“A adolescência é realmente uma merda.” Assim sentencia Rafael, narrador de Memórias do chão, romance mais recente de Marcelo Labes. A afirmação soa como verdade absoluta para quem encara pelo retrovisor uma fase raramente elogiada da vida. Contudo, desprezar a adolescência não impossibilita certa nostalgia pela juventude entre adultos. Sentimento esse com potencial de se tornar apego excessivo ao passado, como é o caso do narrador de Labes.
Declaradamente autoficcional, Memórias do chão trata da experiência do autor em um colégio interno no Rio Grande do Sul. A narrativa expande os três anos do magistério feitos pelo protagonista, Rafael, na Evangélica. Durante esse tempo, o narrador aprende sobre afeto, poder, sexo e tantas outras lições típicas da formação do sujeito. Em meio a isso, surge também um Rafael já adulto, solitário e ainda apegado aos corredores de sua velha escola. No entanto, apesar da universalidade da matéria, a narrativa irregular nunca encontra seu eixo central e o elo entre passado e presente anunciado pelo título não atinge a pretendida carga emocional.
Em busca do chão perdido
Dividido em três partes, Memórias do chão dedica cada uma de suas partes a um ano distinto do tempo de Rafael na Evangélica. Como se espera de um romance sobre a adolescência, o espaço da sala de aula é raro na narrativa. Predomina na obra aquilo ocorrido longe dos olhos dos adultos: as fugas dos meninos ao dormitório feminino, as bebedeiras mal disfarçadas, as descobertas sexuais escondidas entre as árvores. É aquilo que acontece nas sombras que interessa a Labes.
Cada parte assume tom distinto, representando talvez as oscilações da adolescência e a radicalidade das mudanças em jovens de um ano para o outro. Na primeira, acompanhamos os laços feitos aos poucos pelo narrador. Do deslocamento inicial à formação do grupo de amigos, Rafael encontra seu lugar na Evangélica, apesar de todo o abuso sofrido pelos veteranos.
É aqui que também se inicia um dos fios narrativos do romance: o afeto entre homens. Se de partida os meninos se envergonham de compartilhar suas emoções, com o passar do tempo eles se expressam em brigas ironicamente amorosas e, enfim, verbalizam o sentimento. Assim, são recorrentes observações do narrador sobre como os homens se amam.
Já a segunda parte é a melhor do livro. Se no ano inicial Rafael estava na base da hierarquia escolar como novato, o seguinte apresenta-lhe a oportunidade de vingança. Num contexto literário contemporâneo com personagens planos, autores cegos às contradições inerentes ao ser humano, Labes não hesita em demonstrar como a crueldade pode ser sedutora. Exercendo certo poder dentro da organização social da escola, Rafael acha na brutalidade contra os calouros o escape para suas frustrações:
Goldameir mira em nós seus olhos de raio laser para nos foder, certamente. Aos gritos, como é comum, ou com a voz calma dos que ameaçam e não querem ser notados ameaçando, como as mães fazem com as crianças quando dizem Em casa tu vai ver uma coisa, sua peste. Isso nos é combustível, claro. Se não podemos gritar de volta e engolimos cada uma das gotas de raiva que o diretor destila e faz pingar diretamente em nossas goelas, bocarras abertas obedientemente, temos as nossas próprias maneiras de responder. Por óbvio, poderíamos simplesmente achincalhar novatos, lhes dar uns golpes e exigir deles silêncio, mas isso é comum na Escola, e nós podemos mais.
Do abuso sofrido nas mãos dos veteranos ao furor da revolta contra as figuras de autoridade, tudo alimenta a vontade de agredir quem está ainda mais vulnerável. Porém isso não é o suficiente. Torna-se também necessário desafiar os adultos e encontrar pequenas vitórias no subversivo. Assim, os laços com os seus se fortalecem. É importante se opor não só à autoridade, mas também traçar diferenças entre si e aqueles jovens que cedem às pressões dos velhos.
Incertezas
A terceira parte, por sua vez, aborda o último ano, marcado pelo medo surgido ao se encarar o fim de uma fase da vida e a incerteza do futuro. É aqui que o romance expõe suas falhas. A narrativa é estruturada por meio do olhar de Rafael já adulto para seu tempo na Evangélica. No presente, o personagem ainda está apegado àqueles três anos e decide escrever sobre sua experiência em busca de um chão que não existe em sua atual vida. Desse modo, cria-se a expectativa de que os motivos de Rafael estar preso ao antigo colégio e sua falta de perspectiva no presente serão explorados. Entretanto, isso não ocorre de maneira satisfatória.
Por mais que Labes insista, o romance não convence de que a Evangélica seja um lugar excepcional. Rafael é um adolescente comum. Não há nada particularmente notável em sua juventude. Então por que o apego ao passado? É devido aos vícios na vida adulta iniciados nas bebedeiras na escola? Ou talvez a ligação entre a depressão evidente na narrativa do Rafael adulto e as vivências do Rafael jovem? E o que ocorreu de tão trágico em sua vida adulta? Compreende-se que o retorno ao passado é a busca pelo chão inexistente no presente, mas a relação entre os dois tempos é pouco desenvolvida para ser o centro da obra.
Nesse sentido, os capítulos finais sobre a saída de Rafael da Evangélica não têm a carga emocional pretendida. Sem o devido preparo, falta impacto à cena dos formandos cantando versos de Renato Russo ou do protagonista olhando para os amigos enquanto se afasta no carro da família pela última vez. Não se entendem os motivos de o narrador continuar preso àquelas memórias décadas depois. O que fica é o eco da fala de uma das personagens dirigida ao protagonista já adulto:
A Escola terminou, Rafa. Ter-mi-nou. Tu vai passar quantos anos ainda pensando o contrário?
Com isso, Memórias do Chão ganharia força se a fase adulta ocupasse maior espaço e conhecêssemos melhor esse narrador, ou, indo em direção oposta, se o tempo presente da narrativa fosse excluído. A versão adolescente de Rafael é interessante o suficiente para sustentar a obra. Sem o eixo central que estabelece o elo entre passado e presente, as experiências do personagem não teriam de oferecer explicações à falta de perspectiva vivida pela versão adulta. Ou seja, uma narrativa sobre as experiências do jovem Rafael superaria outra sobre o apego de um adulto à sua adolescência. Entretanto, talvez o preconceito com narradores adolescentes impedisse tal escolha.
Memória do chão tem trilha sonora específica: Legião Urbana. Há algumas referências à banda no romance e compreende-se rapidamente que ela marca a adolescência do narrador. Com isso, cabe lembrar a Rafael que um adulto ainda pode cantar Tempo perdido. Afinal, não temos mais o tempo que passou, mas ainda assim temos muito tempo.