Nos caminhos da memória

Em "Madalena, Alice", Bia Barros cria uma proposta estética para narrar os horrores do Alzheimer
Bia Barros, autora de Madalena, Alice
01/07/2020

Uma história, duas narradoras. É assim que a cearense Bia Barros encontra um jeito de narrar a experiência de ter — e de se viver com alguém que tem — o Alzheimer. Em Madalena, Alice, a voz da mãe doente se encontra com a filha cuidadora, e é no espaço intermediário que o leitor encontra o sofrimento dessa experiência.

Na teoria literária, a técnica tem um nome bonito: visão estereoscópica. Nada mais é do que a existência de mais de um narrador para um mesmo evento, o que permite que o leitor tenha acesso aos diferentes pontos de vista de um mesmo acontecimento e perceba o quanto as percepções do que aconteceu podem ser diferentes de acordo com o personagem. Alguns exemplos conhecidos são O quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell, ou ainda O alforje, de Bahiyyih Nakhjavani.

No caso da obra de Barros, o leitor acompanha os relatos das duas personagens durante os anos mais difíceis em que Alice, a filha, cuidou de Madalena, a mãe com Alzheimer.

A estética do Alzheimer
O primeiro relato que lemos é o da mãe — uma espécie de delírio em fluxo de consciência que mistura tempos, pessoas e realidades. O grande impacto é que, já no primeiro parágrafo, Madalena está em um cômodo que não reconhece, e se vê como uma criança raptada ou ao menos mantida como refém sem entender o porquê (“Tudo é escuro nesse cativeiro. Onde estão a mamãe e o papai? Tudo é ausência nesse lugar. Onde estou?”).

Aos poucos surgem novas pessoas, novos ambientes, e entendemos o quão plástico esse mundo na realidade é. Esse fluxo de consciência nos permite encontrar diversas contradições que são explicadas pela passagem do tempo que a personagem parece não perceber: a presença ou ausência do marido; a juventude dela com as irmãs ou o peso de ter seus próprios filhos; o amor que sente pelos membros da família e não ser capaz de reconhecer a filha que cuida dela diariamente.

Com essa narrativa em primeira pessoa, Barros procura uma proposta estética para narrar a experiência do esquecimento. Madalena ainda é capaz de se lembrar da sua família, dos seus afetos, de suas dores. O que parece não ter é a noção temporal de suas lembranças, o encadeamento das ações ou a capacidade de acessar isso quando necessário. Quando a filha aparece, por exemplo, para lhe dar seus remédios, é incapaz de reconhecer “a moça de cabelos vermelhos”, ainda que, no parágrafo anterior, relate o amor que sente em relação à filha.

No meio dessa narrativa, o leitor consegue acessar um certo grau de realidade (estou aqui chamando de realidade o mundo fora da doença) principalmente pela relação de Madalena com outras personagens, momentos em que há um ponto de encontro entre a doença e o que há fora dela. Acompanhamos também os pedidos constantes de socorro de Madalena para sua Santa Maria — que, depois de um tempo, passa a responder, ajudando a devota a entender a sua realidade e o que está acontecendo ao seu redor.

O que impressiona dessa parte da narrativa é a infantilização pela qual passa a personagem — e como isso é narrado. Da filha (que se torna uma moça ou ainda mulher) que lhe dá remédios e comida, numa clara inversão de papéis, até a constante lembrança da infância e a busca pelos pais, Madalena deixa de ser a mulher que se mudou com os filhos do Ceará para São Paulo para escapar de uma vida de injustiças e buscar uma qualidade maior de vida. Deixa de ser a mulher que segurou as pontas da família quando foi abandonada pelo marido. De certa forma, se torna uma pessoa sem identidade definida para si mesma, passando de cuidado em cuidado.

O outro lado
Quando se chega à metade do livro, temos acesso ao outro lado. Bem literalmente. A mancha do livro fica de ponta-cabeça e é necessário virar fisicamente o livro para se ter acesso ao relato de Alice, a filha.

E aqui nos deparamos com uma escrita drasticamente diferente. O texto é um desabafo em forma de monólogo de uma mulher que despeja as mágoas de anos quase sem respirar entre os parágrafos.

A palavra que para mim resume a vida de Alice é frustração. A personagem tenta, ainda jovem, se afastar da vida que via a mãe viver — uma vida sofrida e pobre, de muitas batalhas. Estuda, ingressa em um mestrado e se vê de volta na vida familiar quando a doença da mãe é diagnosticada e, numa atitude machista típica, o cuidado recai sobre a filha, e não o filho (que, aliás, morava com a mãe no momento do diagnóstico, mas pega todo o dinheiro que consegue e deixa mãe e irmã em uma situação precária).

Acompanhamos então o relato de tudo que Alice precisou fazer para cuidar da mãe durante os anos seguintes. Todas as dificuldades práticas, financeiras e afetivas que passou e suas saídas (uma delas, inclusive, se fantasiar de santa para tentar fazer com que mãe entenda a realidade).

E, dolorosamente, acompanhamos o processo em que a filha também perde sua identidade — passa a morar na casa da mãe, perde seus empregos por não conseguir realizá-los como deveria (por conta da mãe), precisa sair de casa, não consegue mais se relacionar de maneira saudável com outras pessoas. E não é nem mais vista como filha — até essa identidade, dependente da percepção da mãe, é perdida.

Em me vi só, no meio dos teus fantasmas, só no meio da tua loucura, só no inferno da tua doença. Chegou um momento, mãe, em que eu não sabia mais se existia mesmo ou se eu era apenas um delírio seu. Eu passava dias mergulhada nos seus surtos e me perdi no teu imenso vazio.

A terceira margem
Quando terminamos de ler o relato de Alice, voltamos para o meio do livro — aquele mesmo lugar onde chegamos quando terminamos o relato de Madalena, aquela inversão que nos fez virar o livro.

Essa página, com um elemento gráfico circular, opera como uma terceira margem — o espaço em que as narrativas se encontram, tanto o fim quanto o começo. E esse intervalo conta muito: conta, principalmente, que a história narrada está entre esses dois relatos, ou na soma deles.

O que Barros mostra é que, ainda que o Alzheimer acomete só uma pessoa e não é contagioso, não é só ela que sofre seus sintomas. É uma doença que chega nos outros, que faz um pequeno coletivo sofrer com seus sintomas. E é entre essas experiências que está a verdadeira doença.

 

Madalena, Alice
Bia Barros
Nós
176 pgs.
Bia Barros
Nasceu em Fortaleza (CE). Cursou Ciências Sociais e Jornalismo em São Paulo e Documentário e Roteiro na Escuela Internacional de Cine y TV, em Cuba. Madalena, Alice é seu primeiro livro.
Gisele Eberspächer

É jornalista e pesquisadora nas áreas de cultura e identidade.

Rascunho