Quando voltar já não é possível

María Elena Morán transforma a crise venezuelana em narrativa para investigar os efeitos íntimos de uma promessa política
María Elena Morán, autora de “Voltar a quando”
01/09/2026

Em Voltar a quando, de María Elena Morán, romance vencedor do Prêmio Café Gijón de 2022, acompanhamos Nina, Camilo, Elisa e Graciela, uma família separada pelos desdobramentos da crise política da Venezuela a partir dos anos 2000.

Nina deixa Maracaibo e parte para o Brasil em busca de trabalho. Elisa, sua filha, fica para trás, aos cuidados da mãe, Graciela. A distância, inicialmente provisória, torna-se parte da estrutura familiar. Camilo, pai de Elisa, reaparece na ausência da mãe, produzindo efeitos sobre a menina. A partir daí, começam os deslocamentos: Venezuela, Brasil, Colômbia, EUA.

Ao lado do tema da migração, Morán chama a atenção para a dificuldade de permanecer. O deslocamento dos personagens não advém da busca por uma vida melhor — embora isso seja muito importante. A ele se associam a crise econômica, deterioração institucional, conflitos familiares, violência e expectativas frustradas. Trata-se, portanto, de uma decisão individual frente a uma realidade que já não oferece muitas possibilidades.

Esse ponto é interessante, pois permite que seja evitada uma leitura puramente sentimental de Voltar a quando. Nina não é apenas uma mãe sacrificada que abandona temporariamente a filha em busca de uma vida melhor. Camilo tampouco é um pai tentando recuperar o tempo perdido. Elisa não é apenas vítima das escolhas dos adultos e Graciela não ocupa apenas o lugar da avó que preserva a família enquanto os outros se dispersam.

A Venezuela
Nina e Camilo vivem um momento em que a revolução bolivariana representava, para grande parte da Venezuela, possibilidades reais de transformação de uma estrutura profundamente desigual. A mudança vinha como necessidade, a ponto de imprimir uma real esperança nos personagens de Morán.

Diante desse enquadramento, Camilo torna-se um personagem especialmente interessante. Ele está longe do militante convertido em burocrata, ou mesmo do homem de esquerda que, ao ingressar nos quadros do governo revolucionário, passa a reproduzir comportamentos autoritários; ou, ainda, do pai tentando recuperar a família por meios que não respeitam a autonomia da filha e da ex-companheira. A sua complexidade fica evidente no momento em que se apresenta diante de seus pais, demonstrando como o indivíduo comum está sujeito a adotar iniciativas como as que nos são descritas e a tomar o chavismo como possibilidade de acolhimento.

Por meio de uma escrita muito sutil, notamos como a contradição de Camilo não está entre o bem e o mal. Devemos levar em conta a sua crença na reparação de alguma coisa. Ele acredita no potencial de reorganização de sua família. Acredita, em grande medida, que sabe o que é melhor para Elisa — e para Nina também. Involuntariamente, tais certezas conformam o seu autoritarismo, alimentando-o progressivamente, a ponto de encobrir a linguagem política que o sustentava.

Ele a estava punindo por renunciar, por não se conformar com o estoicismo que era aquilo de morrer lutando uma luta que não era mais sua, ao mesmo tempo em que ele renunciava sem ter ao menos a coragem de dizer para o mundo o que ele estava fazendo, depois de tanto encher a boca com A Luta, A Luta, A Luta, e é o que aconteceu A Luta não havia espaço para novas lutas […]

Morán demonstra como isso incide no projeto de sociedade, na forma de controle sobre a família. Da proteção à tutela. A ideia de saber o que é melhor para o coletivo pode se transformar na convicção de saber o que é melhor para uma filha. O autoritarismo é deslocado do Estado.

Tradição literária
São muitos os livros latino-americanos a nos permitirem aferir o grande risco de se transformar a política em alegoria fácil. Ditadores, guerrilheiros, exilados, entre outros, chegam à ficção repletos de função simbólica. Logo, o personagem deixa de ser uma pessoa para se tornar uma posição diante da História.

Os personagens de Voltar a quando não estão reconciliados com suas próprias posições. Todos carregam um grau de culpa, ressentimento ou incompreensão. Até mesmo Nina, que inicialmente soa como uma heroína por sua aparente capacidade de ruptura com o passado chavista, não é apresentada como alguém que encontrou uma saída.

Quando ela parte para o Brasil, opta por sobreviver. Não se trata de libertação. O deslocamento tende a produzir novas dependências. Emergem o trabalho precário, a insegurança, a distância da filha, o preconceito e a dificuldade de reconstruir sua existência em outro país. O Brasil não surge como uma democracia funcional, pronta para receber imigrantes de um desastre, mas, sim, como um país que reproduz os seus mecanismos de exclusão social.

A referência ao ataque em Pacaraima é um exemplo disso. Em 2018, o município de Roraima foi palco de ataques xenófobos contra imigrantes venezuelanos que acampavam nas ruas da cidade. Morán demonstra como a própria sociedade brasileira também reage às crises a partir do medo, da precariedade e da disputa por recursos, esboçando uma complexidade ainda maior da realidade vivenciada.

Isso porque uma parte considerável do debate sobre a imigração venezuelana se sustentou em uma falsa narrativa. Havia, de um lado, a solidariedade humanitária, fundamental para a situação. De outro, a reação nacionalista projetando no imigrante uma ameaça. Interessante como, através da literatura, conseguimos suspender essa oposição ao nos permitir acompanhar uma pessoa.

Ponto em comum
Brasil, Venezuela, enfim, os países latino-americanos de maneira geral, compartilham uma condição na qual a política frequentemente deposita sobre si mesma expectativas que ultrapassam sua capacidade de realização. As sociedades, profundamente desiguais, esperam que a política resolva os problemas produzidos por estruturas econômicas e sociais mais antigas. Diante do não cumprimento de tais promessas, é comum voltar-se não apenas contra um governo, mas, sobretudo, contra a própria ideia de transformação a ponto de inviabilizar quase todas as alternativas.

Diante desse enquadramento, Voltar a quando abre uma nova perspectiva de olhar: o que acontece com as pessoas após o fracasso de uma promessa coletiva?

Esse ponto é interessante por ser algo que também atravessa o Brasil — embora em circunstâncias distintas. Conhecemos o entusiasmo político, depositamos esperança em projetos de mudança, projetamos a transformação de adversários em inimigos e, por último, vivenciamos o desencanto. Também conhecemos a tentativa de explicar a história por meio de personagens individuais, vide os presidentes convertidos em responsáveis pelo sucesso de tudo, bem como os adversários em responsáveis pelo que deu errado. Isto é, vemos a política narrada como uma disputa entre heróis e vilões.

Morán transcende essa dicotomia justamente ao entregar uma história desprovida de maniqueísmos. Ela leva às últimas consequências a contradição e as complexidades de seus personagens, chegando a ponto de transformar o seu livro em algo mais real do que a própria História, tal como ela muitas vezes nos chega pelos meios institucionais.

Talvez por isso a alternância de vozes no romance. Nina, Elisa, Graciela e Camilo ocupam diferentes posições na narrativa. A presença de Raúl, o pai morto, introduz uma dimensão que não é propriamente realista em seu sentido mais convencional. A presença dos mortos, neste caso, remete à ideia de memória.

Raúl continua participando da vida de Graciela. A morte não encerra uma relação. De fato, ela modifica sua forma. Em paralelo, a Venezuela abandonada por Nina não desaparece quando ela atravessa a fronteira. O país prossegue nos telefonemas, nas preocupações com a filha, na expectativa da reaproximação, nas lembranças, na culpa, no modo como interpreta o presente.

Todavia, notamos uma significativa mudança em alguns momentos, especialmente nos capítulos finais, quando o romance se aproxima da engrenagem dramática construída por sua autora. Os acontecimentos se multiplicam, sublinhando um ritmo narrativo próximo ao suspense. O deslocamento internacional, a busca pela filha, a fronteira, os perigos da travessia, enfim, uma infinidade de ações que produzem uma aceleração na história.

A escolha de Morán é compreensível, sobretudo se tomarmos por referência o fato de ela ter uma formação ligada ao roteiro, demonstrando um hábil domínio de construção dramática. A ação avança com bastante clareza, bem como o agravamento dos conflitos e a distribuição de informações a sustentar o interesse do leitor. A sua aproximação da dramaturgia confere uma experiência psicológica ao leitor não vivenciada anteriormente, pelo menos não na primeira metade do livro.

Não há qualquer prejuízo no romance. Pelo contrário, o que vemos é a destreza de Morán em caminhar por diferentes linguagens como recurso para nos conduzir de uma situação a outra. Neste caso, quando a dramaturgia prevalece, alguns de seus personagens ficam ligeiramente subordinados ao movimento da trama. O próprio Camilo caminha da ambiguidade à confirmação como agente de conflito. Nina também, saindo da hesitação para o papel da mãe que tem urgência em recuperar a filha.

Enfim, Voltar a quando é um romance que deve ser lido, seja pela capacidade de sua autora de desnudar as complexidades da realidade do país vizinho, seja por sua grande qualidade literária e por sua capacidade de transitar entre diferentes linguagens.

Voltar a quando
María Elena Morán
Biblioteca Azul
232 págs.
María Elena Morán
Natural de Maracaibo (Venezuela), atua como escritora e roteirista, após estudar Comunicação Social na Universidad del Zulia e Roteiro Cinematográfico na EICTV (Cuba). Doutora em escrita criativa pela PUC-RS, vive atualmente em São Paulo (SP). Publicou também o romance Os continentes de dentro (Zouk).
Faustino Rodrigues

É psicanalista e professor de sociologia.

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