, mãe; contra você. Também por você”. Ela escreve justamente porque não pode escrever (porque não recebeu a permissão para isso), mesmo que precise.

• Apesar do peso do tema, Antes que apague também abre espaço para o humor. Em determinado momento, a narradora chega a pedir ajuda ao leitor para localizar uma gravura de Carybé vendida a preço de banana. O humor funciona para você como alívio ou como outra maneira de se aproximar do que é doloroso?
O humor, em Antes que apague, é involuntário, assim como o que inadvertidamente aparece nas falas cômicas da mãe que vai perdendo a linguagem, por exemplo quando ela pergunta, no hospital, diante da médica que está ali para dar o parecer sobre seu grave estado: “eu quero saber qual a situação do agrião”. É engraçado e triste ao mesmo tempo.

• Ao mostrar recentemente sua biblioteca para o Estadão, você falou sobre o privilégio de ser constantemente presenteada pelo seu pai com livros. Qual deles mais te marcou?
Eu estava na adolescência quando meu pai me deu Dom Casmurro. Lembro-me de ter lido sem entender totalmente, mas era uma incompreensão que me instigava, não me repelia. Alguns anos depois, ele me deu a coleção inteira de Pedro Nava, talvez querendo me mostrar que era possível ser escritora e médica, para que eu não desistisse da medicina, algo que ele sabia que corria o risco de acontecer.

• A leitura aparece no romance como um lugar de formação, conforto e também de conflito familiar. Em que momento você percebeu que ler não seria suficiente e que precisava passar para o outro lado, o da escrita?
Desde sempre, para mim, a leitura esteve ligada à possibilidade de escrever. O desejo de ser escritora vem de muito cedo, quando eu ainda era uma criança pequena que tinha acabado de aprender a ler. Hoje em dia, isso faz ainda mais sentido, já que, na minha vida, a cisão acontece entre psiquiatria e literatura, não entre leitura e escrita: no campo (ou no tempo) da literatura, contraposto ao da psiquiatria, estão tanto o escrever quanto o ler. Além disso, uma escritora também escreve quando está lendo.

• As protagonistas de Antes que apague, Copo vazio e As pequenas chances atravessam diferentes experiências de perda e vulnerabilidade. O que aproxima essas três mulheres e, principalmente, o que distingue a narradora deste novo romance das anteriores?
As três personagens estão diante da perda de maneiras distintas: Mirela, de Copo vazio, tenta entender a desproporção do próprio sentimento ao se ver abandonada abruptamente por Pedro; Natalia, de As pequenas chances, pergunta-se como existir depois da morte de um pai muito amado; a narradora sem nome de Antes que apague escreve com mais urgência, antes que sua mãe venha a morrer, mas também com mais controle. É, talvez, uma narradora mais madura, que não idealiza ninguém: nem o pai, nem a mãe, muito menos a si mesma.

• Rachaduras, publicado em 2019, é seu único livro de contos até aqui. Depois de três livros atravessados por formas narrativas bastante distintas, o conto ainda lhe interessa como desafio criativo?
O conto continua me interessando, tanto como escritora quanto como leitora. Tenho um livro de contos pronto na gaveta, mas ainda não é hora de publicá-lo. Enquanto isso, sigo escrevendo outros.

• Em determinado momento, a narradora diz que o livro tenta “considerar quem veio antes, mas ultrapassar alguns legados e heranças”. Que heranças pessoais e familiares você sentiu que precisava ultrapassar ao escrever Antes que apague?
Não tomo para minha vida pessoal essa afirmação da narradora, mas de fato há famílias em que o silêncio ou, pior, a violência passa de geração em geração. A palavra que nomeia o que se tenta esconder busca romper esse legado.

• Em Antes que apague, aparecem repetidamente heranças que recebemos sem escolher: familiares, afetivas, culturais, até maneiras de sofrer e de cuidar. Quando você olha para o Brasil de hoje, quais heranças coletivas mais gostaria que conseguíssemos interromper?
O racismo antinegro, a desigualdade social, a misoginia. De forma urgente, ampla e veemente.

• Você começa o romance sem saber se sua mãe estará viva quando chegar ao fim e encerra o livro sem produzir uma despedida ou uma conclusão para a história. Recusar um fechamento era também uma maneira de recusar que a literatura transformasse uma vida ainda em curso num enredo encerrado?
Eu interpreto o final como uma ruptura. Há a cena em que mãe e filha estão encurraladas entre os portões (e, na literatura, sempre que há um portão, há Kafka), na qual a narradora diagnostica: “estamos presas (…) uma vida inteira”, e então o portão se abre e a filha sai sem se despedir da mãe. Isso, a meu ver, se desdobra em dois sentidos: uma recusa em se despedir dessa mãe, em deixá-la ir embora, e, ao mesmo tempo, uma ruptura com o pacto de silêncio do qual a mãe também foi signatária.

Antes que apague
Natalia Timerman
Companhia das Letras
192 págs.
Bruno Inácio

É jornalista e escritor. Autor de Desprazeres existenciais em colapso (contos) e Desemprego e outras heresias (romance)

Rascunho