Mundos da espera

Em "Para onde a mamãe vai quando ela não está aqui?", imaginação e afeto transformam a ausência materna em mundos possíveis
Carolina Moreyra, uma das autoras de “Para onde mamãe vai quando ela não está aqui?”
01/09/2026

Era um dia de semana qualquer. Na cozinha, um homem prepara o almoço para uma criança pequena, ainda na idade de comer sozinha, sentada em um cadeirão.

Somos guiados pelos pensamentos desta menina, que nos conta:

Tem dias que a mamãe sai e demora para voltar. O que ela fica fazendo?

A ausência da mãe se revela aos poucos. Percebemos que não é ela quem cuida da filha pela manhã e que sua presença não se faz notar em nenhum dos espaços da casa. Enquanto isso, a menina se pergunta: onde ela pode estar?

Pilotando uma nave e explorando o espaço? No fundo do mar, falando com sereias? Escalando montanhas muito altas? Cuidando de um jardim lindo ou andando em um grande labirinto?

Seu repertório é povoado de fantasia e, para justificar a saudade que ela sente, só resta acreditar que a mãe está vivendo grandes aventuras.

Mundos fantásticos
Para ela, todos esses lugares são vibrantes, coloridos e com seres fantásticos. No espaço, sua mãe encontra um extraterrestre verde de três olhos e, no fundo do mar, ela troca segredos com uma sereia. Seu jardim é tão exuberante que as flores gigantes fazem a mãe parecer menor que a própria filha. E, claro, ela não cuida desse lugar sozinha: leões, coelhos e criaturas mágicas de chapéus de bolinhas também vivem por ali.

O livro alterna entre realidade e fantasia e nos oferece camadas de leitura. Em outra cena da vida cotidiana, o pai trabalha no computador enquanto a menina brinca ao seu lado sentada com seus brinquedos.

Os personagens fantásticos reaparecem sempre apresentados na escala com que a criança percebe o mundo. Tudo é grande e surpreendente visto da altura de quem ainda come sozinha em um cadeirão.

Volta garantida
Enquanto ela e o pai passam o dia realizando atividades rotineiras, como brincar, comer, tomar banho e trocar abraços, a mãe, em sua imaginação, cuida de animais doentes, dirige um trem ao redor do mundo e vive inúmeras aventuras extraordinárias. Ainda assim, em nenhum momento há dúvida: a menina sabe que sua mãe voltará.

E ela volta. Depois de trabalhar o dia todo fora de casa.

Leitura composta
Para onde mamãe vai quando ela não está aqui? é um livro ilustrado de Carolina Moreyra e Natália Gregorini.

A estrutura do livro ilustrado é palavra-imagem-design. Juntos, esses elementos amalgamados geram sentido para a narrativa. A página dupla é considerada uma unidade de medida e, nela, existem muitas formas de equacionar esses três elementos estruturais.

A ambientação comunica um sentido de tempo e lugar. É por meio dela que sabemos que é hora do almoço, que a criança está em casa, segura e bem cuidada, e que as horas passam de acordo com suas atividades e com os espaços que ocupa na casa: na cozinha, almoçando; no escritório do pai, brincando; no banheiro, tomando banho; e, mais tarde, de pijama.

Texto visual
O texto de Carolina é cirúrgico. Inicialmente, apresenta perguntas e hipóteses sobre o paradeiro da mãe, sem se sobrepor às imagens.

O encontro entre o texto de Carolina Moreyra e as imagens de Natália Gregorini resulta em uma narrativa sensível sobre trabalho, infância e as experiências das mulheres. As ilustrações de Natália se destacam pela capacidade de traduzir visualmente a lógica infantil, transitando entre o cotidiano e o imaginário. Com cores vibrantes, personagens fantásticos e brincadeiras de escala e proporção, suas imagens ampliam a narrativa e reproduzem o olhar curioso e inventivo da criança.

A obra explora a ausência temporária da mãe, a inversão de papéis no cuidado dos filhos e a riqueza da imaginação infantil, que transforma a espera em uma sucessão de mundos fantásticos.

Para onde mamãe vai quando ela não está aqui?
Carolina Moreyra e Natália Gregorini
Biruta
40 págs.
Carolina Moreyra
Nasceu em Olinda (PE), cresceu no Rio de Janeiro (RJ) e vive em São Paulo (SP). Filha, neta e bisneta de mulheres trabalhadoras, desenvolveu desde cedo reflexões sobre trabalho, cuidado e os papéis sociais atribuídos às mulheres, temas presentes em sua obra. É escritora, editora e professora de cursos voltados ao texto em livros ilustrados. Este livro nasceu de seu desejo de retratar as diferentes experiências das mulheres que trabalham, valorizando suas conquistas, desafios e formas de realização pessoal.
Rita M. da Costa Aguiar

É editora de arte, especialista em livros para infância.

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