Há algumas possibilidades de entrada em Ressalga, estreia no romance de Bethânia Pires Amaro. Através de uma estrutura sem fechos, marcada por transições temporais e uma voz narrativa sempre em curso, no rasto de uma busca, o acesso à trama pode ser pela revisão do passado, pelo viés investigativo, pela semiose regionalista ou pelo espaço impreciso da fabulação. Depois de ganhar os prêmios Sesc, Jabuti e APCA com o volume de contos O ninho, a autora dá forma a uma saga que atravessa três gerações de mulheres de uma mesma linhagem, em períodos e territórios distintos da Bahia, estabelecendo um jogo no qual quem conta também é capaz de recriar os rumos da história. Assim, num ciclo descontínuo por figuras humanas, paisagens, costumes e mitologias, o relato se estabelece na associação permanente entre pessoal e histórico, corpo e território, verdade e imaginação, fazendo do olhar o instrumento que abastece a composição literária, de modo a inserir o leitor no contexto que ordena o mistério que mobiliza a trama. A depender de por onde se inicia, a distância da memória coletiva à esfera íntima determina a aproximação da resposta central.
No caso desta resenha, a opção foi respeitar o andamento proposto pelo enredo, evitando os desdobramentos reveladores. No sertão baiano, nos anos 1930, Janaína é dada a uma tia de consideração, que trata de incorporar aos seus estudos os dogmas da Igreja Católica, com medo de a criança herdar o condão da mãe de fazer feitiços e conversar com fantasmas. Das idas constantes à missa, a menina se encanta pela imagem de Nossa Senhora e, então na pré-adolescência, passa a auxiliar o padre local em suas tarefas religiosas. O convívio, no entanto, desperta desejos proibidos no clérigo, desencadeando um escândalo na cidade e acusações falsas, que a obrigam a fugir, seguindo o curso das águas até o Recôncavo, onde se instala às margens do rio Paraguaçu. Numa casa precária, sempre a um passo de inundar, assume a faina de lavadeira e se encanta pelo garboso Raimundo, mas acaba nas garras de Januário, um homem irascível, artesão de carrancas, que a arrasta para o vício da bebida e prostitui seu corpo.
Uma busca
Durante essa primeira parte, em vários momentos, a narradora se coloca na condição de testemunha e, ao mesmo tempo, de agente dos fatos, integrando-se ao próprio relato de modo a preencher o que é impossível de resgatar no tempo com a invenção. Voltar ao passado é o único meio, ainda que falho, de avançar no presente, e o porquê dessa conduta se descortina logo no segmento seguinte, quando o argumento indica seu propósito. Pelas ruas de uma Salvador contemporânea, circula Flora, neta de Janaína, que faz entrevistas, colhe informações sobre o paradeiro da Mulher de Roxo, uma figura pitoresca da região, por andar toda coberta por um hábito da cor chamativa, uma espécie de traje de freira, e um destacado crucifixo na altura do peito. A personagem acredita que essa possa ser sua mãe, por conta de uma teoria de que, na era de ouro da boemia soteropolitana, a mulher era proprietária de um famoso bordel na Ladeira da Montanha. Por isso, ela vasculha essas lembranças inexatas à procura de qualquer indício que comprove sua suspeita, experimentando um vivido que talvez seja sua história, que talvez ilumine a versão correta em que esse enlace maternal se desatou.
A narrativa, desse modo, retorna para as margens do Paraguaçu, com Janaína “perdida nos sonhos líquidos da aguardente”, mãe agora de Graça, uma menina com a cabeça floreada por fabulações, mas que logo cedo se torna outra vítima da violência de Januário. Ainda menina-moça, o pai chega a leiloar sua virgindade, mas o arrematante, um secretário de governo, perde a primazia para Osmundo, vendedor de queijos, de quem ela engravida e se casa, tornando-se alvo dos mandos ferinos da sogra. Chega a ingressar nos negócios da família, até que um malogro e uma descoberta desconcertante guinam seu destino para a capital, onde, “viúva de um vivo”, passa a trabalhar de doméstica numa casa de família, assumindo o codinome de Gabriela. Lá, demonstra “a mesma tendência aos homens ruins” de suas antepassadas, caindo na lábia do malandro Juliano, que a ilude e caloteia, e no flerte sorrateiro com um dos filhos da patroa, motivo real de sua demissão.
Sem dinheiro para sobreviver e custear o quartinho alugado, abre as portas para rapazes “decididos a sacrificar o dinheiro do bonde para frequentar uma mulher”. Muda outra vez o nome para Gardênia, ganhando fama e uma fila de clientes, o que escandaliza e revolta a dona do apartamento. Seu próximo pouso é a Ladeira da Montanha, área conhecida pelas casas da luz vermelha, onde se refugia no cabaré de Maria Conchita, cafetina que trata suas meretrizes no peso do punho, em seguida migrando para o Oitenta e Sete, quando vira a Garça Preta, responsável pelo bordel, pelos direitos e pela saúde das colegas de trabalho, amante de cliente assíduo, a exemplo do deputado Coriolano Mesquita, e rompante de cliente circunstancial, Carlito, filho da patroa que lhe contratou como doméstica. Então, Graça-Gabriela-Gardênia-Garça Preta engravida. E a partir desse ponto, Flora armazena as próprias lembranças, embora em nenhuma delas esteja a imagem de seu verdadeiro pai.
Metaficção regionalista
À primeira vista (e possivelmente essa tenha sido uma estratégia editorial, vide a sinopse e a capa), o romance parece se filiar à tendência em voga dos enredos sobre gerações de mulheres que buscam na ancestralidade a força para enfrentar adversidades pessoais e/ou coletivas num Brasil profundo, vinculando a esse contexto uma parcela de comentário social. Há também o componente místico, pelo qual a autora chega a ficar tentada, com o dito sobre um fenômeno hereditário que faz com que, de uma hora para outra, suas personagens fiquem mancas, porém, felizmente, se resume a um detalhe escapável. O que Amaro faz muito bem é uma metaficção regionalista, fundindo pesquisa e matéria ficcional ao mesmo tempo que transgride, põe em xeque o escrito, transforma o próprio texto em espaço para a interação entre personagens inventados e reais (a Mulher de Roxo existiu), carrega o olhar do leitor consigo na odisseia de sua narradora pelas ladeiras que se bifurcam também dentro de si. Com uma contextura densa e cheia de revolvimentos internos, que cobra uma leitura atenta, a reconstrução do cenário sertanejo, a representação dos cabarés como microcosmo de tensões, valias e preconceitos de uma sociedade nordestina, torna-se reconhecível em paralelo a um fundo histórico que data da Era Vargas até o auge da ditadura militar dos anos 1970.
A dialética constante entre o eu-narrado e o eu-vivido, centrada em figuras femininas marginalizadas, pilares da memória e da resistência, naturalmente evoca mensagens para além dos limites paginados, contudo Amaro demonstra habilidade para fazer de tais registros críticos reverberações do enredo, e nunca seus motores. O compromisso da autora é com o texto, em desenvolver os feitos de suas personagens para que, desse conflito entre interioridade e mundo, utilize a função dramática para expor a corrupção da igreja católica, quando culpa e demoniza uma menina seduzida por um padre, denunciar o machismo estrutural que valida a violência, escancarar a reputação infame que a sociedade relega à prostituição. É nesse ponto, ao humanizar esse grupo de mulheres, que o romance estabelece seu diálogo com o Jorge Amado de Tieta do Agreste e Teresa Batista cansada de guerra, fazendo de sua procura por um nome uma cartografia sentimental pela Bahia, essa entidade com seus próprios mitos e mistérios.