Breves dias sem freio é uma antologia pessoal da poesia escrita e publicada por Sérgio de Castro Pinto ao longo de 57 anos. Excelente panorama da produção do também crítico, jornalista e professor aposentado de literatura da UFPB, ela traça um mural de sua longa trajetória como poeta. São oito livros, do mais recente, de 2024, ao mais antigo, de 1967, mais quatro poemas inéditos e uma longa fortuna crítica fechando a coletânea.
Logo no início, o poeta nomeia uma das seções de seu mais recente livro como Circunstâncias e desabafos. Chama a atenção o quanto uma das circunstâncias mais eloquentes ali é a da idade em títulos como O poeta septuagenário, Cremação, Bagagem, Casa dos 70, Viuvez, por exemplo. Mas, se a idade poderia sublinhar em seus poemas tardios uma mudança de poética, não é isso o que se nota. A sequência da antologia nos revela um poeta coerente em suas realizações ao longo das décadas, um poeta dono de uma palavra com unidade e autoconsciência — mesmo que sujeita às naturais variações ao longo de tantos anos de produção.
Tanto as circunstâncias de sua produção tardia quanto a unidade me trouxeram à memória uma frase de Goethe em suas Conversações com Eckermann: “toda poesia é circunstancial”. Mas as circunstâncias em Sérgio de Castro Pinto não se referem apenas a ocasiões muito específicas e passageiras, como na tradicional “poesia de circunstância”. Destaco dois modos de o poeta lançar mãos das circunstâncias em seus poemas: o primeiro é pela memória, não apenas a do poeta “na casa dos 70”, mas uma memória que funciona como motor lírico de boa parte de sua poesia; o segundo modo é entender e transfigurar os seres e suas circunstâncias pela lucidez das palavras.
Memórias
O título da antologia articula muito apropriadamente a experiência do tempo pelo crivo da memória, pois conjuga a sensação de brevidade e rapidez à das marcas deixadas pela intensidade. Se essa é uma experiência que alguém com mais de 70 anos é naturalmente capaz de afiançar, são os próprios poemas que a afiançam ao longo de toda a sua obra, e não apenas na tardia. Por exemplo, desde pelo menos 1970, com A ilha na Ostra, que a memória é um dos motores dessa poesia. Evidente é a confluência entre “os dias antigos” e “a memória dos domingos”, entre o “guarda-roupa” e as roupas “sobre imóveis” no poema Diário. Ao mesmo tempo, a máquina fotográfica “revela a memória/ e o que estava dentro/ revela-se ao lado de fora”, no poema O homem revela a memória da máquina. O que é dito da máquina de fotografia pelo poeta, por outro lado, serve também para seus próprios poemas: na máquina, como no poema, “pulam manhãs/ e dóceis misturam/ crianças, tigres e rãs”.
O poeta traçou, desde a estreia, poemas feitos para a montagem da memória. Em mais de um livro, lemos as circunstâncias lembradas e reinventadas em suas variações verbais, como nos poemas sobre conhecidos (Seu Isidoro, O jardineiro Francisco G. da Silva e o Preto Cosme), jogadores de futebol (Didi, Vavá, Jairzinho, Leônidas ou Garrincha), sua geração (Cine Brasil: matinê das moças, Geração 60), localidades de sua cidade, João Pessoa, e alhures (Na Bambu, Avenida dos Tabajaras, Aeroporto Castro Pinto, Fazenda Guarany, Usina vista de cima). Todos os poemas cruzam o que há de memória pessoal com a memória cultural caldeada no trabalho com a linguagem, não meramente pelas referências lembradas ou esquecidas.
Esse trabalho com a memória lírica da linguagem é basilar no livro de 1993, O cerco da memória, no qual há a memória do leitor de Nava, Pessoa, Pound, Augusto dos Anjos, Baudelaire. Mas há também a memória do escritor que se constrói sujeito à errância lírica, como em Atos falhos: “sequer os ensaios.// mas os meus atos/ falhos/ encenam-se assim:// eles já no palco/ e eu ainda/ no camarim”.
Quando os atos falhos insistentemente se repetem, o poeta se faz sujeito da memória encenada no palco da representação pela palavra em “quando acho/ uma imagem / trago-o” (Tabagismo), “trancafio/ a paisagem/ lá fora” (Aerofobia), “o y do seu nome/ são os chifres/ retorcidos// de uma rês/ à margem/ de um rio// represado na memória” (Fazenda Guarany), ou no palco da representação pelo corpo em “aos quarenta, adias/ o ser e o não-ser” (Aos quarenta), “e o meu falo nômade/ rumo à tua fenda/ levanta acampamento” (Nômade), “míope, não sei/ em que lentes// deixei esquecidas/ as antigas paisagens” (Quase em “Braille”).
Por fim, a memória das circunstâncias históricas da Ditadura Militar, vivida e registrada pelo poeta no livro de 1983, Domicílio em trânsito. São poemas que testemunham medo, segredo, insônia, trabalho, sonhos, marcando o compromisso do sujeito com sua geração e contaminando a memória lírica da poesia com a memória épica da história, mesmo que uma história calada, como em Sobre o medo, b:
as palavras que não escrevo
habitam líquidas
o fundo do tinteiro.
as palavras que não escrevo
habitam líquidas
o fundo do meu medo.
as palavras que não escrevo
sempre me olham —
melhor escrevê-las
em portas de mictórios.
as palavras que não escrevo
têm sede de tinta —
melhor escrevê-las
em portas de latrinas.
Os seres
Mas é em especial na aguda observação dos seres e de suas circunstâncias que Sérgio de Castro Pinto tira algum aprendizado ou reflexão. Isso é exemplar no seu bestiário, não limitado a Zoo imaginário, de 2005. Já na estreia com Gestos lúcidos, de 1967, o poeta reflete sobre a duplicidade visual da zebra como um “objeto de op-art” e sobre os usos e abusos do boi pelos humanos, transformando-o em botões e pentes, em seu “círculo de tristeza/ imagem que não foi”.
Se há, portanto, circunstancialidade nas referências a Santos Dumont, Lampião, o Gordo e o Magro e Carlitos, há muito mais nos animais, que vão da girafa “entre nefelibata/ e autista// […]// vive nas nuvens/ e rumina a brisa” até a andorinha “tão confusa e cheia/ de ser fusa/ ou semicolcheia// na pauta dos fios/ de eletricidade”, passando pela cigarra “cheia de si/ a sina/ da cigarra// é explodir”. Nessa poesia animal de Sérgio de Castro Pinto, o poeta capta com sutileza como bichos levam no corpo as marcas da própria vida e de suas circunstâncias.
No livro A flor do gol, há um prefácio de João Batista de Brito que se refere à “fase zoo-infantil” do poeta. Mesmo achando não ser bem uma poesia “infantil”, penso que bichos e crianças são ideais para um tipo de poesia que, tomando traços da fábula, pensa a vida de um ponto de vista um pouco menos antropocêntrico e um pouco mais pelo modo de estar apenas vivo no mundo.
É também pelo modo de estar no mundo que Sérgio de Castro Pinto lança mão para tratar de outros tipos de seres: os inanimados, as coisas. Assim como a máquina fotográfica, o poeta examina “o hidrômetro/ registra/ um pingo// de minha vida/ sob o chuveiro” (À Companhia de águas e esgotos), reflete que “no papel de jornal/ transporto o presente/ e o seu papel/ de estocar esbulhos.// o presente/ e o seu papel/ de provocar engulhos.// no papel de jornal/ cabe todo presente” (O papel de jornal), assim como “No paletó/ imóvel existe:/ mesmo nu/ veste todo o cabide” (Paletó móvel/imóvel), dentre vários outros seres que coabitam silenciosos nossas vidas, mas aos quais o poeta dedica sua atenção para retirá-los, pela palavra poética, do limbo do utilitarismo cotidiano em que vivem. Exemplar é o poema dedicado ao lápis, esse instrumento do poeta para a poesia.
o lápis
é um caniço
pensante
na maré
vazante
da linguagem
McLuhan cunhou a frase “o meio é a mensagem”. Isso faz cada vez mais sentido em um mundo de automação tecnológica no qual a pseudotransparência dos meios corre o risco de transformar humanos em autômatos. Sérgio de Castro Pinto, ao contrário, escolhe trazer à cena o meio de escrita do próprio poema, que, como um “caniço pensante”, nos faz perceber a poesia como um jogo de pesca e pensamento das palavras no mar da linguagem.
Parece que na poesia de Sérgio de Castro Pinto vale para as coisas o mesmo que vale para os bichos, os jogadores de futebol, os espaços da vida, os acontecimentos presenciados e a própria vida do “poeta septuagésimo”: as circunstâncias passam, mas é delas que o poeta lúcido pesca palavras para pensá-las e, ao mesmo tempo, ultrapassá-las por meio da realização lúcida do poema.