Romance amargo

Entre excessos verbais e uma estrutura pouco aproveitada, "Vida doçura", de Natércia Pontes, revela falhas, mas também sinais de amadurecimento literário
Natércia Pontes, autora de “Vida doçura” Foto: Renato Parada
01/09/2026

Toda obra artística, independentemente do campo em que tenha sido gerada (literatura, música, artes plásticas, arquitetura…), contém uma dualidade visceral e inconciliável, que a condiciona e, como consequência, possibilita os diversos graus de sua fruição. Trata-se da oposição entre a ideia e a sua realização. Mesmo os mais talentosos criadores, por maior que seja a sua entrega à elaboração de quadros, poemas, sinfonias, esculturas ou instalações, experimentam em alguma medida a frustração inevitável de ver o quanto o resultado final difere da ideia que conceberam e cultivaram em suas mentes antes de pôr mãos à obra. “Ossos do ofício”, dirão alguns de forma reticente; já outros tentarão incorporar esse distanciamento ao produto final, como se se tratasse de sopro vital, ainda que de mau hálito. Mas não importa qual seja a estratégia do artista. Essa é uma questão pessoal. O que realmente conta é a sua capacidade (ou não) de traduzir a ideia abstrata numa determinada forma artística, mesmo sabendo que tal tradução conterá necessariamente uma traição. O romance mais recente de Natércia Pontes, Vida doçura, oferece amplo material para o exame e a exemplificação dessa questão.

A ideia básica da obra, a sua estrutura essencial, apresenta o seguinte esquema: dois polos opostos possuem um elemento mediador de contato; em algumas situações o contato se fará de forma direta, sem mediação; um terceiro elemento (ou uma terceira dimensão) fornecerá, como um coro, comentários e impressões sobre a situação de base ou sobre um dos polos. Descrita a ideia em sua forma mais basilar (ainda que a obra possa ter sido concebida a partir de um passo ulterior, ou seja, a partir de personagens concretos), passemos à trama propriamente dita.

Polos opostos
A protagonista do romance, Jocasta (nome que deve ao trabalho da mãe com as tragédias gregas), acompanha quase com obsessão as postagens da youtuber Jovana sobre a rotina de sua casa e de sua família (marido e filha criança), na periferia de São Paulo. Os perfis das duas personagens são diametralmente opostos, quase um negativo uma da outra. Jocasta, mulher intelectualizada e dedicada à literatura, carrega o duplo trauma do abandono e do suicídio da mãe; vive sozinha, tendo por companhia apenas o gato Argos Panoptes (também devedor do mundo grego). Jovana, por seu lado, destila em vídeos caseiros uma série de valores banais sobre como cuidar da limpeza da casa, da educação da filha, do relacionamento com o marido e da vida em geral. Os capítulos do romance se dividem entre a descrição do conteúdo dos vídeos de Jovana e a realidade de Jocasta, transcorrida numa quitinete imunda e preenchida com as recordações de sua infância sofrida e com a redação de seus minicontos. Esses minicontos formam o terceiro elemento mencionado acima, que deveria funcionar como “terceira margem”, potenciando o efeito dos dois primeiros. A fixação de Jocasta na vida “plastificada” e cor-de-rosa de Jovana a levará a procurar identificar a localização da youtuber, a partir de imagens e referências presentes nos vídeos, o que possibilitará a interação direta ou, se preferirmos, a passagem através do espelho/tela/lente, em direção ao país das maravilhas cor-de-rosa.

Como se vê, tanto a ideia geral como a sua primeira camada de trama oferecem sólida estrutura sobre a qual edificar uma obra potente, com diversos níveis de leitura, metaliteratura, referências literárias e riqueza de personagens. Mas é justamente no processo de traduzir a ideia em texto que se apresentam os problemas do romance. Abordaremos aqui dois deles: um de caráter pontual, ligado ao conteúdo de certas frases e capítulos; e outro de cunho estrutural, mais amplo.

Dor declarada
A primeira questão está relacionada à descrição da dor, à apresentação do trauma da protagonista pelos já mencionados abandono e suicídio da mãe. Ao longo do texto, a dor é adjetivada como “devastadora”, “descomunal”, “tão grande”; fala-se em “anos dilacerantes”, em “poder sangrar essa dor” e por aí afora. Há uma explicitação verborrágica da dor que, na dimensão literária, ou seja, no corpo do texto, acaba paradoxalmente por esvaziá-la, por retirar-lhe força, como costuma ocorrer no overacting de atores canastrões. O corpo do texto não sente a dor da mesma forma que o corpo humano. De resto, sempre melhor deixar que seja a trama a evidenciar os fatos. Por vezes, como ensina Tolstói, para sugerir a dor, é suficiente dizer que “cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Também o filme Persona, citado no livro, aponta na direção da economia de palavras, quando se trata de dor. A opção da autora por enfatizar repetida e explicitamente a dor da protagonista compromete em grande parte o seu romance.

Quanto ao ponto estrutural, trata-se, na verdade, de uma oportunidade perdida. A terceira dimensão que constitui o livro — os minicontos escritos por Jocasta — poderia (e deveria!) aportar bem mais às outras duas. Muitas vezes, porém, dá a impressão de caminhar por conta própria, solta ou perdida numa atmosfera onírica já presente, e tampouco com êxito, no romance anterior de Natércia Pontes — Os tais caquinhos (Companhia das Letras, 2021). Mais parece a sobra de outras obras (ou as obras de outra sobra), retalhos não aproveitados, adaptados e encaixados num novo contexto. É certo que alguns dos minicontos giram em torno das questões de mãe e filha, de recordações de infância de Jocasta, de abandono e morte; mas, ainda assim, a sensação é a de um livro que caiu dentro de outro livro, como indica a autora, mas caiu de mau jeito.

Caos enumerado
Importante mencionar, ainda, um elemento recorrente na prosa de Natércia Pontes: a figura retórica da enumeração, mais precisamente a “enumeração caótica”, na forma definida por Leo Spitzer em 1955, no seu História e linguística literária. Listas, catálogos de coisas, elementos díspares reunidos numa mesma frase… Pontes usa e abusa desse recurso. Mas vale lembrar que o instrumento da enumeração em literatura visa sobretudo a amplificar a dimensão do que se narra e dos temas tratados. Não serve para dar ordem à desordem do caos. Se utilizado com esse objetivo, pode voltar-se contra o texto como um bumerangue.

De qualquer forma, é importante dizer que nem tudo são equívocos em Vida doçura. Antes de mais nada, registra-se um salto notável de qualidade literária em relação a Os tais caquinhos. Vida doçura contém algumas imagens belíssimas, dentre as quais a melhor é a que fecha o romance; imagens que falam por si sós, capazes de transmitir muito mais do que os jorros de palavras de certos trechos do livro. Além disso, como um corpo que possui o antídoto para os seus próprios males, a obra abriga, quase escondido, na exata metade de suas páginas e logo após um capítulo recheado de verborragia, um miniconto perfeito (Muro). Ironias internas de um romance… Esse breve conto é o exato negativo do texto maior em que está inserido: não possui excesso algum de palavras; mantém tom destacado, apesar da forte relação de que trata; reserva sua revelação para o final, surpreendendo o leitor; não afirma, mas indaga! De fato, está quase inteiramente constituído por frases interrogativas. Cabe a pergunta: será que, num breve futuro, Natércia Pontes terá o coração generoso e os olhos bondosos para compreender que, para fazer valer todo o seu potencial literário, deve partir com os pés bem apoiados no Muro?

Vida doçura
Natércia Pontes
Companhia das Letras
176 págs.
Natércia Pontes
Nasceu em Fortaleza (CE), em 1980, e vive em São Paulo (SP). É autora do livro de contos Copacabana Dreams (2012), finalista do Prêmio Jabuti e reeditado pela Companhia das Letras em 2024, e dos romances Os tais caquinhos (2021) e Vida doçura (2026), ambos publicados pela Companhia das Letras.
Milton Coutinho

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1966. É escritor e diplomata. Mestre em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela Universidade de Barcelona. Autor de volumes de contos e romances, dos quais o mais recente é Autobiografia Póstuma de Machado de Assis (2024, 7Letras).

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