Nos anos 1990, cerca de vinte anos após a morte de Murilo Mendes, a Nova Aguilar colocou pela primeira vez em circulação a sua Poesia completa e prosa, organizada pela catedrática Luciana Stegagno Picchio, que nos ofereceu, àquela altura, uma edição crítica. É interessante notar que foi justamente quando era “mais fácil imaginar o fim do capitalismo que o fim do mundo” (como se atribui a Fredric Jameson e Slavoj Žižek, a propósito da reemergência do liberalismo econômico em um contexto de fim das utopias do século 20) que se reuniram os versos de um dos poetas mais utópicos, mas também mais apocalípticos, do modernismo brasileiro. “Espero a tempestade de fogo”, Murilo anunciava em um de seus primeiros livros, “mais do que um sinal de vida”.
Na década de 2010, a Cosac Naify também se mobilizou para reeditar e fazer circular sua obra — mobilização interrompida com o fim da editora. A Companhia das Letras retomou o esforço nos últimos anos publicando a prosa de Murilo Mendes, e agora nos oferece, em volume único, a sua Poesia completa. Hoje, versos como “Eu existo para assistir ao fim do mundo” devem soar diferentes para os nossos ouvidos, ameaçados pela crise socioambiental do Antropoceno.
Murilo Mendes escreveu no século 20, a “era dos extremos”, como o qualificou o historiador Eric Hobsbawm. Era também de conflitos intensos, como a nossa. Mas o maior conflito do poeta mineiro é consigo mesmo. “Sou a luta entre um homem acabado/ e um outro homem que está andando no ar.” Esses versos do poema A luta estão inscritos em seu livro de estreia, Poemas, publicado em 1930, e servem de bússola para quem quiser percorrer os caminhos erráticos que Murilo trilhou. A dualidade se inscreve neles de maneira vertical, como uma luta entre o alto e o baixo, cuja dinâmica é, em verdade, o fundamento de um único homem contraditório em busca de alguma coisa, mas nunca conseguimos precisar exatamente o quê.
É famoso o poema que Manuel Bandeira lhe dedica, chamando esse homem de “conciliador de contrários” — além de “grande amigo da Poesia/ da poesia em Cristo/ e em Lúcifer/ Antes da queda”. A julgar pela autodefinição de Murilo naqueles dois versos, também grande inimigo de si mesmo, que mobiliza na sua lírica o que nele está acabado e o que nele está inacabado.
Poucos anos depois do primeiro livro, o tema dos dois homens retornaria em A poesia em pânico, de 1937. O poema Meu duplo o recoloca de forma a confundir o registro da carne com o do livro a partir da imaginação: “A edição que circula de mim pelas ruas/ Foi feita sem o meu consentimento. (…) O meu duplo sonha de dia e age durante a noite,/ O meu duplo arrasta correntes nos pés./ Mancha todas as coisas inocentes que vê e toca./ Ele conspira contra mim”. Que mundo emerge dessa luta do poeta Murilo Mendes consigo mesmo (que significa também uma luta entre a matéria e o espírito, as coisas como são e como poderiam ser)?
Delírio e sonho
Um mundo em metamorfose. Em um poema de Poesia liberdade, lemos “Todas as formas ainda se encontram em esboço/ Tudo vive em transformação”. Poeta do vir-a-ser, Murilo Mendes encontrou no delírio e no sonho suas faculdades elementares — o que o colocou, bem cedo, sob a influência dos surrealistas, diga-se de passagem, mas também de Baudelaire e de Rimbaud.
Agora, com essa edição da Companhia das Letras, com a coordenação editorial de Augusto Massi, Júlio Castañon Guimarães e Murilo Marcondes de Moura, a pergunta pelo sentido dessa obra ressurge. Ela nos permite perguntar: esse mundo que está nascendo do próprio mundo e que se configura como uma poesia do vir-a-ser teve sempre o mesmo semblante nas obras de Murilo? Quer dizer, há unidade ao longo de sua trajetória? Este é um ponto em aberto. Alguns críticos verão uma nítida cisão entre uma primeira fase mais mística, ligada a modulações religiosas em seus poemas, e outra mais atenta à materialidade e às substâncias do mundo.
No livro que tem o sugestivo título de As metamorfoses lemos um poema chamado Começo de biografia, com outra autodefinição do poeta que parece tomar essa dualidade como motivo de sua unidade:
Eu sou o pássaro diurno e noturno,
O pássaro misto de carne e lenda
(…)
Eu vos forneço o alimento da catástrofe e o ritmo puro
Trago comigo a semente de Deus… e a visão do dilúvio.
Talvez por isso, outros estudiosos defenderão que essa concepção dualista não permite compreender o todo coerente de sua poética. Por isso, sustentarão que sua obra “evolui” ou “amadurece” em direção a um rigor construtivo que desemboca na rígida forma dos últimos anos. Como se sua atenção às substâncias evoluísse, aos poucos, para uma preocupação com a materialidade do texto. “A matéria é forte e absoluta/ Sem ela não há poesia”, dirá o poeta no final da década de 1930.
Um terceiro grupo de críticos, infenso a essa postura teleológica e evolucionista, defende ainda certo imobilismo por trás da aparente mobilidade da obra de Murilo, definindo a sua poética a partir de uma capacidade do poeta em reunir e sintetizar elementos heterogêneos em pequenos fragmentos de pura condensação de significado. Como em Algo, que torna o indeterminado (que lemos no título do poema) límpido, sem aniquilar o seu mistério:
O que raras vezes a forma
Revela.
O que, sem evidência, vive.
O que a violeta sonha.
O que o cristal contém
Na sua primeira infância.
Nosso desejo de totalidade cresce ao vermos nas páginas dessa edição a reunião tanto das obras publicadas em português, de Poemas a Convergência, no espaço de cinco décadas, como com a publicação dos poemas em italiano e em francês traduzidos para o português, por Maurício Santana Dias e Júlio Castañon Guimarães, respectivamente. Uma conferência oferecida por Murilo em Montreal, sobre O poeta e a terra dos homens, está presente também nesse volume, e nos oferece uma chave de decifração de suas intenções com a poesia. “Estamos instalados na dessacralização total, ou seja, na desintegração dos signos do amor”, dizia Murilo Mendes em 1967. “Hoje não se sabe mais qual o valor exato das palavras. (…) É preciso de fato reconstruir a linguagem.” Mas a poesia escapa às intenções dos poetas.
Por que ler
Em vez de oferecer uma solução para a pergunta “qual o sentido da obra completa de Murilo Mendes”, gostaria de sugerir um caminho que passa por outra pergunta: por que ler Murilo Mendes hoje? Afinal, a poesia brasileira parece se sustentar, em nosso tempo, sobre pilares muito distintos daqueles erguidos por Murilo e pelos poetas que lhe precederam e sucederam. O delírio e o sonho são hoje subestimados ou subvalorizados como arroubos juvenis que confiam ingenuamente nas forças do mundo metafórico. De todos os modernistas, Murilo foi talvez um dos que deixaram os descendentes que hoje estão mais marginalizados.
Sua poesia representa certa relação de encantamento com o mundo. Murilo Mendes sabia que sua obra não tinha lugar no mundo desencantado. Esse lugar precisava ser inventado. Assim, ele insistiu em oferecer seus versos a um público que não era mais dotado das faculdades necessárias para fruir de sua poética. “O mundo alegórico se esvai,/ Fica esta substância de luta/ De onde se descortina a eternidade.” Cabe notar que esses versos pertencem a um poema chamado Novíssimo Orfeu. Refundando um dos personagens míticos que oferecem um ethos do poeta, Murilo revela a substância de luta da poesia: daí que a única forma através da qual pudesse sustentar sua tarefa fosse a da luta.
Pouco a pouco essa luta migrará mais explicitamente para o terreno da palavra enquanto signo, para além de qualquer significado. Nos últimos anos de sua obra vimos surgir uma espécie de materialismo da linguagem, também sob influência da poesia concreta. Não obstante, seu poema não se parece com as máquinas desencantadas do concretismo — pelo contrário, sua fatura toma forma mística a partir de uma relação mágica com os signos.
No poema Metamorfoses (2), que está em Convergência (1970), assistimos a uma transformação de palavras em novos termos: “O dilema. O trilema. O xilema./ O dilume. O trilume. O xislume”. Com uma sintaxe condensada, vemos aos poucos a premissa (“lema”) ganhar brilho (“lume”), ao mesmo tempo que surgem nomes estranhos. Em outro poema da mesma obra lemos uma lista de “Palavras inventadas (em forma de tandem)”, tais como: “Ardêmpora”, “neclauses”, “Bisdrômena”, “guevolt”, “Canéstrofa”, “trapesso”, “Desdômetro”, “fanúria”. O poema é meramente essa lista, essa reunião, de um mundo que surge diante dos nossos olhos (e ouvidos) e que se furta a qualquer entendimento, ainda que não se furte à legibilidade.
Não era esse mundo, afinal, que o poeta procurava ao confiar nas forças mágicas? Não era isso que estava em jogo na luta consigo mesmo? Uma luta entre o sentido e o sem sentido que tomava a forma teológica? Ainda de Convergência, o poema Texto de consulta:
O juízo final
Começa em mim
Nos lindes da
Minha palavra.
O valor das palavras
A isso podemos acrescentar então outra pergunta: que valor têm hoje as palavras? De que maneira seu uso e circulação contribuem para um mundo desencantado e como poderemos novamente encontrar justiça entre palavras e coisas? Pois nossa época tornou a palavra tão instrumental que ela se transformou, mais que em qualquer outro momento histórico, ideologia por excelência. Se a linguagem já foi uma forma de existência, hoje delegamos esse modo de vida a máquinas que nos alienam da linguagem. Mais uma vez, é em cada um de nós, nos lindes de nossa palavra, que o juízo final começa. E em nós outra luta com a palavra se elabora. Retomo a pergunta: por que ler a poesia de Murilo Mendes hoje? Outro trecho de Texto de consulta mostra o poeta em luta com a linguagem, mas também em reconciliação com ela. É com esse trecho, à maneira muriliana de um enigma, que procuro responder à pergunta.
A palavra nasce-me
fere-me
mata-me
coisa-me
ressuscita-me