Terreno enevoado

Prosa da estreante Alcione Guimarães, autora de "Fuso de prata", ainda carece de lapidação
Alcione Guimarães, autora de “Fuso de prata”
01/07/2006

Um sonho dentro do sonho, indefinidamente. Fuso de prata, de Alcione Guimarães, volume de contos de estréia da autora na prosa, encerra-se com uma citação de Borges, algo que enfatiza essa jornada onírica, sem volta. Borges, por sua vez, parafraseia Edgard Allan Poe: “All that we see or seen, is just a dream within a dream”.

Nos 11 contos que compõem o livro — elegantemente tratado no projeto gráfico de capa e miolo, cuidado freqüente nos trabalhos da Nankin Editorial —, há algo desse terreno enevoado, de acontecimentos e paisagens que desembocam em outras de forma quase inexplicável. Porém, nem de longe há, nas tramas, complexidade que aproxime a autora de nomes como Borges, Bioy Casares, Ocampo ou Cortázar. Ou mesmo do mistério de Poe.

Os contos de Alcione Guimarães tangenciam a narrativa da crônica, mais que do conto, num panorama de relatos sem a construção sisuda e esférica dos personagens que caracterizam o romance ou mesmo o conto. São pinceladas. Benvinda, no conto homônimo, e Benta, em Para nunca mais voltar, são esboçadas de forma a fornecer ao leitor indícios de figuras de uma riqueza a ser explorada, de uma estrutura que, caso aprofundada, renderia histórias extraordinárias.

Outro aspecto que aparece nos textos é o abismo existente entre as almas, abismo que confunde sentimentos e inviabiliza as relações. A autora cita Fernando Pessoa, como epígrafe: “Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos — um poço fitando o céu”. O poeta português, curiosamente, em seu livro de estréia, escrito em inglês, 35 sonnets, já explorava o tema: “The abyss from soul to soul cannot be bridged by any skill of thought or trick of seeming, unto our very selves we are abridged”. Os versos indicam a grandiosidade poética que seria confirmada ao longo da vida de Pessoa.

As pontes explodidas sobre abismos intransponíveis surgem em Amavios, que abre o livro, Ninguém soube e O Deus imaginado. Em alguns momentos há a singeleza das descrições: “Em época de seca, quando a estiagem era muito prolongada, mulheres e crianças costumavam jogar água aos pés de uma cruz de madeira que fora fincada em frente a uma igreja centenária. Superstição, herdada de antepassados, para o retorno das chuvas”. Mas não se trata de um achado freqüente ao largo do volume.

A autora, também artista plástica, demonstra em muitos momentos do livro a intenção de trazer a experiência pictórica, a paleta de matizes dos quadros para o universo da palavra, sem muito sucesso. A impressão é que, como a complexidade na arquitetura do narrar fenece, deixando o texto desnudo, descoberto, pela pouca elaboração da adjetivação, a força das imagens se perde em meio a parcos recursos vernaculares. Falta instrumental: como pintar com apenas uma bisnaga de tinta?

De qualquer maneira, o texto monocromático, enriquecido com misturas mais engenhosas pode apresentar, em futuros trabalhos da autora, painéis mais complexos. Sente-se que o enredo dos textos, mais finamente tratados, trariam ao leitor, como em Os duendes, peças delicadas e preciosas. Questão de lapidação, paciência, insistência, afinco. Sonhos que mesmo dentro de sonhos, edifiquem caminhos a vencer desfiladeiros, a suprimir abismos.

Fuso de prata
Alcione Guimarães
Nankin Editorial
120 págs.
Alcione Guimarães
Nasceu e vive em Goiânia (GO). É artista plástica. Em 2000, estreou na literatura com Zuarte, livro de poemas e pinturas. Recebeu menção especial no Prêmio de Poesia Centenário de Henriqueta Lisboa, pela Academia Mineira de Letras.
Moacyr Godoy Moreira
Rascunho