Meu primeiro encontro com Raimundo Carrero, ainda nos anos 1980, começou com um mal-entendido. Foi mais um desencontro. Um equívoco, que poderia nos levar ao ódio, mas nos conduziu à amizade. Em um evento literário no Recife, durante um intervalo para o café e por simples formalidade, um amigo em comum nos apresentou.
“Já me falaram que você não gosta de mim”, Carrero disse logo, antes de qualquer cumprimento. Um certo escritor, cujo nome esqueci de propósito, disse a Carrero que fugisse de mim porque eu o detestava. Guardou essa impressão alheia. Carrero ficou com a advertência do amigo, ou falso amigo, mas logo depois a esqueceu. Até que, do nada, eu surgi diante dele.
“Não tenho motivos para não gostar de você”, tratei de responder. “Até porque sou um leitor apaixonado de seus livros.” Belos e fortes, talvez eu tenha acrescentado. Se não fiz isso, foi porque o susto me conteve. Carrero ainda tentou reconstituir a história que o escritor venenoso lhe vendeu. Me olhava em silêncio, perplexo, seus olhos congelados me atravessavam. Logo entendi, porém, que observava mais a si mesmo.
Não chegou a dizer o que pretendia dizer. Atrapalhou-se com as palavras, gaguejou e logo começamos a rir. Rir muito. Então, para nos libertarmos do ódio inexistente, nos abraçamos. Foi um abraço intenso, não só de perdão, mas de alívio. Apesar dos 3 mil quilômetros que separam o Recife de Curitiba, onde moro, não nos perdemos mais.
Muitos anos depois, em um de nossos longos telefonemas, Carrero me fala de seus pais. A mãe, Maria, uma mulher pequena — tinha 1,52 metro de altura —, não sabia ler. Apesar disso, carregava sempre um livro debaixo do braço. Mesmo dentro de casa, para onde ela fosse, levava o livro. Tornou-se um vício. Talvez um talismã. Também na igreja, ela acompanhava as palavras do padre com um velho missal aberto no colo. Quando seus companheiros de banco viravam a página, ela, contrita, virava também. Não sabia ler, mas sabia sentir. E o livro a ajudava nisso.
Em casa, na cidade de Salgueiro, no centro do sertão pernambucano, quando o livro não estava sob seu braço, ficava escondido em um armário, entre as roupas engomadas. A mãe tinha muito ciúme dele, uma coletânea de poemas de Gonzaga Pinheiro, um parente distante. Não tinha laços com Gonzaga, tinha laços com o livro. Uma aliança intensa com o livro que nunca chegou a ler.
Não estava sozinha em seu pequeno vício. O pai de Carrero — Raimundo também — sofria do mesmo mal. Dizendo melhor: do mesmo bem. Também era analfabeto, mas só dormia abraçado a um exemplar antigo de Titãs da literatura, volume de uma velha coleção editada pela El Ateneo. Uma reunião esparsa de textos de autores célebres. Livro pesado, em capa dura e áspera, a que ele se abraçava com leveza.
Essa relação silenciosa com as palavras se transferiu, mais tarde, para o filho Raimundo. Quando a mãe morreu, Carrero era um menino de 10 anos. A mãe se foi, mas a paixão não se perdeu, mudou-se para o filho. A compreensão desse vínculo, íntimo e até mágico, desmente a imagem do escritor realista e árido que muitos se esforçam para vender a seu respeito. Talvez tenha sido nela que o amigo, cujo nome tratei de esquecer, se inspirou. Pela linha reta dos fatos, é difícil aceitar que a repulsa possa servir como porta de entrada para a fraternidade. A realidade, porém, não é lógica. A realidade se agita, se entorta e nos desmente.
Desde menino, Carrero se alimenta dos tremores do real. De sua instabilidade, de seus abalos, de sua debilidade. É dessa trepidação — que ele observa com reverência, mesmo nas muitas horas em que não a entende — que Carrero, como um carvoeiro em sua mina escura, extrai seus escritos. Bendita a hora em que o amigo cujo nome se deve esquecer pronunciou a maldita frase. O real não tem linhas retas, como as autoestradas. É feito de nervos que se contorcem, se enrolam e se chocam. Deles goteja a vida.
Ano de 2021, o segundo da pandemia. Ainda enfrentando as últimas sequelas de um AVC que sofreu em 2010 — e que lhe rendeu o atordoante O senhor agora vai mudar de corpo, de 2015 —, Raimundo Carrero está isolado em casa. A mulher, Marilena, médica, passa grande parte do dia no consultório. Em casa, Carrero sofre com pequenas dores, dispersas, indomáveis, que o prendem, grande parte do tempo, a uma poltrona da sala. Uma secretária de confiança o ampara. Em seu apartamento do Rosarinho, bairro no norte do Recife, ele atravessa as horas ensimesmado e imóvel. Imitando os pais, e como um náufrago, se agarra às palavras. Não para de escrever, e isso o salva.
Mesmo preso a uma cadeira, Carrero não sabe viver em descompasso com o mundo. Para compensar o isolamento, antes mesmo do café da manhã, sintoniza a televisão em algum canal informativo. Vigia a realidade desde sua poltrona. Uma poltrona voadora que, mesmo presa ao chão, o transporta para muito longe dali. Não se contenta, porém, em acompanhar, passo a passo, a brutalidade dos fatos. Enquanto as imagens escorrem na tela da TV, ele as atravessa. Não com o corpo, mas com a mente. É preciso dizer mais: com os nervos.
Quando penso na agitação de Carrero a cavalgar sua poltrona, me vem à mente a figura distorcida do papa Inocêncio X que Francis Bacon pintou a partir de Velázquez. Ambas latejam. Ambas tendem ao sobrenatural. Só que, enquanto o papa de Bacon pulsa por fora, Carrero pulsa por dentro. Lateja e avança, em um voo interior. Não para fugir da realidade que o jornalismo, precário, com seus instrumentos mecânicos, luta para capturar. Mas para agarrá-la pelos nervos e transportá-la, inteira, ardente, para o interior de seus relatos.
Em nosso segundo encontro, em uma feira literária de Garanhuns, no agreste pernambucano, comecei a entender isso melhor. A entender, mas também a me assombrar. Apesar de ser só três anos mais velho do que eu, aprendi logo a ver Carrero como um mentor. Um mestre. Um pai? Meu pai, José Ribamar, falecido em 1982, nasceu em União, no meio norte do Piauí. Uma região de cerrado e caatinga, paisagem árida e desolada, em muito semelhante ao panorama horizontal de Salgueiro, que fica na grande depressão sertaneja. Viemos, os dois, da mesma amplidão. Do mesmo vazio. Dos ventos secos, da vista que se perde até bater no sol, do horizonte devastador. Viemos do grande nada.
Há ainda, admito, alguma semelhança física entre os dois. O rosto largo, o corpo mais largo ainda, pesado, os gestos um pouco brutos. Uma delicadeza viril que nem todos conseguem entender. Uma fúria contida que, no entanto, lhes alimenta as palavras. A pele queimada, maltratada, as mãos grandes, um olhar que esfaqueia. São muitos os vínculos que posso traçar entre eles. Nunca falei sobre isso com Carrero. Não sei por quê. Um dia ainda farei isso.
Em Garanhuns, eu o seguia com abnegação. Punha-me a observar, de longe, aquele homem cujas palavras mansas desmentem a brutalidade do corpo. Carrega um enigma, logo entendi. Do mesmo modo, diante da tela da televisão, Carrero desconfia das imagens que vê. A mente fervilha, agitada por um vendaval de perguntas. As imagens, sob o fogo das palavras, se distorcem. É na cabeça de Carrero, e não no vídeo, que a realidade, oscilante e irregular, enfim emerge. Resulta em livros vigorosos, como Estão matando os meninos, de 2020, um dos mais fortes que ele já escreveu.
Estivemos juntos, muitas vezes, no Recife. Ele já esteve em Curitiba, onde vivo. Mas não se trata disso, de uma proximidade física, embora seja sempre muito bom reencontrá-lo. Nosso laço é de outra ordem. Um vínculo que dispensa e vai além da realidade banal. Vai além do corpo. Algumas vezes, eu, o cético, me pergunto se não se trata de um laço espiritual. Outras vezes, isso me parece ridículo. Há algo que eu não entendo. Provavelmente, Carrero não entende também. A ignorância desse sentimento nos aproxima.
Sempre me pergunto, durante cada um de nossos longos telefonemas, o que afinal nos conecta. Ocorre que as respostas que me surgem, as explicações que consigo formular, são incompreensíveis. Vêm-me em uma língua nunca traduzida. Como os espíritos, elas estão ali, mas eu não as alcanço. De nada me servem. Diante delas, apenas sigo.
Carrero, o devorador da realidade, passa os dias mastigando notícias. Pergunto-me se elas não o empanturram, se não o massacram. Se não lhe pesam. “Nós, escritores, temos que estar ligados ao presente”, ele me diz. “Temos que permanecer atentos a nosso tempo.” Tempo difícil, temporal, tempestade. Realidade que assombra, mas também acorda. Uma sucessão de socos. De sustos. E de feridas. Raimundo Carrero é, antes de tudo, um homem afetado pelo real. Se há um sentimento que ele desconhece, é a indiferença.
Carrero me diz: “Você já notou que só falamos da dor?”. Escrevemos, é verdade, em um cenário coberto de horrores. A pandemia e seus milhares de mortos, os desvarios e turbulências da política, a miséria e a fome que se multiplicam. Não é só que a realidade esteja pesada. Ela está absurda. O manto de notícias, em vez de nos aquecer, nos sufoca. “Temos que deixar que os fatos escavem nossa alma”, Carrero insiste. “Que a realidade nos perfure.” Só assim, ele pensa, estaremos prontos para escrever. O escritor não é um burocrata. Não trabalha em um gabinete asséptico. Será que algum dia eu conseguirei?
Algumas semanas depois, Carrero me entrega outra pista. Conta que terminou de reler As vinhas da ira, o romance que John Steinbeck publicou em 1939. Sente-se atordoado. “É um dos cinco grandes livros da literatura universal”, afirma. “Só ficou esquecido por causa da perseguição do macarthismo.” Steinbeck se declarava comunista. Na América dos anos 1940, isso era o mesmo que uma condenação. Algo bem parecido, aliás, e infelizmente, com o que vivemos hoje.
Carrero se impressiona, mais que tudo, com a cena final do romance. Nela, ele descreve, um moribundo, sem ter do que se alimentar e depois de muito resistir, aceita beber do leite de uma mulher que acabou de dar à luz. Como uma criança, o homem se debruça sobre o seio farto. E dele se alimenta. A cena, reflete Carrero, mistura erotismo e repulsa, sensualidade e desespero. É um paradoxo — e os paradoxos proliferam também em sua ficção.
A escrita, para Carrero, é o sangue que escorre da realidade. A escrita verdadeira vem do corpo. Tanto que Carrero escreve com a raiva dos boxeadores. Escrever, para ele, é esbofetear o real. Confrontá-lo. Feri-lo. “Não existe literatura sem dor”, ele insiste. “Se isso existe, não me interessa.” Em sua poltrona, ele se expõe ao bombardeio das notícias. Atua como uma antena, que atrai os impulsos emitidos pelo mundo e os transforma. Sintoniza com o horror alheio e dele arranca seus livros.
Um pouco antes do início da pandemia, lanchamos juntos no Café Chacon, não muito longe de sua casa. Está feliz, mas também apreensivo. Parece antever o que nos espera. O salão é largo, mas se torna apertado para a inquietação de Carrero. Falamos sobre a vida, buscamos as palavras certas, mas a vida não cabe nas palavras. Todo o tempo, ele se interroga sobre o sentido do que escreve. Um sentimento de insuficiência e estupor o perturba. Está ali, feliz à minha frente, mas quer mais. Carrero quer sempre mais. Objeto de muitos de seus relatos, a fome — não só de alimentos, mas de sentidos — o move.
Não se ilude com o gozo do mercado, com o fanatismo das vitrines, com as listas de mais vendidos. Não escreve para vencer, escreve para ser. Às luzes da mídia, prefere a intimidade das oficinas de escrita, que dirige com zelo e paciência em uma pequena sala. Atém-se ao processo, não ao fim. Não tem um objetivo, uma meta. Tem um ofício. O ato de escrever é seu objeto. É um alfaiate que, em vez de se preocupar com a roupa que costura, dá mais importância às linhas e agulhas que manipula. Prefere o ofício à glória. Pergunto-me: como consegue escrever com toda essa fúria? Embora interessado na técnica e no rigor da língua, aos alunos, é sobretudo esse frenesi que ele transmite. Arrebatamento. Nervos expostos. Sem isso, ninguém escreve.
Escreve para o presente, não para o futuro. Escreve para afrontar a vida e não para domesticá-la. Condenado à vida, Raimundo Carrero faz dessa condenação, que as circunstâncias só exacerbam, não um castigo, mas uma vitória. Suas narrativas se erguem sobre opostos. Amor e raiva, sensualidade e nojo, luta e desistência, piedade e ódio. Esses elementos se misturam no espírito de seus personagens. Fico pensando no quanto se esconde do próprio Carrero em cada um dos personagens que cria. Não se trata de confissão, tampouco de desabafo. Não é tão simples. Não é mecânico. Trata-se de fervor.
Seus personagens são movidos pelo mesmo ímpeto aflito, mas potente, que o alimenta. Pela mesma paixão sem freios. Pelo mesmo desassossego. Há neles uma intensa piedade pelo humano. Carrero é um homem religioso, faz suas orações diárias, cultiva sua fé nos santos. A clemência pela vida, contudo, ultrapassa o apego à religião. Escreve movido por uma crença radical no homem. Ela não tem relação alguma com o dogma, ou com uma doutrina. Escreve para resistir. Escreve para continuar vivo.
Ainda no café, observo-o diante de mim, agoniado, a alma exposta e aberta em feridas, um homem sem disfarces. Nele vejo uma mistura perturbadora de raiva e afeto. O que há em Carrero de tão peculiar? Que atordoamento é esse que, entre pequenos humanos, faz dele um gigante? Talvez, agora, eu chegue à palavra que buscava. Uma palavra comum, quase tola. A muitos, ela parecerá excessiva. Pueril. Ainda assim, eu a sustento. Para mim, Raimundo Carrero é um guerreiro. No lugar das armas, empunha as palavras — troca que desafia os tempos obscuros em que vivemos. Nem sempre ele vence, é claro. Cai, se fere, sangra. Passa por dias de desalento e algum desespero. Mas, logo depois, continua a lutar.
NOTA
Texto originalmente publicado em Inventário das sombras (Record, 2022, 4ª edição, revista e ampliada).