Anne Carson afirma em um ensaio sobre Catulo que o poeta romano era ao mesmo tempo um erudito e um entediado com a poesia de seu tempo. Catulo teria aprendido os metros gregos e imitado poetas como Safo e Calímaco de maneira a destroçar a superfície calma do contemporâneo. É curioso pensar, então, que alusão ao passado e experimentação artística, isto é, a busca pelo novo, não são incompatíveis.
É nisso que fiquei pensando ao abrir o volume Incombinados: poemas escolhidos, antologia que celebra quatro décadas da trajetória poética de Luci Collin, iniciada com com Estarrecer (1984). É a segunda vez que a poeta tem a sua poesia reunida num espaço de dez anos. A primeira foi há oito anos, com a obra Antologia poética (1984-2018), publicada pela Kotter. O impulso experimental que se apresenta no primeiro livro de Collin persiste ao longo da obra e também nos poemas inéditos apresentados na última seção, Incombinados, como neste fragmento de Premissa:
é no deserto o oásis
é no sem rumo o norte
é no tão grande o inúmero
que a vastidão comporte
Ou ainda no poema Poética:
poesia
é a sonora frase
que em si
o silêncio profundo
segundo em que
se percebe
que a ordem rasa
do mundo
não é sequer parecida
com a ordem maior
da vida
Negatividade poética
No primeiro fragmento, a negatividade se impõe não apenas como tema (o deserto, o sem rumo, o incomensurável) mas também como espaço vazio entre as palavras. É como se o poema Premissa apresentasse a poética de Collin: para buscar a poesia, dirige-se ao que não é poesia, assim como, para buscar a plenitude, o sentido, a orientação, dirige-se ao vazio, ao sem-sentido, ao perdido. Em busca da palavra, dirige-se ao silêncio. Ora, é justamente isso que se anuncia no poema Poética, que funciona também como premissa de sua poesia.
Existem poetas do sentido e existem poetas que procuram, nas palavras, uma forma de lidar com aquilo que não pode ser sentido nem pode ter sentido. Agora, com parte da obra de Collin novamente reunida em livro, é fácil perceber que ela pertence ao segundo tipo (embora tenha poemas, especialmente nas primeiras obras, que se aproximem do primeiro tipo). No seu segundo livro de poemas, Espelhar (1991), encontramos uma espécie de justificativa:
As palavras são contornos velhos como
as armaduras são
de fato velhas
quase tudo
como nós.
Palavra desarmada
Como retirar essa armadura das palavras usando a própria palavra? Eu não sei. Mas Luci Collin apresenta uma hipótese em um poema chamado Todo implícito, de um livro do mesmo nome (1997). Esse poema é estranho, porque ele parece ser uma resposta para uma pergunta que não foi feita, que está implícita. Ele começa em meio a uma resposta, e nos sentimos um pouco perdidos com o primeiro verso: “não o sentido absoluto/ tampouco o tudo// só esta certa presença/ que não pretende/ que não pergunta/ nem responde”. Além disso, a ausência de pontuação nos desconcerta no sentido do primeiro verso: afinal, a poeta está negando o sentido absoluto, ou o “não” é o próprio sentido absoluto? “Tampouco” é o tudo? É o “não” que pretende e que pergunta e que responde? A poeta continua nos últimos versos: “livre da voz/ livre do tempo/ mais do que livre// o todo implícito// no fragmento”. Como estamos diante de um fragmento, não temos a totalidade do sentido e, portanto, não podemos nos orientar no poema, nem decidir se há uma negação do absoluto ou se estamos diante de uma ironia que transforma a própria negação em absoluto.
Esse poema retira a armadura da palavra “não”, e a sua nudez pode ser sentida na leitura. É assim que Collin se faz uma poeta da negatividade. Nesse sentido, basta olhar o título de alguns de seus livros de poesia: além dos já citados, Esvazio (1991), Trato de silêncios (2012), Querer falar (2014).
Creio que se deu mais atenção à sua atuação como prosadora do que como poeta. Em sua fortuna crítica, encontramos alusões à relação de sua escrita com a teoria musical (em especial o recurso à ressonância, à polifonia, à repetição e à cadência), bem como à fragmentação da voz narrativa e à autorreferencialidade formal. Mas é sobretudo em sua poesia que esses princípios composicionais se realizam com maior nitidez e com maior alcance.
Gesto antológico
A antologia Incombinados poderia ter contribuído para a elucidação dessa questão na obra de Luci Collin: tomando-a como um todo, poderíamos ver, de maneira implícita, certa força de sua prosa no silêncio de sua poesia. Não foi a opção do volume. O lado positivo dessa escolha é que ela possibilita que o leitor desavisado entre em contato com uma recolha do “mel do melhor”, como diria Waly Salomão, da autora. Perde-se a chance, no entanto, de fazer, com a reunião, um gesto crítico que poderia qualificar o leitor desavisado e também aquele que tem familiaridade com a obra.
Afinal, é preciso conceber as antologias menos como gestos celebratórios e mais como dispositivos de leitura. Reunir, colecionar, ordenar são operações que produzem leitura tanto quanto os poemas em si. E, especialmente no caso de poetas vivos, que sempre andam na corda bamba da possibilidade do esquecimento, muitas vezes esse gesto autoral e criativo por parte do antologista é o que consegue imprimir uma imagem mais duradoura no público. Ao mesmo tempo, lança uma moeda para a crítica, que poderá julgar o valor de face e, com isso, contribuir para a elucidação do valor de fato.
Ordem crítica
Com tal orientação em mente, um antologista poderia ter optado, por exemplo, por começar Incombinados com o poema Prazer em conhecê-lo, que está no último livro, Olho reavido (2022):
Como o vento nas copas e
estalando galhos e apressando cúmulos
e armando uma escuridão
o desejo
Como a vaga contra o penedo
atesta a imensidão tácita da massa de água
a insistir-se o que dobra e o que quebra
o desejo
Como a mosca minúscula
rompe a casca da fruta e ali salvaguarda
o ímpeto e o tento das metamorfoses
o desejo
E como aqui se faz o exercício de vencê-lo
no miolo do broto ao luto
na instrução do infinito desfrute
de incógnitas e caprichos:
nos consumirá num fogo oficioso
nos compensará pelo desfecho fosco
o desejo
Um antologista que de fato abrisse o volume com esse poema estaria fazendo um pequeno chiste com o leitor: prazer em conhecê-lo. Mas também aludiria, editorialmente, a questões importantes de Collin: o modo como a poeta brinca com o “eu” em sua poesia, trazendo-o para a cena e ludibriando o leitor ao mesmo tempo; o modo como o prazer é um tema central e visível em sua poesia; e a maneira pela qual a indeterminação é um tema implícito de todos os seus versos. Afinal, a quem se refere o “-lo” que complementa o verbo “conhecer” no título? Uma pessoa ou o desejo? Ou o desejo pela pessoa? Ou o desejo da pessoa?
E por falar em indeterminação, repare mais uma vez no uso da palavra “como”: você sabe dizer se ela instaura uma comparação que nomeia o desejo, como sugerido pela sua primeira leitura? Ou será que ela é um verbo e alude a uma ação da poeta que “come o vento” nas copas, que “come a vaga” contra o penedo, que “come a mosca minúscula”, como uma boca desejante e de apetite imenso?
O vazio também se inscreve aqui, especialmente se você interrompe a sua leitura. Se você permite que o silêncio e o vazio façam parte dela. Em Incombinados, Luci Collin convida você a conhecer palavras nuas. É preciso ler esses versos devagar. Eles são e não são o que parecem. Ao mesmo tempo.