O despertar do olhar

Livro de Márcia Leite e Bruna Lubambo transforma o olhar de uma criança em confronto com a invisibilidade urbana
Márcia Leite, uma das autoras de “O nome do moço”
01/06/2026

O nome do moço é uma narrativa em plano contínuo. Acompanhamos o percurso de uma mãe e de sua filha, ainda criança, em um dia corrido qualquer. Somos apresentados à cidade grande ao abrir o livro. Na capa, vemos apenas as personagens. No título, está um moço que ainda não conhecemos.

De início, uma cena quase vazia, com uma mancha preta no chão, causa um estranhamento. Apressadas, as personagens da capa aparecem e a menina pergunta:

— Mãe, você viu o moço ali deitado?

— Não vi, filha.

Está difícil de ver mesmo. A mancha preta no chão é um morador em situação de rua. Ele dorme envolto em um saco de lixo preto e só conseguimos ver os seus pés. A mãe passa por ele sem perceber, como quase todos os que por ali transitam, mas a garotinha branca, cuidada pela mãe, não normaliza essa cegueira.

Desta página em diante, ela dispara uma sequência de perguntas sobre o moço. Como ele respira? Por que ele tá na calçada? Ele não tem casa? Cama? Família? Travesseiro? Sente frio?

Ela vasculha e remexe seu repertório por meio dessas perguntas, norteando-nos sobre a vida que ela tem e de onde ela vem.

Seu desejo mais sincero, ficamos sabendo, é encontrá-lo novamente na volta do caminho, olhar seu rosto e perguntar seu nome.

É sua maneira de reconhecer e humanizar aquele homem invisível.

Cegueira e cidade
O nome do moço não possui narrador, apenas diálogos curtos.

“Pode ser, talvez, depende, o que você acha?” são os recursos que a mãe encontra para responder às perguntas da filha e deixá-la inferir sobre o que acabou de acontecer.

Conforme as acompanhamos em seu percurso, vamos conhecendo a cidade e nos apropriando daquele centro urbano.

Uma cidade que pode ser a sua, a minha ou a de qualquer outra pessoa, onde pessoas em situação de rua fogem do nosso campo de visão.

Ruas movimentadas de carros, calçadas cheias de gente, praça, rotatória, abrigos, avenidas, parques, pontes: no caminhar das páginas, encontramos vestígios desta desigualdade. Na praça, por exemplo, moradores de rua jogam conversa fora, em uma mesa feita para jogar xadrez. Também os encontramos amontoados na porta de uma loja cujo tapete da entrada diz “bem-vindos”. Nas árvores encontramos roupas desses moradores secando e na fila de um abrigo para retirar a senha, deparamo-nos com mães e filhos e apenas um homem.

Márcia Leite escreveu este texto juntando situações vividas por ela e suas filhas na cidade onde ela mora, São Paulo. Este texto ficou parado por cinco anos até encontrar o olhar de Bruna Lubambo, que também reconheceu sua cidade. Enquanto fazia as ilustrações da obra, Belo Horizonte, onde vive, estava ali. A capital de Minas Gerais também reproduz o cenário descrito por Márcia.

Duas mulheres
O nome do moço não ilumina só a desigualdade social, ele também bota luz sobre o trabalho materno.

No dia claro, nas ruas movimentadas, encontramos poucos personagens masculinos. Mães e filhos por toda a cidade alertam para o quanto esse cuidar é predominantemente feminino. Para reforçar a sobrecarga sobre a função materna, Bruna Lubambo criou um elemento narrativo. Assim que a menina começa a fazer perguntas sobre o moço, uma sacola preta, igual ao plástico que cobria o homem deitado no chão, aparece junto da mãe. E vai crescendo, crescendo, conforme elas caminham e as perguntas da menina vão surgindo. Em uma alusão ao quanto o educar sozinha pode ser pesado e desafiador.

A monotipia e a frotagem fazem parte das técnicas usadas por Bruna Lubambo para ilustrar o livro. A monotipia possibilita a criação de imagens únicas. Ao contrário de processos como a gravura ou a serigrafia, ela resulta em apenas uma cópia. Isso porque a tinta é aplicada e manipulada manualmente sobre uma superfície lisa, sendo quase totalmente transferida para o papel na primeira impressão, o que impossibilita uma reprodução posterior com a mesma qualidade. Além disso, cada trabalho se torna exclusivo devido às variações de pressão, à quantidade de tinta utilizada e às marcas produzidas durante o processo.

Impossível não fazer a analogia de que a tinta transferida em excesso para o papel, tornando aquela obra exclusiva, é também o que acontece com milhares de mães ao cuidar de seus filhos. Transferência, exclusividade e pressão.

E não é só isso. Essa técnica é também outra forma de trabalhar a surpresa, uma surpresa revelada no final da impressão. Qualquer descontrole técnico, por assim dizer, faz com que algo novo se revele, assim como o mundo se revela para a filha. O desconforto do descontrole faz, por exemplo, com que a tinta excessiva borre os pés da mãe na capa, imprimindo também a eles a pressa e o acúmulo de afazeres tão comuns às milhares de mães solo deste país.

Frotagem é uma técnica artística que consiste em transferir a textura de um objeto para o papel por meio de fricção com lápis, giz ou outro material de desenho. O nome vem do francês frottage, que significa esfregar, friccionar. É com ela que Bruna cria elementos urbanos nas páginas, como a textura do bueiro.

As poucas cores no livro direcionam o nosso olhar ao que realmente importa, deixando clara a hierarquia das informações. São muitas as camadas de leitura que permeiam este livro.

Para além da obra, não podemos deixar de observar os papéis que as autoras ocupam na cadeia do livro. Márcia Leite acaba de abrir, com suas filhas, a editora Joaquina, que em abril comemorou um ano. Em setembro de 2025, Bruna inaugurou uma livraria de rua em Belo Horizonte dedicada exclusivamente às infâncias: a livraria Aluá, no bairro Santa Tereza.

Editoras independentes e livrarias de rua para as infâncias lideradas por mulheres não devem ser invisibilizadas, mesmo no austero mercado editorial brasileiro, que lembra muito os grandes centros urbanos.

O nome do moço
Márcia Leite e Bruna Lubambo
Joaquina
48 págs.
Márcia Leite
Teve contato com as linguagens da gravura, da serigrafia, do desenho e da pintura por meio de cursos e oficinas livres realizados em diferentes regiões do Brasil. Em 2020, publicou seu primeiro livro autoral, Dentro de casa (Aletria), obra que recebeu o selo Cátedra Unesco de Leitura/PUC-Rio e foi finalista do Prêmio Jabuti na categoria Livro Infantil.
Rita M. da Costa Aguiar

É editora de arte, especialista em livros para infância.

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