Em Os imortais, Paulliny Tort parte de um cenário remoto — uma terra primitiva e ancestral, um lugar onde a sobrevivência é uma batalha atrás da outra — para investigar questões centrais da experiência humana. No romance, um clã de neandertais atravessa um território hostil em busca de uma vida possível, entre escassez, violência e o encontro com outros grupos. Nesta entrevista concedida por e-mail, ao comentar o processo de criação, Paulliny afirma que “não sei de onde as histórias vêm” e define a escrita como uma forma de intuição. Também recusa leituras fechadas — “cada um vê o que deseja (e pode) ver” — e apresenta a ficção como um espaço de experiência, imaginação e abertura ao desconhecido.
• Logo no início de Os imortais, acompanhamos um clã em deslocamento, num mundo devastado, numa terra arcaica, em que a sobrevivência se impõe a todo custo. Como surgiu a ideia de narrar essa travessia, os embates entre o clã (os neandertais) e os “estrangeiros”?
Sinto que a escrita de ficção é um processo que não está plenamente no domínio do controle. Acho que os fluxos criativos são, antes, resultado do contato entre as nossas referências e as nossas experiências pessoais. Aos poucos, elementos se conectam e forjam não exatamente uma ideia, mas o desejo de dar forma a algo. Comigo, pelo menos, não acontece de acordar e decidir escrever sobre X ou Y. É um processo constante. Faz tempo que leio sobre hominídeos, evolução, primatologia etc. Também tive a oportunidade de conviver com primatas não humanos. Isso tudo produz efeitos na minha imaginação, mas eu não diria que fez surgir uma “ideia” para Os imortais. Objetivamente, não sei de onde as histórias vêm. Sidarta Ribeiro fala que não vivemos sós, mas com as criaturas da nossa mente: deuses, entidades, pessoas que já se foram… No caso de um escritor ou de uma escritora de ficção, acredito que essas criaturas são também personagens. O que faço é intuir a existência deles.
• Num momento em que boa parte da literatura brasileira se volta para temas contemporâneos, Os imortais opta por um recuo radical, tanto no tempo quanto na linguagem. Por que você optou por esse caminho? Trata-se de um afastamento da pauta contemporânea ou seria outra forma (talvez radical) de abordá-la?
Acho que “recuar” em relação aos temas é um reflexo natural das minhas leituras mais recentes. Confesso que desacelerei com os contemporâneos nos últimos anos. Há exceções: acompanhei os livros da Samanta Schweblin, da Joana Bértholo, da Ieda Magri, do Joca Reiners Terron e mais alguns, mas acabei me voltando bastante — aí, sim, radicalmente — à literatura antiga. Quando fui livreira na Cultura, em 2006, comprei e li Ovídio, Sófocles, Aristófanes, mas recentemente ampliei para Virgílio, Hesíodo, Luciano, Eurípedes… Enfim, entrei bastante nesse universo. Li mais Shakespeare, li bastante coisa do Freud, o Ramayana de Valmiki, poesia e muito sobre ciência: física, botânica, etologia etc. Li um tantinho de filosofia, mais particularmente Sêneca, pesquisei sobre linguística e sobre o espiritual na arte. Penso que tenho um interesse cósmico pela vida. A narrativa saiu do jeito que saiu provavelmente porque convivo com esses ecos.
• Em entrevista recente, você sugere que sua escrita nasce mais de uma experiência sensível do que de um projeto prévio. No caso de Os imortais, como foi chegar à forma que o livro exigia?
A forma é a sintonia fina da coisa, um rádio que se pega com paciência. Embora eu queira muito que a história aconteça, que ela se realize no texto, não tenho pressa. Desfruto da escrita, gosto de estar no universo dos personagens, na companhia deles. Nesse romance, trabalhei por cinco anos e nem acho que seja tanto. Flaubert levou dez para concluir Madame Bovary. É preciso ficar pelo tempo que for necessário. Desde que haja fluxo, quanto mais, melhor. Esse é o barato da coisa, para mim. O modo que permite achar os sons, porque me coloca em contato com uma voz mais secreta, mais íntima.
• Nomear as personagens como Homem, Mulher, Velha produz um efeito de universalização, mas também de estranhamento. O que essa escolha permite que um nome próprio talvez não permitisse?
Não foi uma escolha por possibilidades, mas os nomes têm uma história própria dentro da evolução da linguagem. Dar nomes às pessoas, especificamente, reflete uma necessidade de identificação e diferenciação social presente na maioria das sociedades humanas. Acredita-se que os primeiros nomes próprios estavam ligados a características físicas, a virtudes, a profissões ou à filiação (“filho de”). Mas podemos pensar em N possibilidades, pois as culturas são abundantes. Por exemplo, ainda hoje existem povos que atribuem às pessoas nomes que representam cenas inteiras ou poderes mágicos. De qualquer modo, é sempre algo que se liga a uma intenção, a um processo consciente de um determinado grupo. É interessante considerar também que os personagens do romance se comunicam por uma protolinguagem fictícia e que a concepção dos nomes acompanha esse traço linguístico.
• Há no livro uma relação particular com o tempo — não apenas um passado remoto, mas um tempo quase mítico, em que memória, sonho e experiência se confundem. Como você trabalhou para dar forma a essa temporalidade?
O livro tem alguns lapsos temporais, alguns saltos. Raramente, recuos. É quase inteiro narrado no presente. E no presente é quando o caldo do nosso pensamento é mais grosso, pois nunca damos conta apenas do agora, mas também do que aconteceu e do que está por vir. Passado e futuro contagiam incessantemente nossa percepção. E ambos são meio devaneantes, intrusivos. Um mero plano para o jantar já é uma intromissão do futuro nos nossos pensamentos. O medo de se queimar novamente na boca do fogão ou a saudade de alguém fora de alcance, baforadas do passado. Ou seja, o presente puro, incontaminado de imaginações, acontece pouco. Talvez o livro se embeba disso e esteja em algum lugar na confluência dos três tempos.
• Na orelha de Os imortais, Caetano W. Galindo escreve que “com uma linguagem que fica sempre a quinze graus de desvio do ‘normal’, e que assim materializa a cada momento o estranhamento e novidade que temos diante dos olhos, Paulliny Tort escreveu um romance diferente de todos”. Como se deu a construção dessa linguagem que “fica sempre a quinze graus de desvio do ‘normal’”?
Acho que também tem a ver com as leituras. E não apenas. Porque as referências não são só literárias. Tenho assistido bastante a filmes antigos japoneses, particularmente os do Kenji Mizoguchi, que são muito silenciosos. Aliás, desde sempre me identifico mais com o silêncio no cinema. Gosto demais de música eletroacústica minimalista, ambient dos anos 1960-1980, que também opera com o mínimo de elementos. Nos últimos anos, ouvi muito as composições da Joanna Brouk, que felizmente foi redescoberta um pouco antes de morrer e teve suas gravações relançadas por um pequeno selo. Gosto do Joel Vandroogenbroek, do Isao Tomita, da Éliane Radigue, do Omar Aramayo… São sons desviantes do normal. Desconfio que influenciam o ritmo da minha escrita tanto quanto os hexâmetros dactílicos que leio.
• Na cena dos javalis, há um dilema ético: caçar ou preservar os mais frágeis. O narrador pergunta: “que decisão seria melhor que a de resguardar os debilitados?” Esse conflito dialoga com questões contemporâneas sobre coletividade?
Sabemos que foram encontrados fósseis que sugerem que os neandertais cuidaram de seus entes fragilizados — por vezes, de indivíduos com deficiências severas. Particularmente, não considero uma grande surpresa, pois esse tipo de comportamento não é exclusividade humana. São famosos os casos de “altruísmo” entre golfinhos, que costumam proteger seus doentes, seus mutilados, seus mais fracos. Outros mamíferos também demonstram essa inclinação. Frans de Waal, no excelente O último abraço da matriarca, apresenta exemplos de complexidade emocional em vários animais. É obsoleta a ideia de que a competição absoluta rege as leis da vida e só prevalecem os mais fortes. Há muita colaboração na história da evolução das espécies. O gênero Homo, do qual nós e os neandertais somos parte, não fica de fora. Já as interpretações sobre o livro, prefiro deixar para o leitor.
• O Homem parece constantemente dividido entre instinto e responsabilidade. Você o imaginou como um líder em formação ou como alguém em crise diante da própria ideia de liderança?
O Homem veio do jeito que veio. Até que o mundo acabe, personagens são pessoas eternas.
• A morte do Velho é narrada de forma seca, quase insuportável — “dói ver aquela mão, aperta como se os golpes fossem também em si”. Como você pensou a linguagem diante da violência e da finitude?
Novamente, acredito que sejam ecos das minhas leituras, mas também do que vejo no mundo. Pois quer coisa mais insuportável que esses massacres? Escolas bombardeadas, hospitais em colapso, pessoas morrendo de fome e por falta de remédios… Isso não está mais ou menos enlouquecendo cada um de nós? Não é um absurdo que ainda haja tanto sofrimento quando existem condições para que todos vivamos com mais segurança, justiça, entendimento e conforto? Os livros são violentos porque o mundo é violento. Na mesma medida, os livros também são amorosos. Para o bem e para o mal, somos um pouco de tudo.
• Ao afirmar que, na guerra, “mesmo quando ganham é um fracasso”, o romance parece ultrapassar o episódio narrado. Trata-se de uma visão sobre a guerra ou sobre a própria condição humana?
Cada leitor deve responder a isso individualmente, se assim desejar. Quando escrevo, não penso em nada disso.

• A natureza não aparece como cenário, mas como força ativa — muitas vezes hostil, outras vezes indiferente. Qual foi o maior desafio ao escrever um mundo em que nem só o humano ocupa o centro?
Gosto de estar entre as árvores e os animais, gosto de lugares selvagens. Gosto também de desertos. Gosto do mar. Na cidade, sou atenta às plantas, acompanho as mudanças das estações, porque esse é o tipo de coisa que me interessa. Não vejo televisão (exceto algum filme muito bom e, eventualmente, alguma série), não saio para eventos sociais quase nunca, então meu tempo e meu olhar estão disponíveis. É esperado que aquilo que chamamos de natureza esteja no centro do que escrevo, não me exige esforços especiais.
• Quando o clã encontra os “estrangeiros”, surge uma tensão que é também linguística e cultural. Em certo ponto, o Homem se pergunta por que não tentam se conhecer. Essa passagem pode ser lida como uma alegoria das dificuldades dos encontros entre algumas culturas?
Não quero ser chata, mas as interpretações realmente não entram na minha conta. Acredito na ficção como um roteiro para a imaginação de outra pessoa, então deve haver uma brecha para que essa imaginação opere. No fim das contas, cada um vê o que deseja (e pode) ver. Entre o texto propriamente dito e o ato de ler, há sempre as imagens internas do leitor, e qualquer impressão sobre um livro será uma filtragem. Nesse sentido, a quantidade de visões possíveis sobre uma história é diretamente proporcional à quantidade de pessoas que leem essa história. Se é ou não uma alegoria, depende de quem lê.
• Você já afirmou que escreve, em alguma medida, sobre a dificuldade de entender o outro. Os imortais, em que essa dificuldade parece levada ao limite, seria um ponto extremo dessa investigação?
A comunicação não é total; existe diferença entre aquilo que se quer dizer e aquilo que é dito. E ainda tem o receptor, que desvia mais a mensagem de sua intenção original. Com isso, acho que estamos todos de acordo. Mas o sentimento talvez seja uma forma de pensar, pensar talvez seja uma forma de sentir. Talvez existam outras formas de comunicação, mais sutis, que operam em campos desconhecidos. As questões são muitas, mas um romance não é uma teoria sobre nada. Não é uma proposta interpretativa. Para mim, o romance é um fragmento, um pequeno mundo partilhado.
• Que tipo de reflexão você gostaria de gerar a partir da leitura de um romance como Os imortais — situado antes da própria ideia de sociedade?}
Quero que as pessoas desfrutem da companhia dos personagens, como eu desfrutei. Que elas se emocionem, que se envolvam, mas isso definitivamente não está no meu controle. Os desdobramentos são sempre externos ao universo da história, que é onde prefiro permanecer. Eu me vejo mais como uma espécie de faroleira. Faço uma lâmpada brilhar no alto da torre, indicando um lugar em terra. Os navios seguem essa luz, mas cada um tem a sua carga, tem a sua tripulação, os seus objetivos. A luz do farol é indiferente, apenas brilha para os navios. Não importa o que eles carregam, o que farão. De um jeito parecido, só escrevo.
• De que maneira a formação como jornalista ajuda (ou atrapalha) na construção da sua ficção?
O jornalismo não ajuda nem atrapalha. Na minha carreira, não me envolvi com o texto jornalístico. Escolhi trabalhar mais com rádio, onde a escrita é acessória; ainda que um bom roteiro seja desejável, não se compara à densidade de uma matéria escrita. Para ser sincera, nem me considero muito jornalista. Acho que não tenho o senso prático necessário.
• Sua obra vem recebendo ótima recepção crítica e de leitura. Nos últimos anos, as escritoras ganharam mais espaço e visibilidade na literatura brasileira. Como você percebe esse momento e suas transformações?
Produzi um programa sobre literatura para a Rádio Nacional, em Brasília, e acompanhei muito o cenário e os lançamentos, mas faz pelo menos cinco anos que me desconectei bastante, então não sei tanto sobre o momento atual. Percebo que há mais mulheres publicando (e já faz um tempo) e que existe um movimento de valorização e celebração das escritoras. É claro que isso tem implicações positivas — afinal, somos metade da espécie —, só não creio que haja uma dicção feminina ou temas próprios à mulheridade. Não acho que mulheres escrevam de alguma maneira específica, que tenham mais ou menos talento que os homens ou qualquer coisa assim. Para mim, a literatura de ficção é, antes, esse lugar maravilhoso e um pouco insano onde podemos nos perder de nós mesmos.
• Diante de um mundo marcado por guerras, deslocamentos e crises, temas que atravessam Os imortais, qual seria o poder da literatura para jogar alguma luz sobre certa barbárie que nos cerca?
Quando eu era criança e me apavorava com a guerra, a fome e a destruição nos noticiários, já amava os livros. De lá para cá, li centenas deles, milhares de outros foram publicados e o mundo, infelizmente, não me parece melhor. Um livro não é uma poção que faz humanos bons. Então, honestamente, não sei se a literatura funciona de alguma forma contra a barbárie. Há quem diga que escreve para se vingar, mas considero bobo. Por mais que flerte com os problemas do mundo, um romance (ou um conto) pertence a outro campo de existência. Para começar, é um pacto diferente do social: podemos transcender certos códigos, desconsiderar acordos, podemos ser amorais. Mas também entendo que a literatura oferece oportunidades. Cresci só com mulheres, tínhamos pouco dinheiro, mas uma estante cheia de livros. Por essa sorte, o gosto pela leitura conduziu a minha vida (e me tornei a primeira da família com diploma). Não sou a única pessoa com uma trajetória assim. Então pode ser que os livros nos expandam mesmo, sobretudo quando o meio nos esmaga. Mas penso que o ganho maior da literatura é de outra ordem: a fricção da nossa imaginação, da nossa sensibilidade. E a experiência do sublime, que está além da beleza.