Monumental Simenon

A obra de Georges Simenon transforma o romance policial ao investigar, com elegância e precisão psicológica, os paradoxos da alma humana
Georges Simenon por Ramon Muniz
01/08/2026

Há que se ter sempre muito cuidado com os superlativos — assim como com certos adjetivos — ao se dimensionar uma obra literária, pois grande é o risco de se cair no vício da hipérbole. Sem nenhum exagero, “monumental” pode ser usado em relação a A comédia humana do francês Honoré de Balzac e os mais de 90 romances que a compõem. Igualmente apropriado é associar-se “gigantesca” à obra da britânica Barbara Cartland, autora não muito comentada de mais de sete centenas de romances e frequentadora assídua da lista dos dez autores mais vendidos do planeta. “Monumental” e “gigantesca”, por sua vez, são perfeitamente aplicáveis à produção literária do belga Georges Simenon, que também integra a lista dos dez mais e nela figura como o único representante da língua francesa.

Nascido a 13 de fevereiro de 1903, em Liège, e morto a 4 de setembro de 1989, em Lausanne, Simenon assinou quase duas centenas de romances com seu nome e outras quase duas centenas de novelas e narrativas sob vinte e sete pseudônimos diferentes, além de contos e textos jornalísticos, em mais de cinquenta anos de atividade. Estima-se que sua obra ficcional chegue aos quatrocentos livros publicados, sem dúvida uma das mais extensas já produzidas na história da literatura. Expoente do gênero policial, Simenon, como não poderia deixar de ser, tem seu detetive cativo, o comissário Jules Maigret, que protagoniza nada menos do que setenta e cinco romances e vinte e oito contos. E, assim como acontece muitas vezes com outra famosa integrante da lista dos dez mais, a inglesa Agatha Christie, o belga já foi alvo do menosprezo que a crítica literária insiste às vezes em dirigir à literatura policial por considerá-la um subgênero menor. Nada mais falso. Entre os leitores e entusiastas de Simenon estão Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Ian Fleming, John le Carré, André Gide e outros de igual quilate.

(Com o perdão dos parênteses e da autocitação, este articulista lembra um trecho de outro artigo por ele assinado aqui no Rascunho há mais de uma década: ao final da conferência A biblioteca imaginária, do argentino Alberto Manguel, realizada em Porto Alegre em novembro de 2014, o palestrante é indagado sobre sua relação com a literatura policial, gênero que sempre teve grandes mestres entre seus apreciadores — um deles, Jorge Luis Borges, seu conterrâneo mais ilustre —, ao mesmo tempo em que boa parte do público e da crítica lhe torce o nariz com o desdém devido a algo tão menor que chega por vezes a ser chamado de subliteratura. Manguel tem uma resposta pronta e certeira: desmerecer o gênero é renegar Crime e castigo, Macbeth, Hamlet e várias outras obras capitais da literatura universal. E vai além: há quem sustente que todo romance é, no fundo, um romance policial. O leitor lê porque quer desvendar a história, quer saber o que vai acontecer; a única diferença, como aliás bem assinalou Luis Fernando Verissimo, é que no romance policial há crime e corpo assassinado.)

Projeto editorial
Num ambicioso projeto a ser levado a cabo no decorrer de dez anos, a Editora da Unesp propõe-se, desde o final de 2025, a publicar nada menos do que toda a vasta obra ficcional de Georges Simenon, incluindo títulos que estão há muito fora de catálogo e outros até então inéditos no Brasil. Como se pode imaginar, não é coisa pouca. Quatro alentados volumes, cada qual contendo quatro livros publicados originalmente entre 1931 e 1933, deram a largada ao projeto. E vale registrar que essas mais de duas mil páginas não contêm a totalidade das primeiras obras assinadas por Simenon em menos de três anos, o que por si só já comprova sua extraordinária fecundidade. Mais importante do que a grandeza dos números, contudo, é o panorama que o conjunto proporciona: esse começo traz os alicerces de uma obra portentosa e nos permite vislumbrar o caminho que será trilhado pelo escritor nas obras posteriores.

Os dois primeiros volumes, intitulados Comissário Maigret, reúnem oito romances protagonizados pelo detetive mais ou menos na ordem cronológica em que foram publicados. O personagem nasce em Pietr, o letão, que abre a coletânea, na pele de um comissário da Polícia Judiciária de Paris que, a exemplo do detetive belga Hercule Poirot, criação genial de Agatha Christie, usa um aguçado poder de observação e a psicologia para resolver seus casos. Maigret não é adepto dos métodos investigativos peculiares a Sherlock Holmes de Conan Doyle, o mais famoso de todos os detetives da ficção, que vira um cão farejador quando sai à cata de evidências e provas que levem à elucidação de um crime; mas dele Maigret surrupia um inseparável cachimbo e um sobretudo que lembra às vezes a indefectível capa do antecessor inglês.

As histórias de Maigret não contam com um narrador exclusivo como o Dr. Watson de Holmes, nem com um ajudante de luxo como o capitão Hastings de Poirot, duas figuras que abriram possibilidades narrativas fascinantes aos respectivos autores. Poirot já está aposentado da polícia belga quando nasce como personagem e Holmes nunca atuou como policial; ambos ganharam fama como detetives particulares, esses que têm o privilégio de poder escolher seus casos. Maigret, por sua vez, é um típico investigador de polícia retratado em plena atividade, tendo de prestar contas de seu trabalho a superiores em casos em que é chamado a atuar e que, na maioria das vezes, não têm o glamour das histórias vividas por quem pode pagar a fatura pelos serviços de um grande detetive. Diferentemente de dois convictos celibatários, Poirot e Holmes, Maigret tem uma esposa que o espera em casa com o jantar pronto, não importando a hora em que o marido chegue nem se ele de fato chegará. Excelente cozinheira e dona de casa dedicada, Louise é presença constante nas histórias, com o detalhe curioso de o marido sempre se referir a ela como Madame Maigret, forma talvez de reverenciar o apoio emocional que a companheira lhe presta.

Fórmula própria
É comum o gênero policial valer-se de fórmulas e estratégias narrativas que se repetem de obra para obra, o que, se por um lado facilita a concepção em série de histórias, por outro torna mais difícil ao autor o alcance da originalidade. Dito de outra maneira, o leitor abre um livro policial sabendo de antemão o que irá encontrar, mas sem imaginar qual será a novidade da vez, aquilo que o irá seduzir e surpreender no volume que tem em mãos; ao autor compete satisfazer os dois quesitos: entregar o que o leitor espera, mas embalado para lhe causar surpresa. De certa forma — e como já se mencionou há pouco —, essa é a expectativa de qualquer leitor diante de qualquer obra de ficção. Na literatura policial, contudo, esse aspecto tem uma relevância maior. E, neste contexto, a criação de um detetive carismático é meio caminho andado: o leitor se acostumará a vê-lo em ação como se reencontrasse um velho amigo a cada nova história por ele protagonizada.

Comparado a seus colegas ilustres já citados, o Comissário Maigret chega a ser um tipo comum, dado a poucas excentricidades e sem muito charme. Seu carisma está na maneira como trabalha para elucidar seus crimes, valendo-se de uma rara perspicácia que ele exerce em diferentes situações e ambientes sociais. Com os casos de Maigret, Simenon começa a exercitar algo que desembocará nos romans durs, considerados a parte mais importante de sua obra: a motivação psicológica dos personagens, em que o Whodunnit? (Quem fez isso?) do jargão do gênero policial amplia-se até chegar à pergunta: “por que uma pessoa age de determinada maneira?”. Simenon começou a trabalhar muito jovem como jornalista em Liège, atuando na reportagem policial e tendo contato com pessoas de diversas origens sociais, o que, sem dúvida, o influenciou desde as primeiras escolhas literárias.

Escrito em 1929 e publicado dois anos depois, Pietr, o letão, primeiro livro que Simenon assinou com seu próprio nome, tem uma trama complexa que começa quando a polícia recebe a informação de que um famoso criminoso internacional, o Pietr do título, está chegando a Paris. Maigret se põe à caça do bandido e então descobre que um homem com sua exata descrição é encontrado morto num trem, enquanto outro homem, idêntico ao primeiro, está hospedado num hotel de luxo. Aqui Simenon mostra-se menos interessado em resolver o mistério à maneira tradicional das tramas policiais e mais preocupado em explorar as ambiguidades criadas pela dupla identidade do vigarista. Embora não seja considerado um de seus melhores títulos, o nascimento de Maigret e de Simenon na mesma obra, além da inauguração de um estilo peculiar que será paulatinamente aperfeiçoado nas obras seguintes, garantem a importância do romance.

Dupla identidade
O finado Sr. Gallet também usa a ambiguidade como matéria-prima. O terceiro livro publicado por Simenon com seu nome traz a história do misterioso assassinato de um caixeiro-viajante que Maigret descobre não ter sido quem ele dizia ser. De novo, uma trama mirabolante: a vida dupla do personagem, o concurso de falsas identidades e de segredos escabrosos. A investigação conduzida por Maigret se aproxima em alguns momentos de uma engenhosidade digna de um Sherlock Holmes, mas novamente a psicologia ganha o papel de destaque na elucidação do mistério.

Nesse ponto, o leitor chega a uma singela conclusão: ninguém mais escreve como Simenon. Quase cem anos depois de publicadas, é óbvio que as tramas policiais já não fariam hoje o sentido que faziam quando foram concebidas. Naquele tempo não havia teste de DNA, câmeras de segurança, GPS e outras ferramentas que, aliás, ajudariam a resolver com facilidade muitos dos casos mais intrincados e célebres da literatura. Mas, junto com esse anacronismo temático, por assim dizer, vem outro — estilístico: Simenon escreve com rara elegância, um atributo muitas vezes em falta na literatura contemporânea:

Seus gestos eram tão precisos como os de uma manicure, e ele só se inquietava com as placas de vidro que se cobriam de manchas escuras, de contornos irregulares. Maigret estava inquieto sobretudo porque não tinha nada a fazer, ou melhor, preferia nada tentar antes de examinar os papéis queimados na noite do crime. E, enquanto percorria o caminho onde a folhagem dos carvalhos fazia dançar manchas de sombra e de luz sobre seu corpo, voltava sem cessar às mesmas ideias.

Em Um crime na Holanda, Maigret recebe a contragosto a missão de investigar o assassinato de um professor numa pequena cidade daquele país. Um inesperado obstáculo para nosso detetive, um tipo que não poderia ser mais genuinamente francês, é a enorme diferença cultural que terá de enfrentar numa terra de hábitos estranhos para ele e cujo idioma lhe é totalmente desconhecido. Encerrando o primeiro volume, A cabeça de um homem, talvez o melhor dos quatro. Valendo-se da fama conquistada na polícia, Maigret consegue de um superior uma permissão especial para orquestrar a fuga da prisão de um condenado à morte que ele acredita ser inocente do crime que lhe é imputado. Depois de um início sombrio, lindamente narrado, que chega a lembrar o conto O muro, de Sartre, publicado alguns anos depois, a história se desenrola com muitas reviravoltas até chegar ao embate de Maigret com um ardiloso adversário que parece estar à sua altura.

Cenários diversos
Os quatro romances do segundo volume apresentam uma notável diversidade temática. Em O cavalariço da Providence, o assassinato de uma mulher ocorrido numa eclusa tem como cenário o universo da navegação fluvial no interior da França. Providence é o nome de uma balsa; o cavalariço, o encarregado de atender os cavalos que a fazem se mover. O mistério que envolve o crime chega a ser secundário em relação ao da engenharia de um sistema com o qual o leitor urbano contemporâneo não está familiarizado. Apesar do desafio, é um exercício interessante visitar esse mundo.

O cachorro amarelo e O enforcado de Saint-Pholien estão entre as mais famosas histórias de Maigret. Na primeira, uma pequena cidade portuária é assombrada por uma série de atentados e pela aparição de um misterioso cão. O tom sombrio da narrativa aproxima-se do gótico ao estilo de Edgar Allan Poe. O enforcado… também é cinzento, agora em função de seu argumento, o caso de um suicídio pelo qual Maigret se julga ter sido o responsável e o qual, anos depois, retorna a ele, dando-lhe a oportunidade de conhecer as verdadeiras motivações do suicida. São duas histórias que consolidam o estilo de Maigret como perscrutador da mente dos envolvidos nos casos que investiga.

Fechando o segundo volume, Inferno a bordo traz o caso da morte do capitão de um barco pesqueiro cuja solução obriga Maigret a penetrar no fechado universo dos pescadores da Terra Nova, como era conhecida a fria e tempestuosa costa do Canadá no Atlântico Norte.

O terceiro e quarto volumes, ambos intitulados Romances e outros escritos, reúnem oito narrativas até agora inéditas em português. Com elas é possível observar um movimento paulatino do gênero estritamente policial em direção ao thriller psicológico. De novo chama a atenção aqui a diversidade de temas e cenários em que estão ambientadas essas histórias. Na primeira delas, A pousada da Alsácia, o sumiço de uma importante quantia em dinheiro do quarto de um hóspede da pousada alsaciana leva a polícia a suspeitar que o caso tem ligação com outro ainda não resolvido. Num canto isolado e bucólico da Alsácia, onde a cultura francesa se mescla à germânica, a presença de visitantes excêntricos que destoam brutalmente dos pacatos moradores locais é muito bem explorada pela prosa elegante de Simenon. Já em O asno vermelho encontramos o jovem jornalista Jean Cholet terminando a noite no cabaré que dá título ao romance depois de ter bebido todas numa festa. A noitada trará consequências profundas para a vida do rapaz e dará a Simenon a possibilidade de vasculhar com sua lupa privilegiada os paradoxos da alma de um ser humano absolutamente comum.

Em O passageiro do Polarlys encontramos um enigma policial clássico: um elenco de tipos estranhos se encontra num cargueiro que viaja em direção à Noruega; um crime acontece a bordo, e todos são suspeitos. Vários caminhos e consequentes soluções se apresentam para que se desvende o mistério, mas a verdade estará convenientemente escondida até o fim. Em O homem de Londres, um insuspeito faroleiro testemunha um crime e, em consequência, vê-se em poder de uma mala com dinheiro suficiente para lhe garantir uma vida nova. Mas a frieza do impulso inicial, que o faz esconder o que viu e o que lucrou, vai aos poucos dando lugar a inquietações que o desestabilizam emocionalmente.

Sombras humanas
Chegamos por fim ao quarto volume, no qual estão reunidas narrativas mais sombrias — assim as classificam, com bastante propriedade, os editores. Na primeira delas, Enluamento, encontramos um jovem francês viajando à África para assumir um novo emprego numa colônia. Em mais um exemplo de personagem às voltas com diferenças culturais importantes, nosso herói terá pela frente um calor insuportável, uma paixão igualmente tórrida e um crime. No belíssimo subtexto dessa trama estão o racismo e a dominação branca em território africano, magistralmente visitados por Simenon. De volta ao interior da França, em O mal da terra o preconceito entra em cena em uma relação conflituosa entre patrão e empregados que terminará em morte. Para além da sordidez do crime, a investigação trará à tona segredos familiares que se desejavam a qualquer custo esconder.

Outra vez os paradoxos da alma humana conduzem a ação em O noivado do Senhor Hire: o personagem do título é um voyeur que se apaixona por uma vizinha e, acusado de assassinato, sofre o preconceito e a perseguição dos moradores do bairro onde mora. Aqui Simenon usa um erotismo que até então não havia aparecido de forma tão explícita no conjunto de obras que agora se publica. O erotismo é elemento importante também na última história, A família da frente, em que Adil Bey, um diplomata turco transferido para uma cidade soviética no período entreguerras, conhecerá um dos regimes mais opressores da história recente. Na tentativa de normalizar sua permanência em território tão hostil às liberdades individuais e confiando em alguns privilégios que o cargo diplomático lhe confere, Adil construirá relações perigosas para as pessoas com quem se envolve. Da janela de seu apartamento, ele fica obcecado pela visão de uma família vizinha e seus hábitos, e esse olhar abrange a vida cotidiana sob o regime socialista soviético, naquele que é considerado um dos romances mais políticos do autor.

Analisando-se apenas esse conjunto de dezesseis romances, é fácil concluir que qualquer publicação no Brasil de um título de Georges Simenon, seja inédita, seja uma reedição, será sempre muito bem-vinda, dada sua relevância na literatura universal. Mas o que a Editora da Unesp nos proporciona tem um valor extra e inestimável: a cronologia da criação de um dos maiores autores do século 20.

Simenon: Comissário Maigret – vol. 1
Georges Simenon
Trad.: Paulo Neves, André Telles, Julia da Rosa Simões e Eduardo Brandão
Unesp
556 págs.
Simenon: Romances – vol. 1
Georges Simenon
Trad.: Tulio Kawata
Unesp
522 págs.
Georges Simenon
Nasceu em Liège (Bélgica), em 1903, e morreu em Lausanne (Suíça), em 1989. Iniciou a carreira como jornalista e construiu uma das obras mais extensas da literatura, com centenas de narrativas publicadas sob seu nome e diversos pseudônimos. Tornou-se célebre sobretudo pela criação do comissário Jules Maigret.
Luiz Paulo Faccioli

É escritor. Autor de Trocando em miúdos, Estudos das teclas pretas, entre outros.

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