É conhecida a história de Judith, personagem hipotética que Virginia Woolf imagina em Um quarto todo seu (1929) — na tradução atualizada de Sofia Nestrovski, Um quarto só para mim (Editora 34). Partimos desse ensaio, que desvela as condições materiais da escrita, para reler Raquel, protagonista de uma história inesgotável, A bolsa amarela, de Lygia Bojunga. O livro rendeu à autora o Prêmio Astrid Lindgren Memorial Award (Alma), em 2004, e impulsionou, dois anos depois, a criação da Fundação Cultural Casa Lygia Bojunga, no Rio de Janeiro. Ela também foi a primeira autora latino-americana a receber a medalha Hans Christian Andersen, em 1982.
Voltemos à Judith. Ou melhor: à Raquel.
E se William Shakespeare tivesse uma irmã? Virginia Woolf inventa que ela se chamaria Judith e escreveria muitos e muitos livros, com tanta ou mais genialidade que o escritor mais famoso do mundo. Porém, se não existem (ou não existiam) “Shakespeares mulheres”, como a autora escreve, é porque a criação precisa de uma possibilidade de tempo e de uma liberdade específicas, historicamente concedidas aos homens.
No clássico infantojuvenil A bolsa amarela, escrito sob a ditadura militar brasileira, Lygia Bojunga constrói uma espécie de Um quarto todo seu para as infâncias — hipotético, como toda invenção. E se Raquel tivesse nascido menino? E se os adultos levassem as crianças a sério? E se ela não precisasse esconder o que quer? Assim como Judith, Raquel não precisaria se provar. São essas as três vontades da protagonista: ser menino, ser gente grande e ser escritora.
Além do trabalho de linguagem de A bolsa amarela, cujas ilustrações são da multiartista Marie Louise Nery, a personagem se sustenta também no compromisso com a própria variedade do que pode ser a literatura. Percebê-la de modo diferente em cada nuance, a cada leitura, é também o que faz da narrativa de Raquel um objeto cultural profundamente histórico e, ao mesmo tempo, extemporâneo, meio século depois da primeira publicação.
“Quero ser pequena a vida toda”
No texto de apresentação de A bolsa amarela — que está em sua trigésima sexta edição e oitava reimpressão — o livro é descrito como uma aventura espiritual. A busca de Raquel parece tão concreta quanto impalpável.
O romance é dividido em dez capítulos: As vontades; A bolsa amarela; O galo; História do alfinete de fralda (que mora no bolso bebê da bolsa amarela); A volta da escola; O almoço; Terrível vai embora; História de um galo de briga e de um carretel de linha forte; Comecei a pensar diferente; Na praia. Em cada um, há o desejo de uma escrita incomum, que ergue uma voz narrativa tão contundente que parece familiar. Raquel é insubordinada e imprevista, é original e quase inédita.
Mais nova de quatro irmãos, a menina nasce sob a pecha de ter chegado fora de hora, dez anos depois, quando a mãe precisava trabalhar muito. Enquanto os irmãos mais velhos parecem encaminhados na vida, Raquel carrega um constante sentimento de inadequação porque nasceu de araque; tudo isso vem acompanhado da coragem de expressar com humor uma porção de pensamentos cruéis: “Bem que eu queria pular a janela, mas nem isso dá pé: sexto andar” — ela diz. Em casa, a menina é vista como a maior inventadeira do mundo.
Aí foi aquela coisa: o pessoal todo ficou contra mim. Fui dormir na maior fossa de ser criança podendo tão bem ser gente grande. Não era pra eu ter inventado nada; saiu sem querer.
“A mulher e a ficção”, já escreveu Virginia Woolf, “permanecem como problemas não solucionados”. Na história de A bolsa amarela, Raquel é menina e é também criança. Há nisso um sentido filosófico bem explorado no livro.
Para a filosofia, nenhuma dessas condições é motivo de diminuição; ou melhor dizendo, o que é pequeno é justamente valorizado como um modo revolucionário de linguagem. Essa é uma ideia que ressoa — ainda bem — em uma série de autores do campo teórico-crítico literário no século 20, como Walter Benjamin, Giorgio Agamben e Jean-François Lyotard; e, mais recentemente, também na literatura e no ensaio contemporâneos em torno da literatura produzida na América Latina. Podemos citar as argentinas Tamara Kamenszain, em Livros pequenos, e Luz Horne, em Futuros menores, além da também chilena María José Ferrada, em seu recente e ainda não publicado no Brasil Apuntes sobre una biblioteca mágica.
Para Deleuze e Guattari (Kafka, por uma literatura menor), cujo valor de contribuição sobre o conceito de “literatura menor” extrapola o espaço breve de uma resenha, as linguagens inventadas são uma erupção na estrutura rígida da língua; ou seja, é o lugar onde se explode com normas e limitações.
Na trama de Bojunga, Raquel percebe desde cedo como os adultos submetem a invenção a uma série de restrições, talvez para que o mundo não se altere drasticamente a ponto de não ser mais reconhecido. A tal “gente grande” ao redor da menina não quer se transformar em personagem, mas admite a ficção em outros moldes.
Se você inventa um caso com gente inventada, com bicho inventado, com tudo inventado, aposto que não te dão mais cascudo.
Como uma faísca de infância discursiva, um modo de estar no mundo, Raquel sinaliza a importância de não se acomodar, tanto no uso da língua quanto em lógicas preestabelecidas. “É só a gente bobear que fica burra”, ela diz.
Permitir imaginar
Raquel começa o livro desolada com tudo o que lhe falta — e a lista é enorme. Falta uma família que a entenda, alguém para conversar, um lugar onde possa ser quem é, e por aí vai. Mas, no lugar de cada lacuna, ela criativamente compõe um outro mundo. É o que a literatura faz por ela: devolve-lhe a chance de existir.
Ela inventa um amigo, André; uma amiga, Lorelai; e uma nova história para um alfinete que vivia enferrujado e pede para ser adotado — “Me guarda? Já não aguento mais viver aqui jogado (…) eu fico todo molhado, pego cada ferrugem medonha”. Raquel inventa até uma viagem para um quintal com gato, coelho, rio e um galo chamado Rei. “Lá o pessoal anda de mão dada, não tem briga, não tem cara amarrada” — diz Lorelai, ao descrever esse lugar que encarna o universo nonsense de A bolsa amarela.
“Ela se mistura muito mais de perto com as personagens do que o adulto. Sente-se indescritivelmente tocada pelos acontecimentos”, escreve Benjamin sobre a infância, no conhecido Rua de mão única, mais especificamente no texto Criança lendo — se Benjamin tivesse conhecido Raquel, talvez considerasse criar um capítulo chamado Criança escrevendo.
É Raquel que inventa também o objeto-título do livro. Na verdade, a bolsa amarela foi um presente da Tia Brunilda, que comprava de tudo e depois enjoava. Mas é Raquel quem dá a ela um destino além do mundo estático. Ao escolher guardar na bolsa suas três vontades, o objeto ganha valor simbólico. Mais uma vez, voltamos a um exemplo de Rua de mão única. Benjamin aponta para a simultaneidade entre linguagem e ideia a partir de uma memória real, quando brincava de puxar as meias enroladas em si mesmas. “Nunca me cansei de pôr à prova esse exercício. Ele ensinou-se que a forma e o conteúdo, o invólucro e o que ele envolve, são uma e a mesma coisa. E levou-me a extrair da literatura a verdade com tanto cuidado quanto a mão da criança ia buscar a meia dentro da sua ‘bolsa’.” Talvez a bolsa amarela seja tanto o que ela é quanto o que ela guarda. A bolsa amarela é sua forma avantajada para caber tudo, seus sete bolsinhos, sua almejada permanência da condição de ser menina e criança. Bojunga sabe disso:
E tinha uma vantagem: a bolsa eu podia levar sempre a tiracolo, o quintal não.
Logo no primeiro capítulo, Raquel rasga o romance que está escrevendo, depois que ele vai parar nas mãos de todo mundo em casa, e começam a rir dela.
Rasguei o galo chamado Rei, a família esquisita que ele tinha, rasguei o galinheiro inteiro, e tudo que tinha lá dentro. Resolvi que até o dia de ser grande não escrevia mais nada. Só dever de escola e olhe lá.
E se as meninas fossem encorajadas a se narrar? “Todo o mundo sabe que romance é a coisa mais inventada do mundo”, diz Raquel, enquanto tenta encontrar sua forma de inventar sem ser julgada.
Se Lygia Bojunga acertou algo de imprescindível quando sentenciou que escritora tem que viver inventando, o desejo para 2026 segue o mesmo de cinquenta anos atrás: que não faltem as condições para que a invenção aconteça — em liberdade, segurança, com estrutura e estímulo.
Se as estatísticas recentes rasuram essa aspiração coletiva a cada vez que negam direitos básicos de sobrevivência às mulheres, mais do que nunca a imaginação é necessária como habilidade de refazer o mundo. Ou, como escreveu Virginia Woolf: “Permitam-me imaginar, já que é tão difícil descobrir fatos”.