A senhora passa bem

Num prédio à beira do colapso civilizatório, vizinhos insólitos e pequenos desastres fazem da portaria um palco cotidiano
Ilustração: Marcelo Frazão
13/08/2026

O pacto civilizatório no meu prédio sobrevive com ajuda de aparelhos.

Ano passado, um vizinho aleatório tomou todas e, se julgando em casa, deitou completamente nu, às 19h de um dia útil, na grama da entrada do prédio. Me contaram. Estava no trabalho e infelizmente perdi a cena.

Soube também de um outro que, sofrendo uma dor de corno terrível depois de ser expulso de casa e a ex trocar a fechadura da porta, acionou o alarme de incêndio como revolta. O prédio todo desceu pra rua apavorado. Eu, inclusive, levando Nina Simone, o meu RG e meus óculos. Isso foi antes de Frederico e Verônica. Esqueci o celular em casa, então nem conseguiria avisar ninguém se fosse um incêndio de verdade.

Uma criança entrou na portaria sozinha, chorando, pedindo ajuda para encontrar a mãe. Os porteiros, solidários e gentis, interfonaram para todos os apartamentos para localizar responsáveis pelo filhote humano remelento. A criança entrou no prédio errado.

Um vizinho tem um porco de estimação. Passeia de coleira. Não sei o nome. Dos bichos alheios, só falo com cachorros.

Voltando do trabalho, de noite, me deparo com uma senhora de roupão, cabelo enrolado em uma toalha, irritada no último. Entrega um pote para o porteiro e pede “abre pra mim?”. O porteiro abre vergonhosamente sem qualquer esforço, devolve o pote, a senhora volta em direção ao elevador. Dava para perceber o cabelo secando só com a força da fumaça do ódio que saía da cabeça dela.

Tem uma família de chineses muito simpática, mas que não fala uma palavra de português. Por algum motivo, eles acham razoável conversar comigo. Em chinês. Eu sempre sorrio e concordo com tudo. Talvez eu já tenha assinado algum tipo de contrato e nem estou sabendo.

No Carnaval, um folião um pouco mais entusiasmado achou que gostaríamos de ouvir a sua versão em ópera de Baby one more time, da Britney Spears. Era uma boa versão. Pena que eram três da manhã.

Uma pessoa que não sabemos quem foi, mas que é a responsável diretamente pela instalação das câmeras de segurança, plantou maconha no canteiro da portaria.

Um casal exibicionista achou que o zelador e os seguranças gostariam de assistir a uma live do Xvideos.

Um senhor claustrofóbico subiu três andares gritando dentro do elevador. Fico com pena, mas três andares dá pra ir de escada, né?

E é nessas pessoas que eu penso ao entrar, morrendo de vergonha, depois de tropeçar e cair de maneira magnífica e circense, de quatro, na portaria, com direito a joelhos sangrando, livro voando longe e porteiro perguntando se a senhora — eu, no caso — estava bem. Estou. Fiquei só com o ego ferido, uma distensão muscular, joelhos e mãos doloridos e um rasgo na calça jeans.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho