Era um dia de semana qualquer. Na cozinha, um homem prepara o almoço para uma criança pequena, ainda na idade de comer sozinha, sentada em um cadeirão.
Somos guiados pelos pensamentos desta menina, que nos conta:
Tem dias que a mamãe sai e demora para voltar. O que ela fica fazendo?
A ausência da mãe se revela aos poucos. Percebemos que não é ela quem cuida da filha pela manhã e que sua presença não se faz notar em nenhum dos espaços da casa. Enquanto isso, a menina se pergunta: onde ela pode estar?
Pilotando uma nave e explorando o espaço? No fundo do mar, falando com sereias? Escalando montanhas muito altas? Cuidando de um jardim lindo ou andando em um grande labirinto?
Seu repertório é povoado de fantasia e, para justificar a saudade que ela sente, só resta acreditar que a mãe está vivendo grandes aventuras.
Mundos fantásticos
Para ela, todos esses lugares são vibrantes, coloridos e com seres fantásticos. No espaço, sua mãe encontra um extraterrestre verde de três olhos e, no fundo do mar, ela troca segredos com uma sereia. Seu jardim é tão exuberante que as flores gigantes fazem a mãe parecer menor que a própria filha. E, claro, ela não cuida desse lugar sozinha: leões, coelhos e criaturas mágicas de chapéus de bolinhas também vivem por ali.
O livro alterna entre realidade e fantasia e nos oferece camadas de leitura. Em outra cena da vida cotidiana, o pai trabalha no computador enquanto a menina brinca ao seu lado sentada com seus brinquedos.
Os personagens fantásticos reaparecem sempre apresentados na escala com que a criança percebe o mundo. Tudo é grande e surpreendente visto da altura de quem ainda come sozinha em um cadeirão.
Volta garantida
Enquanto ela e o pai passam o dia realizando atividades rotineiras, como brincar, comer, tomar banho e trocar abraços, a mãe, em sua imaginação, cuida de animais doentes, dirige um trem ao redor do mundo e vive inúmeras aventuras extraordinárias. Ainda assim, em nenhum momento há dúvida: a menina sabe que sua mãe voltará.
E ela volta. Depois de trabalhar o dia todo fora de casa.
Leitura composta
Para onde mamãe vai quando ela não está aqui? é um livro ilustrado de Carolina Moreyra e Natália Gregorini.
A estrutura do livro ilustrado é palavra-imagem-design. Juntos, esses elementos amalgamados geram sentido para a narrativa. A página dupla é considerada uma unidade de medida e, nela, existem muitas formas de equacionar esses três elementos estruturais.
A ambientação comunica um sentido de tempo e lugar. É por meio dela que sabemos que é hora do almoço, que a criança está em casa, segura e bem cuidada, e que as horas passam de acordo com suas atividades e com os espaços que ocupa na casa: na cozinha, almoçando; no escritório do pai, brincando; no banheiro, tomando banho; e, mais tarde, de pijama.
Texto visual
O texto de Carolina é cirúrgico. Inicialmente, apresenta perguntas e hipóteses sobre o paradeiro da mãe, sem se sobrepor às imagens.
O encontro entre o texto de Carolina Moreyra e as imagens de Natália Gregorini resulta em uma narrativa sensível sobre trabalho, infância e as experiências das mulheres. As ilustrações de Natália se destacam pela capacidade de traduzir visualmente a lógica infantil, transitando entre o cotidiano e o imaginário. Com cores vibrantes, personagens fantásticos e brincadeiras de escala e proporção, suas imagens ampliam a narrativa e reproduzem o olhar curioso e inventivo da criança.
A obra explora a ausência temporária da mãe, a inversão de papéis no cuidado dos filhos e a riqueza da imaginação infantil, que transforma a espera em uma sucessão de mundos fantásticos.