Certa vez, durante uma entrevista, João Anzanello Carrascoza definiu o seu trabalho na literatura com uma frase bastante impactante: “No fundo, o que me interessa é o tempo como personagem”. A afirmação do autor dialoga com o que tem sido feito por Maria Fernanda Maglio ao longo de uma carreira que impressiona, desde a coletânea de contos Enfim, imperatriz (obra vencedora do Prêmio Jabuti) até o romance recém-publicado Lá é o tempo.
Em seu novo livro, a autora nascida em Cajuru (SP) constrói uma narrativa não linear repleta de mistérios, relações intensas, personagens complexos e uma pitada de humor. Na trama, há duas linhas do tempo que se intercalam ao longo dos capítulos. Uma conta sobre André, um adolescente de 13 anos, que enxerga no borracheiro Salu uma figura paterna. Quando o homem é assassinado, o garoto tímido faz algo que ninguém poderia imaginar: decide buscar vingança. Na segunda linha do tempo, 20 anos depois, um escritor ouve falar sobre André e Salu e decide ir até a cidade onde a história aconteceu para ouvir depoimentos e escrever um livro.
A escolha da autora por intercalar as linhas do tempo durante os capítulos contribui para que o leitor se veja diante de um mistério crescente e, ao mesmo tempo, opte por ler a história devagar, para que possa saborear cada frase precisamente construída por Maria Fernanda Maglio.
Se a linguagem do livro é transgressora, os personagens não ficam atrás. André é retraído, fala baixo, diz pouco, mas pensa muito. Encontra em Salu um amigo, um protetor e um mentor dos mais humildes. A relação dos dois é marcada por afetos e cumplicidade, desde os ensinamentos sobre consertos de carros até a ida ao circo para ver o globo da morte — com seus motociclistas que flertam com o perigo da morte, em frente a uma plateia empolgada.
Se André é calado, os amigos bobalhões são um contraponto. Valtinho, Tião e Denis são típicos adolescentes, com suas brincadeiras debochadas e constantes curiosidades sobre tudo o que acontece ao redor.
Na outra linha do tempo, os personagens também são irresistíveis. O escritor fica sabendo de André, Salu e Tonho Lino (o assassino do borracheiro) quando uma misteriosa velha lhe conta a história, no meio da rua. Sem pensar duas vezes, decide largar o emprego como professor e a esposa para se mudar para a pacata cidade onde tudo aconteceu.
No local, colhe depoimentos de figuras como o advogado que acompanhou o processo e a filha do tenente responsável pela prisão de André.
Atmosfera
A sinopse de Lá é o tempo pode até remeter a um thriller em seu sentido clássico, mas, na verdade, o livro está muito mais próximo de algo como Twin Peaks, icônica série de TV criada por David Lynch e Mark Frost.
Motivos para a comparação não faltam: a cidadezinha é muito mais misteriosa do que parece e tem uma mata em que o tempo funciona de forma diferente. Além disso, não há muita lógica no assassinato cometido por André: o garoto inofensivo teria atirado sete vezes contra Tonho Lino, com uma precisão admirável, mesmo sem nunca ter tido contato com uma arma antes. O revólver, aliás, foi encontrado por acaso, escondido na mata. A polícia suspeitou da história, mas o leitor não suspeita. Isso porque, desde as primeiras páginas, Maria Fernanda Maglio consegue convencer que esse não é um lugar comum e que essa não é uma história convencional.
E mais incomum ainda é o tempo. Na narrativa, o passado, o presente e o futuro parecem uma coisa só. Acontecem simultaneamente e se repetem, em ciclos que podem durar a eternidade. A ideia é reforçada na estrutura. A autora repete frases, muda tempos verbais e apresenta os diálogos sem recorrer a marcações como aspas ou travessões.
Ambientação
A construção do local onde a história se passa também demonstra o quanto a escritora se preocupa com cada detalhe da cidadezinha. Mesmo o que não é dito diretamente está ali, de alguma forma. Assim, o leitor consegue visualizar até mesmo aspectos culturais e econômicos de um município tão real como qualquer outro.
Aliás, como nasci e cresci em uma cidade do interior de São Paulo, a presença da soja, da cana-de-açúcar, dos mercadinhos de bairro e do guaraná-maçã me transportou de volta a um lugar repleto de familiaridade.
Em espaços mais intimistas, como a borracharia de Salu, também fica perceptível o atento trabalho de campo realizado pela escritora para ambientar o seu romance.
Idas e vindas
De um adolescente silencioso a um homem obcecado por uma história que mal conhece, os personagens do romance são complexos, contraditórios, autênticos e movidos por paixões. Não há na literatura de Maria Fernanda Maglio o menor sinal do estereótipo, do raso, do vazio e do previsível.
A cada livro, a autora apresenta novos personagens tão marcantes que se instalam nas cabeças dos leitores e se recusam a sair dali por um bom tempo. Eu mesmo não sei dizer quando André deixará de me fazer companhia. E que bom isso.
Lá é o tempo é uma das obras brasileiras mais inusitadas dos últimos anos. Um livro que trabalha enredo e linguagem com a mesma atenção, subverte texto e subtexto e apresenta personagens quebrados pelo trauma, pelo medo ou pelo vício.
O romance ainda brinca com a metalinguagem, aborda angústias comuns ao ofício da escrita e coloca leitores diante de paradoxos inquietantes.
O novo livro de Maria Fernanda Maglio é um convite a diferentes tempos da narrativa, com uma história tão bem construída que pode prender o leitor em um looping do qual ele simplesmente não desejará mais sair.