Uma pergunta frequente na vida da crítica literária: quando um tema, um estilo de escrita ou um gênero é frequente a ponto de virar tendência? Quando isso deixa de ser uma coincidência e coloca uma pulga atrás da orelha, fazendo-nos perguntar se é um padrão da literatura contemporânea?
Talvez esteja exagerando um pouco aqui, mas li nos últimos tempos três livros que trazem narradores inesperados. Dois deles com narradores que variam ao longo do livro. Um deles é a nossa pauta de hoje: Indócil, de Laura Ortiz Gómez, que integra a primeira leva de romances publicados pela Arquipélago, casa com um grande catálogo de não ficção. Também é o romance de estreia da autora colombiana.
Indócil narra a vinda de imigrantes, principalmente do Leste Europeu, para a Argentina, em um momento em que a elite do país era formada por hablantes de castelhano e outros imigrantes eram mão de obra barata. O livro é centrado em uma casa, começando pelos conflitos entre os patrões e as empregadas ucranianas Olena e Vira. Mas quem começa contando a história é a própria casa.
Verdade que essa casa era, desde o começo, mais afeita às empregadas, que considerava rainhas por cuidarem tão bem do espaço e das pessoas, do que aos patrões. As casas da redondeza lhe avisavam: seus donos são os patrões, eles são os reis, é deles que você deve gostar. Mas os afetos são mais espontâneos e não seguem as hierarquias sociais. E, como este primeiro capítulo inteiro é narrado a partir da perspectiva da casa, só sabemos o que ela sabe — o que acaba sendo uma experiência de leitura interessante.
Em um momento de desconforto de Vira, a casa sente uma conexão mais profunda com ela, e, a partir disso, as duas se tornam mais próximas. E, com isso, o contraste das vidas e a hipocrisia dos donos dentro do sistema capitalista — gastar cada vez menos com empregados, sentir-se constantemente ameaçados de roubo, apenas para comprar mais itens inúteis — começam a se tornar parte do discurso da casa, que acha que as vidas das empregadas precisam de mais cuidado. Um exemplo:
Pensávamos, com o estômago embrulhado, que o trabalho era isso: botar as próprias mãos nas calcinhas alheias, até que as mãos deixassem de ser nossas e as calcinhas continuassem sendo alheias.
Enquanto a casa começa a tomar cada vez mais partido, chega ao espaço o esqueleto de uma menina tehuelche. O dono da casa (e médico) pede que Vira limpe bem o esqueleto para exibi-lo em um gabinete de vidro. O desconforto é imenso, por parte de Vira e da própria casa, que chega ao ponto de manifestar suas preferências, protegendo as moças, assustando os patrões com mofos e pesadelos, escondendo pequenos objetos em suas entranhas. Isso coincide com a chegada de cada vez mais imigrantes à Argentina e com a cidade ficando mais violenta e gentrificada.
O capítulo seguinte vem na voz do esqueleto da menina tehuelche. Apesar de curto, é um ponto alto do livro. É, afinal, um corpo que clama por descanso, morte, justiça. Que, apesar de ter o ciclo natural interrompido pelo colonialismo, quer voltar para ele, ao menos na morte. Uma declamação da realidade colonial que continua abusando dos povos locais de várias formas.
Virada da narrativa
Não cabe aqui me deter em todos os narradores — que passam por algumas das personagens humanas enquanto o conflito se estende e chegam até em uma terceira pessoa um pouco mais distante. Nem em todas as personagens — ainda que gostaria de ressaltar Taras, o irmão anárquico e caricato de Vira, que chega à cidade incentivado pelas cartas da irmã e vive como uma espécie de fantasma na casa, e o menino Ulisses, que me pareceu muito com Gavroche, de Victor Hugo. Pequeno, mas gigante em sua jornada em busca de uma casa. Mas quero me deter um pouco em uma das viradas da narrativa.
Impulsionados pela “má vizinhança” que se forma ao redor da casa e pela casa em si, que decide alagar todo o andar onde os patrões ficam (sem que os encanadores consigam dizer como ou de onde sai tanta água), os donos a deixam nas mãos das empregadas para que fundem um cortiço e lhes paguem um aluguel mensal. A mansão vira um predinho que aceita qualquer um, mas precisa se organizar para realizar os pagamentos. Enquanto os homens, encabeçados por Taras, se perdem em grandes discussões políticas e filosóficas sobre modelos de organização social, as mulheres arregaçam as mangas e criam uma lavanderia.
Com a lavanderia em vento e popa e sensação de futuro garantido, chega a notícia: os impostos sobre o aluguel terão um aumento de 40%. É aqui que essa ficção (com toque de ficção especulativa) se encontra com um acontecimento histórico: a Greve das Vassouras, de 1907, quando várias mulheres lideraram a greve contra o aumento dos aluguéis.
Esse é justamente um dos pontos do livro — a voz da resistência com ação é com frequência atrelada à voz das mulheres. São as mulheres que vivem o dia a dia do abuso — elas que fazem a gestão da miséria quando o dinheiro é tão pouco que não sobra para comida. Elas que se preocupam em dar abrigo, em melhorar a vida dos outros. Em criar trabalho possível para ontem. Mesmo quando a violência ao redor delas, criada pelos homens, continua escalando.
Narradores
Mas vamos voltar para os narradores — e não esqueci que lá em cima falei de outros dois livros com narradores inesperados, não se preocupe. Um dos grandes charmes da estreia de Ortiz Gómez é justamente a maneira como entrelaça seus narradores, incluindo a charmosa casa e o potente esqueleto da menina tehuelche. Cada um vem com sua perspectiva e suas preocupações. A casa se aflige com as pessoas que cuidam dela; o esqueleto quer seguir sua decomposição na terra. Quando finalmente ouvimos a voz de Vira, já a conhecemos por outras personagens — mas finalmente entendemos a fundo seus quereres e suas angústias. A autora controla, assim, quando vamos saber mais de uma determinada pessoa e quando nunca vamos ouvir sua voz, apenas o que os outros acham dela. Essa variação cria um ritmo na narrativa e uma expectativa sobre quem será o próximo narrador.
Enquanto lia Indócil, lembrei de outros dois livros que também trazem esses narradores inesperados. O primeiro deles, também com essa variação entre capítulos: A árvore mais sozinha do mundo, de Mariana Salomão Carrara, que narra, a partir da perspectiva de vários itens de uma fazenda — como um espelho, uma árvore, uma caminhonete —, a vida de uma família e uma plantação de tabaco. E o outro, que não tem a variação entre os narradores, encontra sua voz em um mosquito, responsável por transmitir malária a uma turista alemã no Brasil. O livro é Malária, de Carmen Stephan.
Não, não acho que esses três livros constituam uma tendência da literatura contemporânea. Mas ainda assim, vale perceber como essas escolhas trazem uma chance de explorar a humanidade com outros olhos: olhos que estranham o nosso comportamento, que não entendem por que fazemos o que fazemos, que também desenvolvem afetos por esse jeito estranho de viver. E, durante a leitura, nos convidam a ver a nós mesmos com outros olhares: algo que, na minha opinião, sempre vale a pena.