O convite do luto

Em "Antes que eu esqueça", da francesa Anne Pauly, a morte do pai desencadeia uma investigação íntima sobre memória e pertencimento
Anne Pauly, autora de “Antes que eu esqueça”
01/07/2026

O luto, mesmo quando compartilhado, é sempre um convite para um mergulho individual, solitário e intransferível na experiência humana da perda e da própria finitude. Ninguém pode vivê-lo por nós, nem da mesma maneira. E nem todos conseguiremos ou poderemos aceitar esse convite. É esse mergulho sincero e comovente de uma filha no luto pela morte do pai que testemunhamos em Antes que eu esqueça, premiado romance de estreia da francesa Anne Pauly.

Nele, acompanhamos os dias que sucedem a morte do pai da narradora, um homem simples do subúrbio de Paris, o processo de lidar com as burocracias da morte, de desfazer-se de tudo aquilo que resta de uma vida, enquanto ela mesma se reposiciona no mundo diante dessa perda, da nova condição de órfã — já que a mãe falecera anos antes — e dos lugares de sua infância. É um processo que, mesmo compartilhado com um irmão e uma companheira, permanece profundamente solitário.

Em tempos em que o luto muitas vezes é apressado, medicalizado ou transformado em experiência performática nas redes sociais, Anne Pauly escreve justamente sobre aquilo que escapa à linguagem pronta. Seu romance não busca monumentalizar a morte do pai nem transformá-la em grande tragédia exemplar. Ao contrário: interessa-lhe a banalidade da perda, os detalhes ridículos, burocráticos e profundamente humanos que cercam a morte de alguém comum.

Com uma escrita afiada e repleta de referências de todos os tipos, do clássico ao pop, o romance acompanha também esse deslocamento interno provocado pela perda. Quando perdemos alguém importante, perdemos parte de nós mesmos e, entre todos os desafios do trabalho de luto, está o de nos reencontrarmos nessa nova realidade. É um reposicionamento completo do tabuleiro no jogo da vida. E é justamente esse o processo que acompanhamos nesta narrativa comovente e perspicaz: o de uma filha que narra para não esquecer.

Porque, sim, assim como a morte, a vida também se impõe. E sabemos que, mais cedo ou mais tarde, as memórias desses dias intensos, assim como as memórias de quem partiu e não queremos esquecer, serão inevitavelmente atenuadas pelo tempo.

A escrita de Anne Pauly parece nascer dessa urgência de narrar o instante, aquilo que inevitavelmente será transformado pela passagem do tempo e nunca mais poderá ser alcançado da mesma forma. É uma escrita direta, corajosa, que elabora não apenas o luto pela perda do pai, mas também o luto de uma vida, de uma infância inteira, de uma mulher que abandona o subúrbio e constrói uma vida que contraria todos os estereótipos do que é ser uma mulher no lugar de onde veio. A autora percorre esse trajeto com humor ácido e compaixão. Por si mesma e pelos que ama, mesmo com todas as imperfeições e insuficiências.

No fim, com ou sem açúcar, a gente até que aguentou bem, muito bem, aliás, é bizarro ver como a gente aguentou bem, eu não acreditaria se alguém tivesse me contado.

O retorno
A morte do pai faz com que ela volte para o subúrbio e ali permanecer até que todas as urgências sejam resolvidas. Isso lhe permite revisitar não apenas a história do pai, mas sua própria história e tudo aquilo que a distancia e a aproxima daqueles que permaneceram ali, incluindo o pai e o irmão.

Há também uma forte questão de classe atravessando a narrativa. O pai de Pauly pertence a uma França periférica frequentemente invisibilizada pela literatura francesa mais tradicional. A autora observa com lucidez os códigos daquele universo: os silêncios, os constrangimentos sociais, a violência, os modos de afeto possíveis naquele ambiente. Sua ascensão intelectual e seu deslocamento para outros círculos não apagam a origem, mas tornam ainda mais complexo o retorno à casa paterna após a morte.

Com humor, ironia e perspicácia, a autora não poupa a si mesma do ridículo, do constrangedor que pode haver em uma morte comum. Porque toda morte é, ao final, uma morte comum. Um engano, um tropeço que não controlamos e que expõe aquilo que temos de mais humano.

No espelho do elevador, nossas caras de adultos fracassados. Olá, impacto da morte, tudo bem? Beijo pra você. E a mais-que-certeza, estando lado a lado, cada um com sua parcela de genes, de que éramos mesmo os filhos do defunto.

As burocracias, as decisões que parecem sem sentido, as reações exageradas, tudo aquilo que se segue à comoção da notícia e antecede o espaço necessário para o luto começar, para a vida seguir. Costumes, tradições, gestos por vezes absurdos, mas que ocupam, que só fazem sentido naquele momento.

Percorrendo os cinquenta metros que separavam o estacionamento da câmara funerária, todos vestidos de preto, por um breve instante tive a impressão de que íamos assaltar um cassino.

Enquanto vive os primeiros dias após a morte, tenta entender o que aconteceu durante os últimos meses, os cuidados com o pai doente e os últimos dias de vida no hospital, que não parecem ter sido solenes e planejados, mas comuns e atrapalhados. Revisa o que poderia ter sido, o que de fato foi e a culpa: “Às vezes a gente não presta muita atenção e, depois, tarde demais, as pessoas morrem”.

Lidar com a concretude da morte é um chamado e uma oportunidade de lidar com tudo o que há de subjetivo nela. É preciso dar um destino ao que resta da perda, que nunca é pouco, do lado de fora e do lado de dentro. E cabe quase exclusivamente a ela a tarefa de organizar o funeral e dar um destino aos objetos e à casa do pai.

Pauly encara com coragem o desafio de mergulhar sozinha na casa de sua infância, revisitar as memórias, os traumas, os enganos, tudo aquilo que foi como foi e não como poderia ter sido. A partir do cenário deixado pelo pai, vai desmontando peça por peça a imagem de um homem a princípio fracassado, alcoólatra e violento, para deixar surgir a figura complexa e humana de alguém marcado também por sua própria história de vida.

Diante dos conselhos e clichês sobre esse processo, ela escolhe permanecer sem pressa na casa, no cenário deixado pelo pai:

Me disseram, brandindo um rolo de sacos de lixo, que quando alguém morre é preciso agir, triar, arrumar, dividir, espremer, escolher o que quer guardar e se livrar do resto. E o mais depressa possível… Mais do que me assustar, a ideia me parecia sobretudo incongruente, fora de questão, distante.

O quebra-cabeça
Ao escolher o que fica, Pauly escolhe também o que deixará para trás e o que levará consigo. Olha para o passado, reconstrói narrativas, para então seguir em frente.

É nesse processo que a autora descobre um relacionamento de seu pai que jamais fora consumado, mas que permaneceu como amizade à distância, por meio de cartas e ligações. E é nas trocas de cartas com essa mulher que encontra interlocução e peças que a ajudam a montar o quebra-cabeça de quem foi o pai.

Em um trecho especialmente comovente, Pauly encontra o que dizer no funeral na biblioteca do pai, em meio aos livros que ele não necessariamente leu, mas que apontavam para quem gostaria de ter sido. A biblioteca como espelho de tudo aquilo que poderia ter sido e não foi:

Essa escrivaninha e esses livros que ele folheava sem realmente ler, sobre o tao, o Japão, Montaigne e os poemas de François Villon. Eram, acho, seu sonho de conhecimento, sua encenação para se vingar de uma infância de miséria e do desprezo social que ele tinha sofrido durante toda a juventude.

Ao narrar o pai depois de sua morte, Pauly realiza também uma espécie de reparação impossível. Não uma absolvição, nem uma idealização retrospectiva, mas a tentativa de enxergar aquele homem para além das categorias fixas da infância: o pai violento, o alcoólatra, o fracassado. A morte interrompe a possibilidade de transformação concreta, mas a literatura ainda permite deslocar o olhar.

Entre tantas coisas que a distanciavam das pessoas de sua infância, foi no humor que ela e o pai se encontraram. Era por meio dele que o afeto entre os dois encontrava lugar: “Meu Deus, como eu ia sentir falta do humor dele”.

Aceitação
Talvez um desfecho possível para o luto seja a aceitação. Se não da morte, ao menos da vida. Do fato de que a vida se impõe apesar da dor, apesar da ausência de quem amamos tanto. Aceitação que a autora encontra ao seguir intuitivamente seu sentimento de que, se algo não faz sentido, talvez seja justamente o fim.

De volta à rotina em Paris, depois de terminado o processo de desfazer-se das coisas do pai, em um momento em que a raiva pela vida que seguia alheia à sua perda já dava lugar a uma tristeza profunda, ela se dedica a busca pessoal por respostas, sinais, qualquer coisa capaz de dar algum sentido à finitude, à morte do pai e à vida que segue à revelia de sua revolta:

De todo modo, pensar que ele estava morto e pronto, vrá, basta fechar a cortina, não funcionava pra mim, não combinava com o resto, aliás, não combinava com nada.

Entre tardes de leitura na seção de livros espíritas da Fnac, buscas por sinais de outro mundo, mudança de emprego, aulas de ioga e viagens de carro, a tristeza profunda vai, lentamente, dando lugar, mais uma vez, a uma certa alegria.

Ainda arrastei minhas nuvens negras atrás de mim por um tempo, mas o tamanho delas diminuía e os raios de luz aumentavam de quantidade.

Se o luto é esse convite a um mergulho profundo — dentro da perda, da nossa própria finitude, dentro de nós mesmos —, ele é também uma oportunidade. Não é um convite fácil, e nem sempre conseguimos aceitá-lo. Mas é, sem dúvida, o mergulho mais profundo e transformador que podemos fazer. Vale a pena ter a coragem de ir além das águas rasas, de conhecer suas águas profundas. Se conseguirmos fazê-lo, voltaremos à superfície diferentes. Com os pulmões mais preparados. E com mais vontade de respirar até o último e derradeiro mergulho.

Antes que eu esqueça
Anne Pauly
Trad.: Andréia Manfrin Alves
Ercolano
128 págs.
Anne Pauly
É escritora e ativista LGBTI+. Nasceu em 1974, na periferia de Paris (França), e trabalhou como revisora em um escritório de advocacia antes de se dedicar à literatura. Antes que eu esqueça é seu primeiro romance. Aclamado pela crítica e traduzido em diversas línguas, o livro conquistou o Prix du Livre Inter e o Prix Robert Walser em 2020.
Tatiana Eskenazi

É escritora, poeta e fotógrafa. Autora dos livros de poemas Seu retrato sem você e Na carcaça da cigarra.

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