No rastro do astro

Em "O ano do comenta", de Maria Brant, três vozes femininas atravessam luto, silêncio e memória sob a passagem do cometa Halley
Maria Brant, autora de “O ano do cometa” Foto: Pablo Saborido
01/08/2026

Existe mais de um modus operandi para observarmos um céu repleto de estrelas. O primeiro deles é sair dos grandes centros urbanos, cuja grande quantidade de luzes dificulta a observação das estrelas, dos planetas e de outros corpos celestes em sua imensidão cósmica. Quanto mais nos afastamos da urbe, em direção ao interior e a espaços com pouca luminescência, mais nítido se torna aquilo que está acima de nossas cabeças. Outro modo de enxergar o céu ocorre quando o sujeito se depara com um meteoro que, ao entrar em contato com a atmosfera terrestre, produz um clarão que ilumina tudo ao redor, revelando esse objeto vindo dos confins do universo.

Diante disso, dois caminhos se apresentam: o primeiro é se afastar da cidade para ver o universo com mais clareza; o segundo ocorre quando um astro adentra a atmosfera e traz consigo a luz. Mas há algo em comum entre essas duas formas de observar o céu. Diante da imensidão escura do universo em expansão, são os corpos celestes que produzem os pontos de luz capazes de romper essa escuridão.

É sobre essa luz que rompe a escuridão do céu noturno que Maria Brant constrói seu romance de estreia, O ano do cometa. A história gira em torno de três vozes femininas que vivem um mesmo momento de tensão: a morte de Peu (Pedro), tio de duas narradoras e pai da terceira. Ambientada em 1986, ano em que o cometa Halley passou pelas proximidades da Terra, a narrativa acompanha as transformações provocadas por essa perda. Conta-se às crianças que a causa da morte de Peu foi o suicídio. Assim, esse acontecimento catalisa mudanças nas relações e na rotina familiar.

Para Íris e sua mãe, a morte representa um luto pela proximidade que tinham com ele. Para Rosa, filha de Carlos — irmão gêmeo de Peu e diplomata —, significa o retorno ao Brasil depois de uma vida no exterior. A terceira narradora é uma personagem cuja identidade demora a ser revelada. Transitando entre diferentes temporalidades, ela rememora a infância e mostra como a morte do pai instaurou uma ausência que atravessa toda a sua vida, além de despertar questionamentos sobre as circunstâncias dessa morte. Apenas ao final do romance o leitor compreende a relação dessa família com as lutas e reivindicações contra a ditadura militar brasileira.

Luz na escuridão
Ao longo do romance, as três narradoras se cruzam e contam momentos diversos de uma mesma história. Dois acontecimentos importantes estruturam a obra: a passagem do cometa Halley, que situa a trama em 1986, e a morte de Peu. Assim como o cometa ilumina o céu com sua cauda luminosa, a narrativa vai lançando pequenas luzes sobre aquilo que está escuro no romance. A morte do tio de Íris e Rosa é um evento nebuloso e o leitor percebe que os adultos criam versões dos acontecimentos.

Na parte de Íris, acompanhamos as afetuosas rememorações que a sobrinha faz do tio e sua relação com a mãe, abalada pela perda do irmão. Carlos vive fora do Brasil, e a distância contribui para o afastamento da família. Íris, por sua vez, convive de forma harmoniosa com o pai e os avós paternos, descendentes de italianos. Assim, Íris é uma personagem que deseja constantemente a volta do tio. Essa negação decorre da incompreensão sobre o que leva uma pessoa a tirar a própria vida — sentimento compreensível para uma criança.

[…] Íris não viu o Peu morto, o caixão estava fechado, e às vezes ela pensa que se enganaram, que o Peu está vivo e foi um outro que caiu da janela do apartamento, e que um dia desses ele vai aparecer.

Íris é uma personagem que tenta conviver com a falta e com a fantasmagoria da ausência do tio. Sua figura é rememorada com frequência por meio das lembranças e dos flashbacks.

Rosa, por outro lado, está inserida numa outra rede de versões e narrativas, mas não questiona o que há de estranho ao seu redor. Ela não aceita a mudança para o Brasil, sente falta dos amigos que deixou nos Estados Unidos e percebe as rachaduras existentes entre seus pais. O trabalho de Carlos como diplomata, o escritório montado no anexo da casa e sua relação confusa com a família de Íris sugerem que existe algo oculto nessa história. O leitor também percebe esse vazio, mas ainda não possui elementos suficientes para lançar luz sobre esses fatos obscuros. Essa sensação se intensifica quando Rosa entrevista um político chamado Manuel, que se refere a Carlos por outro nome:

Ele toma mais um gole de suco e se vira para Rosa.
“Você é filha do Walter, né?”, e o olhar dele demora de novo no rosto dela.
Rosa explica que não, que o nome do pai dela é Carlos.
“Eu sei. Tô falando do… apelido, digamos assim. Fala para ele que o Tonico mandou um abraço.”

Sombras familiares
O romance de Brant é um jogo de luz e sombra. A terceira narradora, cuja voz aparece em itálico, é Vi (Violeta), personagem que surge de forma escorregadia nas seções narradas por Íris e Rosa. Quando assume a narração, acompanhamos uma mulher já adulta revisitando sua infância e refletindo sobre como a morte de Peu modificou tudo para ela. A narrativa estabelece um diálogo entre tragédias pessoais e coletivas: o desastre de Chernobyl, o acidente com a espaçonave Challenger, o fim da Ditadura Militar, os desaparecidos políticos e os silenciamentos impostos pelo regime aparecem entrelaçados ao drama familiar. Nesse romance, a catástrofe se manifesta tanto na escala íntima quanto na histórica. Tudo adquire uma dimensão grandiosa, do micro ao macro. Afinal, mesmo diante da imensidão do universo, um cometa nunca deixa de ser brilhante.

Em seguida, a covid-19 também é trazida à tona, assim como a relação de Vi com a filha, as mortes em massa no Brasil e a intensa polarização política que marcou esse período da nossa história recente. No presente da narrativa, a morte do Carlos faz com que Vi confronte a família, evidenciando o modo como continuam a silenciá-la. Esse apagamento deságua no modo como todos se comportam com ela, instaurando um distanciamento que atravessa os vínculos familiares.

É nesse momento que o leitor percebe que aquilo que está por trás da morte de Peu afeta a relação de Vi com sua família paterna. À medida que sua narrativa avança, os ecos da ditadura militar são cada vez mais evidentes. O relato de um homem que esteve preso no Dops e conheceu Pedro lança uma nova luz sobre os acontecimentos e permite compreender Vi como a personagem que a cauda do cometa precisa iluminar: estamos diante da filha que perdeu o pai para a violência da ditadura.

Foi o Pedro Blum que me ensinou. Ele ficou comigo no DOPS. Eu era um moleque, não tinha nem vinte anos, não sabia nada de nada. Tô falando dele aqui porque ele não tinha nome de guerra, foi preso por engano, no lugar do irmão gêmeo, agora já morreu. Ele era um homem bonito, meio Paul Newman, assim, sabe, mas isso eu só fui saber muito depois, quando encontrei com ele por acaso num boteco.

Rastro revelado
A imagem do cometa atua como elemento primordial para compreender o romance e, na minha leitura, mobiliza os caminhos que a narrativa percorre. Assim como esse astro passa pela Terra sem nela colidir, sua passagem é importante para perceber que a iluminação acontece de forma gradativa. O romance se instaura nesse lusco-fusco. Não há um grande clarão de uma vez só. A cauda luminosa do cometa ilumina, pouco a pouco, aquilo que encontra em seu percurso. Íris, Rosa e Vi são afetadas por esse movimento de revelação. Assim como, em 1910, circularam falsas previsões sobre os efeitos da passagem do cometa Halley, também nesta família proliferam versões, silêncios e histórias construídas para ocultar a verdade.

Ao optar por vozes narrativas infantis durante boa parte do romance, Maria Brant poderia cair num pastiche de estereótipos sobre a infância. Felizmente, isso não acontece. A autora faz da omissão de informações às crianças e do uso de eufemismos um princípio de construção narrativa. O romance é construído justamente sobre essas fendas e crateras — como as de um cometa —, presentes nas entrelinhas dos discursos e das versões contadas pelos pais de Íris e Rosa. O cotidiano infantil é narrado em toda a sua aparente simplicidade, mas, a todo momento, algo dilui a mágica infantil: o luto de Íris, o deslocamento vivido por Rosa e os acontecimentos nebulosos que cercam a morte de Peu convivem com os ecos do fim da ditadura.

Brant cria um romance que compreende a catástrofe não apenas como destruição, mas também como um acontecimento capaz de produzir silêncios e versões conflitantes. É justamente nesse espaço de incerteza que a narrativa se move, investigando aquilo que permanece no escuro. Tudo isso é articulado numa trama bem costurada, sustentada pelas diferentes temporalidades, pelas especificidades de cada voz narrativa e pela imagem do cometa, que atravessa o romance e deixa marcas em seu percurso. Seguir o rastro desse astro é acompanhar, pouco a pouco, a revelação daquilo que permaneceu oculto. Ágil, imagético e sensível, O ano do cometa marca uma estreia extremamente promissora.

O ano do cometa
Maria Brant
Fósforo
160 págs.
Maria Brant
Nasceu em São Paulo (SP), em 1976. É doutora em relações internacionais pela USP e mestra em direitos humanos pela London School of Economics. O ano do cometa é seu romance de estreia.
Douglas Sacramento

É professor, crítico literário e doutor em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA).

Rascunho