Uma purulenta alma soviética

Em "Moscou feliz", Andrei Platónov mostra um processo de modernização infeccioso que impede a humanidade de alcançar os céus
Ilustração: Andrei Platónov por Fabio Abreu
01/08/2026

No começo dos anos 1930, o jovem escritor russo Andrei Platónov sofreu um baque. Nascido em 1899 nos arredores de Voronej, Platónov não era de família rica, tampouco frequentou os epicentros literários de Moscou e São Petersburgo nem redigiu manifestos de vanguardas artísticas.

Era filho de um mecânico ferroviário, o mais velho de onze irmãos. Começou a trabalhar cedo e logo se apaixonou pelas locomotivas, por seus apitos e pelos mecanismos de modernização. Sua paixão pelos trens não diminuiu o amor pelas letras e, após a Revolução de Outubro de 1917 e durante a guerra civil que se seguiu, integrou o Exército Vermelho como engenheiro enquanto se dedicava à criação da legítima literatura soviética.

No entanto, até o fim da década de 1920, Platónov passou por um processo de desencantamento com a fome, a coletivização forçada e os rumos políticos da União Soviética, além de enfrentar diversas censuras literárias pelos comitês literários soviéticos. Não se tornou um dissidente e continuou a acreditar no socialismo até o fim da vida, mas, em vez de uma prosa que celebrasse a Revolução, passou a expor questões incômodas e a esmiuçar as contradições cotidianas do homem soviético.

Mas o choque veio no início da década de 1930. Primeiro, sua novela Vprok (Bedniatskaia Khronika) foi publicado na revista literária Krasnaia Nov. Não demorou para que Stálin enviasse em resposta uma cópia anotada com ofensas e ameaças, e exigisse uma punição. Platónov pediu desculpas, reconheceu os danos, ainda que não intencionais, e prometeu mudanças para elevar a alma soviética.

Não adiantou.

Ainda ostracizado pelo regime, foi Maksim Górki quem convenceu Stálin a não enviar o escritor para a Sibéria. No entanto, seu filho não teve a mesma sorte. Em 1938, Platon Platónov foi enviado a um campo de trabalho e, em 1940, voltou doente de tuberculose, que lhe custaria a vida em 1943. Platónov viveu o resto da vida como faxineiro da União de Escritores enquanto, anonimamente, traduzia lendas folclóricas para crianças —publicadas oficialmente, sem o seu nome nos créditos. Em 1951, no quarto de faxina onde morava, faleceu vítima de tuberculose, provavelmente contraída enquanto cuidava do filho.

Publicação póstuma
Platónov morreu com suas grandes obras não publicadas, trabalho realizado postumamente por Vassili Grossman. Ao longo da vida, desenvolveu um estilo literário distinto: enfatizou o cotidiano das pessoas comuns, manteve seu tom crítico ao lado da fé na Revolução, escreveu personagens de grande profundidade psicológica, ainda que distorcidos, e apresentou uma linguagem complexa, deformada e contorcida — motivo que se soma ao histórico político e ajuda a explicar parcialmente a ausência de mais traduções.

A editora Ars et Vita publicou Tchevengur (2021), seu único romance finalizado sobre uma sociedade utópica soviética, Iúchka e outras histórias (2024) e O amor pela pátria e outras histórias (2025), duas coletâneas de contos. E, mais recentemente, publicou também o conto A vaca.

Além disso, no fim de 2025, a editora Ubu publicou uma edição especial de Moscou feliz, com prefácio do escritor, editor e tradutor argentino Juan Forn, posfácio de Letícia Mei, responsável pela tradução brasileira, e um projeto gráfico muito interessante, com reproduções de páginas do periódico soviético SSSR na stroike e dobraduras que remetem à icônica cena do salto de paraquedas de uma das protagonistas.

Apesar de incompleto, Moscou feliz nunca teve um final planejado. Platónov pode não ter feito uma última revisão do livro, mas deixou instruções para que o livro continuasse sem resoluções, sem um final.

A narrativa começa com uma revolução silenciosa: um homem corre pela noite com uma tocha. Das sombras, ele é assassinado e tem como testemunha uma garotinha assustada que o observa pela janela. A menina é Moscou Tchestnova, uma das protagonistas do livro, que se descreve não como “filha” da revolução, mas como “órfã”.

Assombrada pela lembrança, Tchestnova vive uma vida repleta de insatisfações e mudanças de rumo: é acolhida por um colégio, foge, mas retorna para completar os estudos, casa-se, sente-se arruinada e desaparece de um dia para o outro. Apaixonada pelos céus, forma-se na escola de aviação e, durante um salto de paraquedas, resolve fumar um cigarro — ato que causa um acidente terrível e lhe custa o cargo de paraquedista.

A vida de Moscou é quase cíclica. Desperta paixões nos homens ao seu redor, encontra novos objetivos que auxiliam no desenvolvimento do país, mas logo uma angústia subterrânea emerge, esvaziando afetos e esforços. Então, na calada da noite, Moscou Tchestnova foge e recomeça sua jornada.

Tchestnova, assim como os outros protagonistas de Moscou feliz, está presa num cabo de guerra. De um lado, os sonhos, desejos e ânsias; os céus; a idealização do projeto utópico. Do outro, a realidade crua do cotidiano; o preço real da construção da utopia. Em determinado momento, Moscou sente-se presa entre o amor e o comunismo: “o amor não pode ser o comunismo: eu pensei, pensei e vi que não pode… Amar, a gente deve amar, e eu vou amar, é como comer — uma necessidade, mas não o principal da vida”. Não é o amor que une as pessoas, o amor é apenas um prazer privado que se repete.

Desenvoltura encantadora
Mesmo assim, ao longo do livro, Tchestnova desperta paixões em quase todos os homens que conhece. Sua desenvoltura é encantadora. No diálogo acima, frustra as expectativas de Sartorius, um dos mais renomados inventores da União Soviética. Perdidamente apaixonado, Sartorius crê cegamente na racionalidade técnica e usa sua fé para resistir aos encantos dessa paixão particular e dedicar-se à luta pelo bem coletivo. “Vá embora, me deixe sozinho de novo, força ruim!”, pensa Sartorius em certo momento. “Sou um simples engenheiro racionalista, eu te rejeito como às mulheres e ao amor… Melhor me curvar à poeira atômica e ao elétron!”.

Preso na luta entre os sentimentos e a razão, Sartorius recebe a missão de desenvolver a mais precisa balança já feita. Apesar de sabermos que o “ser humano em breve será voador e feliz”, o necessário agora é “pesar o pão e o grão com rigor nos colcozes”. Retomando as dualidades propostas por Platónov, a balança dialoga com muitas questões.

Descritas como a “máquina mais antiga do mundo”, as balanças surgem como “armas, e talvez sejam a mesma coisa: balanças são uma espada de guerra, cuja lâmina se equilibra na borda de uma pedra — para a justa divisão do espólio entre os vencedores”. Mas também refletem outros aspectos das organizações sociais: podem ser responsáveis por revoltas, já que são responsáveis pela divisão de provisões; ocultam as dinâmicas de poder por sua discrição e insignificância, já que “as pessoas só examinam agudamente o que está sobre a balança (…), mas não notam o que está embaixo”; é o que avalia e transforma o esforço do trabalho em comida e alimento, como um instrumento de honra e justiça.

Agora, como devoto da racionalidade, Sartorius “convertia toda a indústria de balanças da república para a eletricidade. Ele queria substituir a constante passiva universal — a gravidade da Terra — por uma constante ativa: a energia do campo elétrico”. Mas todo esse desenvolvimento tem um custo: a vida humana.

Seu colega, o cirurgião Sambíkin, dedica-se à busca pela alma e ao estudo da força vital capaz de colocar a humanidade mais uma vez em seu posto elevado, quase sagrado. Deformadas pelo sofrimento e pela morte, as asas do ser humano atrofiaram, transformaram-se em caixas torácicas. Mas essa “criatura artesanal, de estrutura fraca” que é o ser humano pode virar uma “imagem alada, elevada”.

No entanto, nosso mais potente reservatório de energia vital é encontrado por Sambíkin apenas em nossos cadáveres, como se o custo da ascensão e da imortalidade pudesse ser pago unicamente com o fim de outras vidas. É também em outra análise grotesca de cadáveres, entre fezes, fome e alimentação dentro de um intestino, que Sambíkin encontra o local da alma e o apresenta a Sartorius:

— Está vendo? — ele perguntou, abrindo bem a parte vazia entre a comida e as fezes. — Esse vazio nos intestinos suga para si toda a humanidade e move a história universal. É a alma — cheire!

(…)

— Não faz mal — ele disse. — Vamos preencher este vazio, então outra coisa vai se tornar alma.

— Mas o quê? — Sambíkin sorriu.

— Eu não sei o quê — Sartorius respondeu, sentindo uma humilhação lamentável. — Primeiro é preciso alimentar as pessoas para que não sejam sugadas para o vazio dos intestinos…

— Sem possuir alma, não é possível alimentar ninguém, nem se saciar — Sambíkin retrucou entediado — Não é possível nada.

Sartorius se curvou para o cadáver, em cujos intestinos se encontrava a alma vazia do ser humano. Tocou com os dedos os resíduos de fezes e de comida, examinou meticulosamente a estrutura estreita e pobre de todo o corpo, e então disse:

— Esta é a melhor, a mais comum das almas. Outra assim não existe em lugar nenhum.

À espera da morte
Como personagem mais conectado ao rés do chão, exemplar dos custos citados pelos outros personagens, surge Komiáguin, um sujeito de segunda classe que vive com Moscou Tchestnova por um período de tempo. Komiáguin é um homem que não conseguiu servir ao seu país como um combatente e vive à espera da morte… mas nem ao menos se sente vivo.

Em certo momento, ouvimos Komiáguin comentar com Tchestnova: “eu nem vivo, estou apenas envolvido na vida, como se tivessem me enrolado nesse assunto… Mas foi à toa!”. Posteriormente, afirma viver uma vida sem vontades e sentir que “o tempo todo tem que ficar a postos: ora pensar, ora falar, ir a algum lugar, fazer alguma coisa… Mas não tenho vontade de nada, esqueço que estou vivo, quando lembro, fico assustado…”.

Komiáguin anseia pelo momento de sua morte: ensaia seu enterro ao dormir como sepultado, em poses fúnebres e de cabeça coberta; liga para os serviços funerários e busca acompanhar os trajetos e os locais cerimoniais para compreender como será o percurso de seu cadáver; e ainda cria expectativas positivas sobre o processo de falecimento, uma vez que “milhões de almas já passaram pela morte e ninguém voltou para reclamar”.

Desumanização
O que Platónov parece nos mostrar é um processo de desumanização daqueles presos entre a expectativa e a construção da realidade. Elemento importante nessa dicotomia é o processo brutal de modernização. Em suas descrições, é a cidade que se apresenta como algo vivo e humano. A cidade sussurra “em sua energia triunfante, a voz de um ser humano ressoando, às vezes, do estrondo abafado dos mecanismos em ação”, enquanto os humanos aparecem sob aspectos cada vez mais mecânicos, automáticos ou fugidios.

Como um paralelo à modernidade, Sambíkin procura erradicar a infecção do crânio de um jovem garoto. Mas o pus é forte, resiste às investidas, infecta os ossos, contamina a consciência. A jovem vida é um preço a ser pago. Sartorius vê refletida na infecção sua ânsia: “Como somos parecidos, o mesmo pus corre em nossos corpos”, pensa em determinado momento.

O inventor, que tinha na força da técnica “a verdadeira alma do ser humano”, começa a antever uma desconstrução do espaço coletivo e uma impossibilidade de conexões. Sartorius chega a sugerir a prevalência do espaço privado, dentro dos lares, como uma dinâmica que prevalecerá sobre a lógica comunitária — e é onde, de fato, ele encontrará descanso no final do livro, ainda que um descanso intranquilo, conflituoso.

Por vezes, as angústias de Sartorius parecem ecoar a reflexão proposta por Dostoiévski, na conclusão de Irmãos Karamázov, ao se perguntar sobre o que revelamos em um processo tão custoso. Ao questionar a descoberta da localização da alma, proposta por Sambíkin, Sartorius aponta que não é a fome que guia o ser humano, mas “outra coisa, mais secreta, pior e vergonhosa”, algo ligado à fonte da “dor de uma criança”.

Em certo ponto, Sartorius e um colega conversam sobre as regras de ouro e o que é necessário para realizar as conquistas. No entanto, o inventor questiona: “mas quanto conseguiu? Não mais de um grama! E do outro lado da balança teve que colocar para equilibrar uma tonelada inteira de terra da sepultura que agora soterra e sufoca seu filho…”

Angustiado, Sartorius evidencia o que está em jogo:

agora é imperativo compreender tudo, pois ou o socialismo logrará alcançar o interior do ser humano até seu último esconderijo e de lá poderá liberar o pus acumulado gota a gota ao longo dos séculos, ou nada de novo acontecerá e cada habitante se afastará para viver separadamente, acalentando com cuidado em si o terrível esconderijo da alma, para de novo, com um desespero voluptuoso, cravar os dentes uns nos outros, e tornar a superfície terrestre um deserto solitário com o último ser humano chorando…

Platónov evidencia que essa batalha acontece não apenas no campo concreto, mas também no campo linguístico — outro personagem do livro dedica-se a aprender esperanto e a compartilhar os sonhos soviéticos com trabalhadores ao redor do mundo. Sua prosa não busca organizar a realidade, mas apresentar seus buracos; como escreve Letícia Mei no posfácio, é uma “linguagem que não organiza o mundo — antes expõe sua inconsistência —, que não lhe confere sentido pleno, porque não apreende as incógnitas”.

No entanto, Platónov nos deixa com um incômodo. Seus personagens casam-se, trocam de identidade, rejeitam a vida pessoal ou ficam aleijados, mas todos concluem a narrativa em suspenso, tão incertos quanto estavam no começo. É como se Platónov transferisse para nós a angústia deles: se a realidade é uma construção fracassada, um sonho arruinado, uma linguagem manca, o que podemos fazer além de fugir?

Moscou feliz
Andrei Platónov
Trad.: Letícia Mei
Ubu
192 págs.
Andrei Platónov
Nasceu em Voronej (Rússia), em agosto de 1899. Ao longo de sua vida, Platónov dedicou-se tanto aos seus escritos quanto ao projeto soviético após a Revolução de Outubro, atuando como engenheiro na reconstrução do país. Seu estilo singular percorreu diversos gêneros. Escreveu roteiros, contos de fadas, contos infantis e romances. Entre suas obras traduzidas estão Tchevengur (Ars et Vita, 2021), Iúchka e outras histórias (Ars et Vita, 2024) e Moscou feliz (Ubu, 2025).
Arthur Marchetto

É doutorando em Comunicação Social, com pesquisa sobre crítica literária na Universidade Metodista.

Rascunho