Na abertura de O farejador, poema em prosa que fecha o livro Palavra e rosto (2010), Fernando Paixão anuncia:
Era um convicto catador de poemas. Entregava-se aos acasos para poder colecionar detalhes ou cenas quaisquer, donde se depreendesse o sinal possível, espiralado, que permitiria o estirar de uma frase natural. Ele, sempre atento na ponta dos olhos, recusava-se a emendar palavra com palavra em meio à limpeza higiênica das mesas poéticas; não queria a poesia remediada, de tato virtual, nem a fria plumagem da língua.
O texto reaparece em Antologia do poema em prosa no Brasil, articulando dimensões do antologista e do poeta; a obra apresenta um atento catador de poemas a mapear um gênero literário no país.
Na Antologia, aliás, convergem muitos méritos. O volume reúne cem autores, mais de duzentos poemas nacionais e quase quatrocentas páginas; ao mesmo tempo, o antologista demonstra consciência de suas escolhas, parece não querer apenas um frio catálogo da língua. O livro oferece uma larga amostragem dessa modalidade, tratada como pequena reflexão, e abarca século e meio de produções nacionais; em um país de dimensões continentais e tão diverso, talvez seja impossível englobar todas as nuances dessa arte. Frente à literatura brasileira, Paixão recusa a limpeza higiênica de uma suposta objetividade absoluta e depreende, com delicadeza, sinais possíveis de si, sem perder de vista a tarefa de cartografar determinada tradição poética.
Forma híbrida
Disposta ao final das páginas introdutórias da Antologia, a Nota Editorial expressa um pouco essa dupla visada do livro: abarcar a diversidade do gênero no Brasil e reconhecer os limites dessa proposta. A advertência fecha uma apresentação relativamente extensa, de cerca de sessenta páginas, nas quais o professor e pesquisador Fernando Paixão explicita seus critérios ao selecionar os textos:
A seleção de textos desta antologia procurou seguir o critério geral exposto na apresentação, de modo a reunir boa mostra da diversidade do poema em prosa no Brasil, desde o final do século XIX até a atualidade. Ela procura ser representativa das diversas correntes e movimentos literários, com ênfase na produção do final do século XIX e das décadas recentes. (…) Ainda que procure ser representativa, esta antologia não pretende cobrir toda a produção do gênero no Brasil, tornando inevitável a ausência de vários nomes que mereceriam ser incluídos. Que isso sirva de estímulo para a organização de coletâneas similares.
Além da nota, a introdução está dividida em duas partes. A primeira, Poema em Prosa: Por que Não?, traça algumas balizas conceituais. Traz, na epígrafe, um trecho do Spleen de Paris (Pequenos poemas em prosa), de Charles Baudelaire, obra assumida por Fernando Paixão como uma referência desse gênero literário. De acordo com o professor, o referido Spleen de Paris ocasiona uma virada estética, tornando o clássico francês fundamental para o entendimento dessa modalidade de composição, além de sustentar opções estilísticas e históricas da Antologia. Essa coletânea, por sua vez, parte do final do século 19 e chega ao presente, seguindo a tradição que vê em Baudelaire um ponto decisivo, embora distinga tendências múltiplas ao longo das décadas.
Diante disso, o pesquisador destaca uma pergunta sistematizadora e manifesta o seu horizonte teórico:
A primeira questão que se impõe, portanto, é como circunscrever uma forma tão particular e “rica em contrastes”, conforme assinalou o poeta francês. Afinal, que critério estético deve orientar uma seleção de poemas em prosa?
Fernando Paixão prioriza o critério estético, ainda que outros pressupostos menos explícitos também orientem o trabalho, a exemplo de determinados elementos históricos. O preâmbulo defende que um poema em prosa deve ser constituído pela tríade uno-gratuito-breve. Precisa ser um texto com unidade, vontade de organização interna; com gratuidade, mais livre ao se lançar ao imaginário; e com brevidade, certa síntese a adensar as linhas.
Fernando Paixão faz ressalvas em torno desses delineamentos textualistas, porém os defende. Os parâmetros do uno-gratuito-breve são próximos dos formulados pela teórica francesa Suzanne Bernard no estudo Le poème en prose (1959), e retomam debates desenvolvidos desde pelo menos Arte da pequena reflexão: poema em prosa contemporâneo (2014), escrito pelo próprio autor da Antologia do poema em prosa no Brasil. Com esses diálogos, o prefácio se distancia um pouco de discussões, por assim dizer, mais explícitas em torno de elementos sociais e políticos, o que traz implicações para a arquitetura da seleção de poemas. Essa articulação parece afinada com a Nota Editorial: o livro estabelece direcionamentos de pesquisa e, em seus limites, convoca novas reflexões sobre um tema inesgotável.
Na segunda parte da introdução, Panorama do Poema em Prosa no Brasil, o cenário é dividido em quatro momentos/seções: Primórdios da Prosa Poética no Romantismo; Poema em Prosa Entra em Cena: Simbolismo; Modernismo: Gênero Híbrido em Ressaca; e Da Poesia Marginal à Modernidade Plena. Havendo em Baudelaire um ponto de referência histórico-estético, a coletânea não leva em conta o período colonial, e mesmo do romantismo pouco é considerado, estando presentes justificativas para a não inclusão de obras oitocentistas como Meditação, de Gonçalves Dias, e O livro de Fra Gondicário, de Álvares de Azevedo. A preferência por esses delineamentos repletos de marcos e cortes, periodizações que se valem de estilos de época — indica bastante sua visada teórica, como se observa quando Fernando Paixão afirma: “Ainda vivemos, afinal, sob o jugo da ‘tradição da ruptura’, apontada por Octavio Paz como sina da modernidade”.
Mapa reverso
Já no catálogo de autores, um traço significativo é a disposição cronológica decrescente dos poetas: começa pelos contemporâneos e recua até o final do século 19, relativizando parcialmente as quatro etapas propostas. Nesse sentido, vale destacar que, entre os escritores em atividade, muitos são valorizados por Fernando Paixão, a exemplo de Maria Esther Maciel, Nuno Ramos e Rodrigo Garcia Lopes. Retornando um pouco e chegando ao contexto dito marginal, são rememorados clássicos recentes como Ana Cristina Cesar e Paulo Leminski. Dos modernismos brasileiros, Ferreira Gullar, Mário Quintana e Murilo Mendes ganham destaque, ao passo que canônicos como Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade são reavaliados. No ambiente sintetizado como simbolista, principalmente Cruz e Sousa e Raul Pompeia obtêm os reconhecidos créditos. Outra contribuição da listagem é relembrar aqueles que merecem maior atenção do público e da crítica, a exemplo de Medeiros e Albuquerque, Nestor Vítor, Aníbal Machado, Lêdo Ivo, Xavier Placer, Eduardo Alves da Costa, Lindolf Bell e Waldo Motta.
Todavia, como disse o próprio Fernando Paixão, várias ausências são sentidas mesmo em uma lista com uma centena de nomes. As lacunas podem estar ligadas a demandas editoriais — custos de liberação de textos e dificuldades de contato com detentores de espólios. Ademais, algumas exclusões tanto decorrem de um ponto de vista que prioriza o critério estético (em detrimento de aspectos políticos e sociais) quanto exprimem discrepâncias nacionais (não raro difíceis de contornar em uma antologia). Tudo isso diz muito sobre a história social que atravessa os textos catalogados — podem ser discutidos, por vezes, contrastes regionais, questões raciais, de gênero e várias outras. Certas controvérsias dessa ordem até poderiam ser contabilizadas, sobretudo ao se verificar quais autores entraram e quais ficaram de fora, mas não é a proposta do antologista nessa obra.
Poética pessoal
Além disso, a Antologia do poema em prosa no Brasil encontra pontos de contato com a literatura de Fernando Paixão. Há, por exemplo, um gesto relativamente análogo ao de Fogo dos rios (1989), construído em intensos diálogos com os fragmentos de Heráclito de Éfeso. Apesar de não constarem ali poemas em prosa, o livro faz o eu poético fluir nas falas do antigo filósofo, numa harmonia de tensões entre rosto e máscara. Em 25 azulejos (1994), há retração do sujeito lírico, mas ele reaparece nos objetos precisamente alinhados. Já em Poeira (2001), há versos como “Tantos que fui” e “Perdi-me/ Diverso de mim”, em sintonia com Mário de Sá-Carneiro. Em A parte da tarde (2006), diz de si no dizer de um pássaro; em Porcelana invisível (2015), o poema de abertura afirma: “Sem autoria e sem versos/ a poesia seria encontrada na pedra/ no rosto e na copa das árvores ensimesmadas”.
Se O farejador, presente em Palavra e rosto (2010), mostra outro Fernando Paixão imaginando um convicto catador de poemas, a Antologia do poema em prosa no Brasil pode ser lida como uma realização crítica desse mesmo gesto de recolha. O arquivista, em seu discreto intermédio entre o eu e o outro, desenha uma tradição brasileira possível para a arte da pequena reflexão e estimula mais reflexões.