Vozes de uma época malsã

No romance "As vozes da noite", de Natalia Ginzburg, silêncios familiares dão forma a uma Itália ferida pelo fascismo e pela guerra
Natalia Ginzburg, autora de “As vozes da noite”
01/07/2026

Natalia Levi nasceu em Palermo, em 1916, no seio de uma família burguesa. Filha de Giuseppe Levi, professor de anatomia comparada, cresceu em Turim. Trabalhou por vários anos na editora Einaudi e conviveu com autores como Cesare Pavese e Italo Calvino. Sua vida foi profundamente marcada pelo período em que acompanhou o primeiro marido, o escritor e intelectual Leone Ginzburg, durante seu compulsório banimento no vilarejo Pizzoli, próximo a L’Aquila, na região dos Abruzos, motivado por embates políticos. O confinamento de opositores numa vila do interior, sob estreito controle policial, era uma pena habitual do regime fascista.

Eram os anos da Segunda Guerra Mundial e, na Itália, imperava o regime de Mussolini. Natalia não era obrigada a permanecer naquele lugar ermo, mas ficou junto do marido e dos três filhos, distante dos pais, dos amigos e dos requintes da vida urbana. Nas manhãs, costumava passear com os filhos pelos campos cobertos de neve, à tarde, caminhava com o marido pelas ruelas íngremes. As fisionomias das mulheres do vilarejo, que a princípio lhe pareciam anônimas — pois ela não distinguia umas da outras —, tornaram-se os familiares rostos das partilhas de histórias e conselhos que tinham lugar em meio às lidas nas cozinhas. Em julho de 1943, Leone Ginzburg segue para Roma. Após a ocupação alemã da Itália, Natalia e os filhos se juntam a ele, em novembro; ele passa a viver na clandestinidade. Ele é preso, torturado e morto. Quando nutria esperanças auspiciosas de paz, constata que os melhores momentos da vida em família tinham se passado no isolamento da região dos Abruzos.

Da obra da escritora italiana Natalia Ginzburg, estão sendo publicados no Brasil os ensaios, os contos e os romances; ao que tudo indica, as peças continuam inéditas.

Ela admirava a literatura russa, seu nume era Tchekhov. Encantava-a a narrativa sobre a sociedade de São Petersburgo que Gogol representa no conto Avenida Niévski. O romance As vozes da noite foi escrito entre 20 de março e 12 de abril de 1961, quando ela morava em Londres. À época, ela preteria os laços que a prendiam ao cenário da vida italiana burguesa. Conta que firmar filiações a nomes determinados de pessoas e de lugares que não lhe pareciam tão fascinantes como aqueles longínquos e glamorosos sempre era entraves na sua escrita.

Assim, buscava desprover as experiências conhecidas dos traços pessoais e libertar as figuras da paisagem específica, alçando-as a abstrações universais. O amor do par Elsa e Tommasino, sufocado pela falta de liberdade, a afobação de Gemmina, o sôfrego egocentrismo da mãe Matilde, sem a mínima cautela ou empatia, são expressões humanas tangíveis que o romance testemunha e delata. A montagem das diversas perspectivas incidentes ora numa, ora noutra personagem sucede por meio do espaçamento maior entre os parágrafos. Semelhante formato sem marcas definidas de capítulos imprime naturalidade às alternâncias, à intermitência das aparições do “eu” narrativo, que é conduzido pela modesta e consistente persona Elsa.

Depois veio a guerra. Os filhos do Bolota foram para a guerra, mas o Basco foi dispensado, porque tinha um problema no tórax; e tivera pleurite quando era pequeno, e, de um lado, ainda dava para escutar o assobio.

Depois do dia 8 de setembro, o Basco apareceu uma noite na Casinha para acordar o Bolota e a senhora Cecilia. Disse que se vestissem imediatamente e fossem embora, porque os fascistas queriam vir atrás deles. O Bolota protestava, não pretendia se mover; dizia que todo mundo no vilarejo gostava dele, e que ninguém teria ousado lhe fazer mal. Mas o Basco, com uma expressão dura como mármore, já tinha preparado uma mala.

As convulsões históricas do século 20 são mencionadas à maneira de rubricas dramatúrgicas e se mantêm no pano de fundo do vilarejo onde se situam a casinha, a Vila Bottiglia, o bosque do general Sartorio, a Casa Redonda, a Vila Andorinha, próximo ao quartinho da Via Gorizia lá na cidade, e as fugidias alusões aos fatos dão os contornos às escolhas ficcionais, aos destinos, às inclinações políticas que balizam os caracteres. Uma personagem marginal, anônima, simplesmente designada como moça brasileira que estuda música e está associada à mamita chantagista, a um papito, surge dentro da história como uma leve insinuação inoportuna. A tradutora Iara Machado Pinheiro evidenciou acertadamente sua opção por preservar os termos originais.

O posfácio à edição brasileira, “Foi assim que cheguei à pura memória”, de autoria de Natalia Ginzburg, compôs o prefácio da coletânea Cinque romanzi brevi e altri racconti, de 1964, com referências às histórias que integravam a edição italiana. No contexto da publicação brasileira, esse arrolamento minucioso permite acompanhar a ordem cronológica dos textos e os contextos em que se inscreve cada parcela da obra. Acima de tudo, porém, as reflexões concernentes ao fazer literário podem servir de valiosa orientação ao leitor interessado em se enveredar mais profundamente pela linguagem “apaixonada e imperiosa” de toda a obra. O posfácio assinala, além do mencionado bloqueio quanto a fixar antropônimos e topônimos, os impasses nas relações entre o emprego da primeira pessoa do singular, a escrita autobiográfica e possíveis efeitos da escrita individualizada rígida.

Incomodava-a de mais a mais o modo como ela própria, a escritora, intervinha quando usava a primeira pessoa. Busca então rastrear as transformações dos matizes que se deram em função das suas operações com os elementos narrativos. Seu ensaio Silêncio (tradução de Maurício Santana Dias) discorre acerca de “um dos vícios mais estranhos e mais graves de nossa época”, que passa a se instaurar à revelia das palavras sangrentas e pesadas dos pais. O silêncio implica, por conseguinte, um mal-estar e uma dificuldade de elaborar literariamente as trocas de palavras entre as personagens, pelo peso do silêncio reinante, amargo fruto de uma época malsã. Ao passo que seu ensaio As relações humanas reclama um olhar com os olhos justos e libertos das contingências intrínsecas da univocidade.

É curioso notar que as indagações poéticas desta escritora admirável têm cariz muito semelhante às de Ingeborg Bachmann, escritora austríaca. Coincidentemente, ambas viviam na mesma época em Roma, no caso da austríaca desde os anos 1950 até sua morte em 1973. Ela foi a primeira convidada a proferir conferências na Universidade de Frankfurt (1959-1960) e elegeu a temática Problemas da literatura contemporânea, subdividida em cinco conferências, mais tarde reunidas no livro Frankfurter Vorlesungen.

O ensaio O eu que escreve vai adentrando as metamorfoses e estratégias que o eu escrevente engendra: “Como se fosse um carnaval organizado para o eu, no qual ele pode se revelar e ou esconder, se transformar e se desmascarar, esse eu, esse ninguém e alguém, em suas roupagens de bobo da corte”. E o ensaio O traquejo com nomes realça o mistério dos nomes das personagens literárias, nomes a que nos apegamos pela sua triunfante presença nos nossos dias, até mesmo quando desconhecemos as obras: Lulu, Undine, Emma Bovary, Anna Karenina, Dom Quixote e Hans Castorp. Acrescento Elsa e Tommasino à lista dessas figuras vigorosas da literatura. Conviver com os nomes de seres imaginários nos parece tão natural que mal nos perguntamos por que é que esses nomes fazem parte do mundo. No entendimento de Ingeborg Bachmann, “o nome permanece mais fortemente ligado à figura fictícia que ao ser vivo”.

As vozes da noite
Natalia Ginzburg
Trad.: Iara Machado Pinheiro
Companhia das Letras
160 págs.
Natalia Ginzburg
Nasceu em Palermo (Itália), em 1916. Fazia parte de uma elite intelectual da literatura e da crítica italiana, juntamente com seus colegas editores da Einaudi, Cesare Pavese, Italo Calvino, e com os intelectuais Elio Vittorini, Giulio Einaudi e Eugenio Montale. Escritora de renome internacional, foi também tradutora. Morreu em Roma, em 1991.
Maria Aparecida Barbosa

Professora de Literatura e tradutora do alemão.

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