Nevava. Parecia um fim de dia qualquer de aula: Yuki estava à espera de seu irmão. Sen a buscava todos os dias na saída da escola, entregava-lhe as chaves de casa, colocava a mochila dela nas costas — afinal, ele era o irmão mais velho — e os dois caminhavam de volta para casa. Depois disso, Sen se fechava em seu mundo e seguia o caminho sem dizer uma única palavra. Andava rápido. Yuki não acompanhava seu ritmo e estava sempre uma boa distância atrás dele.
Naquele dia, que não era um dia qualquer, Yuki sentia muita raiva daquele irmão-múmia sempre calado. Tinha certeza de que ele odiava seu temperamento difícil e o fato de ela ser, às vezes, má e indelicada. Quando ficava nervosa, ela gritava, batia os punhos no chão, chorava e sentia tudo se embaralhar por dentro.
Mundo subterrâneo
No caminho de casa, eles sempre passavam por um bueiro destampado perto de uma esquina. Naquele dia, invadida por sua fúria, Yuki jogou as chaves de casa lá dentro. Sen, que já estava lá na frente, nem percebeu. Ao ver que as chaves haviam sumido naquele buraco escuro, ela sentiu culpa. Yuki decidiu recuperá-las. Na descida de uma longa escada, sem conseguir enxergar direito, a raiva e a culpa dão lugar ao medo. No fundo daquele caminho, havia uma criatura enorme e gotejante, coberta de terra, com cabelos de mato seco e mãos de raízes: “Muito prazer, sou a Lamacenta, a princesa do Lodo!”.
Assustada, Yuki tentou explicar que precisa voltar para casa, mas é logo interrompida pela princesa: sua casa, agora, era ali. A partir daí, a menina passou a atravessar caminhos sombrios, como a selva escura; o Lagodelho, um lago em que crianças que aprontam alguma coisa pulam e desaparecem; o Museu dos Odiosos, onde ficam guardados objetos arremessados pelas crianças em momentos de raiva; e a Raivoteca, uma biblioteca dedicada aos mais variados tipos de raiva. Segundo a própria princesa, “a raiva dos outros é sempre uma delícia”. Por fim, elas chegaram ao quarto Relax, onde puderam descansar.
Naquele dia, longe de ser um dia qualquer, Sen chega para salvá-la. Ele também enfrentou seus medos e suas culpas e conseguiu tirá-la dali. Antes da despedida, os dois tiveram de enfrentar Lamacenta furiosa, que começa a ficar cada vez maior. Yuki parou de correr por um minuto, voltou, abraçou-a e disse: “eu não tenho medo de você”. Depois, prometeu voltar para brincarem de fazer bolo de lama. Aí, a princesa diminui de tamanho.
O percurso se desenvolve em uma ambientação estimulante e povoada por personagens complexos e diversos, como os “caquitas”, que adoram fazer você se sentir culpada. A princesa também tem suas peculiaridades. Quando entra em contato com a maldade de Yuki, cresce e fica com os cabelos de galhos mais longos.
Infância ilustrada
Os livros de Beatrice Alemagna têm maturidade artística e um senso estético poético e apurado. Suas narrativas transformam situações do cotidiano em momentos de reflexão e amadurecimento. Crianças e adultos se reconhecem nas histórias. Afinal, qual é o significado de entrar em um submundo, escuro e cheio de seres estranhos? Quem nunca amadureceu morrendo de medo? E o que significa a princesa na vida de Yuki? O que ela ganha ao aprender a domá-la?
Além de explorarem bem os sentimentos, as histórias de Beatrice também expõem a diversidade, a busca pela identidade e a aceitação dos personagens e, por consequência, dos leitores. A autora vê a infância como um período de descoberta, em que tudo ainda está sendo compreendido. Para adultos como nós, ao apresentar uma narrativa pueril do irmão mal-humorado e a irmã raivosa, ela reforça a ideia de que estamos permanentemente em um processo de formação e construção. Repare em quantas camadas de leitura a obra contempla.
Para Beatrice, a literatura permite experimentar e respeitar o tempo necessário para descobrir novas linguagens. Com narrativas leves e divertidas, ela varia constantemente técnicas e formas de expressão, sem abrir mão de reflexões filosóficas e humanistas. A pintura desempenha um papel fundamental na construção da atmosfera dos livros da autora. Com cores intensas, contrastes bem definidos e texturas bem trabalhadas, Beatrice constrói cenários que expandem o sentido do texto e expressam emoções. Suas imagens não se limitam a ilustrar os acontecimentos; elas contribuem para traduzir sentimentos, inquietações e descobertas vividas pelos personagens.
As cores e os efeitos pictóricos definem diferentes atmosferas ao longo da narrativa. Tons suaves, cores vibrantes e nuances densas se contrapõem na composição, enriquecem a leitura e aprofundam o envolvimento do leitor.
Além disso, as texturas e as técnicas mistas frequentemente utilizadas pela autora e artista conferem às ilustrações uma dimensão sensorial que aproxima o público do universo da obra. A materialidade dos traços e das superfícies reforça a humanidade de seus personagens e contribui para a criação de histórias sensíveis, em que temas como identidade, diversidade e crescimento pessoal também ganham força visual.
É um prazer reencontrar algo que ficou pelo caminho nos livros de Beatrice Alemagna.