No terceiro poema de Embora, de Paulo Henriques Britto, a “peça crepuscular” faz girar uma hélice fundamental, chave indispensável para a compreensão de uma das mais fascinantes trajetórias de nossa literatura. Lá está a busca de sentido! “Sem conclusões”, com “revelação nenhuma”. Isso logo depois do Escrito na primeira página de um caderno anunciar que “Desta vez é pra valer,/ vai dar certo”. Não muito antes de o poeta também constatar “que ao fim e ao cabo não deram em nada”. E, apesar de tudo, entre mil parênteses, ser tão franco quanto sempre lhe foi possível:
(Escreva, porém. Apesar. Embora.)
Estão assim, espalhadas sobre a mesa (de forma cuidadosamente instável, num caos mais do que planejado), algumas das leituras possíveis para o título do livro, bem como o grande motif de toda a obra poética de Paulo Henriques Britto — e ainda uma nada sutil mensagem, endereçada aos seus leitores fiéis: vocês não esperam por grandes novidades; e, de fato, não terão!
Com previsíveis honestidade e veredas, com mais do mesmo, PHB convida à leitura de um conjunto de poemas que ratifica seu lugar entre os grandes nomes da poesia brasileira. Um desses textos, porém, pode chamar mais atenção daqueles que há tempos acompanham seu trabalho. Não pelo que carrega de metalinguístico, mas sim porque o autor resistiu à compulsão de, ao longo do poema, desestabilizá-lo, mudar radicalmente de registro, impor uma rigorosa bagunça aos resíduos de significação. Temos, então, no Viva voz, essa janela um tanto incomum para compreensão das inquietudes, contradições e impasses que movem a poética de Paulo Henriques:
Voz que canta, a mesma que conta coisas
que não contam pra nada além do instante,
com palavras as mesmas que se ousam
nas falas mais fáticas, e no entanto
quando cantadas têm mais peso e preço
como pedra lançada ganha pulso,
palavras aladas, mas mais espessas
que quando em estado de prosa do mundo
e paradoxalmente mais preciosas
quanto mais presas ao mundo da prosa
mais cinzento e pedroso, mais distante
dos véus e névoas de frios encantos
a embotar o fio da voz que só canta
coisas que só contam por um instante.
Obsessivo e prestigiado ritual
Para os marinheiros de primeira viagem nessas águas, onde nada “nunca foi fácil./ nem espontâneo”, o referido soneto pode soar difícil, “fluir travado”. Para os veteranos, contudo, ele chega como se houvesse escapado dos corais, cruzado praticamente ileso a zona de arrebentação, onde “o objeto inicial da busca” costuma quebrar e ceder seu lugar à “atração principal do espetáculo”. Ou seja, no viva voz o poeta se permitiu comunicar-se com algumas etapas a menos em seu lapidado e obsessivo itinerário — algo que, livro após livro, tem se tornado menos frequente.
Metrificação, uso de formas fixas, de temas muito gastos, por meio de técnicas recorrentes… Cá estamos outra vez, ao lado dos recém-chegados. De certo modo, críticos, professores e pesquisadores também nos tornamos engrenagens dessa verdadeira máquina de reiterações. A respeitável fortuna crítica de Paulo Henriques Britto comprova que temos cumprido a função com bastante eficiência. Até podemos — a partir das mesmas linhas de força — mapear e destacar alguns ângulos e modos distintos. Orbitamos, no entanto e sobretudo, para mastigar ritornelos e repisar mecanismos dessa poesia que insiste em arrebentar portas já escancaradas; e fazê-lo até a impossível exaustão.
Por qual razão exercemos esse papel? E por que não?
Precisamos ainda admitir, por exemplo, que existe uma tradição de poetas obsessivos em nossa literatura. De Augusto dos Anjos a Dante Milano e Ivan Junqueira, de João Cabral de Melo Neto a Antonio Carlos Secchin e Armando Freitas Filho, há uma considerável produção, notadamente marcada pela repetição de formas, ideias e imagens. Seja através de recortes individuais ou comparativos, são incontáveis as possibilidades de leitura e interpretação a partir dessa premissa — pouco ou nada explorada, mesmo quando, assim como em PHB, seus autores ostentam fortunas críticas de respeito.
No caso do autor de Embora, temos não só um confesso escritor movido por obsessões, mas também um caso paradigmático, que se impõe tanto por converter em matéria de poesia a compulsiva reincidência de formas e temas, como também por tê-la levado a patamares outros de continuidade, de esgarçamento da malha e engajamento do público leitor. Noutras palavras (que decerto hão de causar estranhamento ou mesmo incômodo em vários assinantes do Rascunho), o conjunto da obra e da recepção de Paulo Henriques Britto já nos permite realmente pensá-la como ritual.
Desconfiados, embora
O poeta, que também é membro da Academia Brasileira de Letras e um dos mais importantes tradutores do país, já afirmou algumas vezes que, ao tentar versos livres, sempre termina por escrever banalidades. A assertiva é interessante, pois o banal está presente em toda sua obra poética. O incontornável rigor formal não afasta a banalidade, mas parece (a)traí-la para terreno propício ao jogo de PHB, numa espécie de emboscada ao mesmo tempo compulsiva e deliberada, armada dentro dos assumidos limites do tabuleiro.
O mesmo pode ser dito no outro extremo desse varal de reiterações: ao retomar não somente formas, mas temas dos mais tradicionais — como a busca de sentido, as desconfianças quanto ao eu lírico, aos discursos factuais, à crença na transcendência —, não há qualquer intenção de novidade, de conseguir ir além dos seus antecessores. Em vez de esperarmos um resultado diferente ao final da partida, talvez devamos nos perguntar quais efeitos essas peças podem causar nas demais (nós, leitores), quando capturadas pelos mesmos insistentes movimentos, de um poema ao outro, livro após livro. Se não nos oferecem revelação, transcendência, ou pelo menos alguma redenção, por onde tais ritos nos levam?
Em entrevista para o Rascunho, há 21 anos (edição 58), Paulo Henriques Britto confirmou o lugar de João Cabral de Melo Neto entre os poetas com quem mais dialoga, mas ressalvou:
(…) ao contrário de Cabral, que faz questão de negar a subjetividade, eu tomo a subjetividade assumidamente como ponto de partida. Mas minha afirmação da subjetividade é sempre irônica, cautelosa, desconfiada, ressabiada, em parte porque estou o tempo todo tendo que responder a Cabral, me afirmar diante dele.”
Poderíamos agora sair dos trilhos, ocupar metade das páginas deste Rascunho para desdobrar a influência cabralina e o lugar da subjetividade na poesia contemporânea. Mas nosso propósito ao trazer o excerto é outro, muitíssimo menos ambicioso: propor que, ao aderirmos à obsessiva, irônica e ritual poesia de PHB, também restamos cautelosos, desconfiados e ressabiados, embora inegavelmente imersos no jogo, no seu ritual, na Profissão de fé anunciada desde a distante (em muitos sentidos) Liturgia da matéria (1982):
Já não consigo mais acreditar
em nada que não se ofereça dócil
a essa trama traiçoeira e fina
do dizível, que não se faça lousa
fria e lisa, nada que não se deixe
assassinar sem queixa, e não se encaixe
exatamente em seu lugar preciso —
como também não sei amar senão
o que resiste a toda tentativa
de se fazer polir, a coisa áspera
que não cabe em parte alguma, que escapa
a toda identificação, que escorre
e permanece toda inteira e pura,
anônima, amorfa e indecifrável.
Desconfiados, embora
Sabemos que todo ritual exige formas reconhecíveis. Sua eficácia depende menos da novidade do que da repetição (não só autorizada, mas pensada como essencial) de gestos, ritmos e ideias. Mais ou menos regulares, tais padrões reiterados produzem temporalidades e significações distintas da ocorrência pontual e ordinária. Ao conhecer e acompanhar tais ritos, ainda que o núcleo de seu funcionamento se mostre de árdua ou inalcançável decifração, os adeptos rapidamente não só os memorizam e reconhecem, como passam a assimilá-los, intuí-los.
Paulo Henriques Britto tem consciência disso e, por isso mesmo, trata de sabotar expectativas, mudar cadências, formas de enunciação. É bem verdade que os seus leitores habituais já esperam por tais solavancos, mas saber que o terreno guarda armadilhas nem de longe é garantia de percorrê-lo em segurança. Ou, como bem assinalou Daniel Bueno de Melo Serrano, na dissertação Figurações do banal (Unicamp, 2023), não se trata apenas da repetição dos “velhos temas de sempre”, mas sim dessa disposição para “sempre dar outra volta no parafuso da enunciação, em antecipar num contragolpe astuto as reações do leitor”:
Na esquina da última estrofe, como se de tocaia, aguarda sempre uma armadilha lógica, uma manobra sagaz com que o poeta, triunfante apesar de sua assumida coleção de fracassos, restituirá espirituosamente o leitor ao seu devido lugar: a palavra final não é nunca a nossa.
Nada escapa às lâminas. Como bem assinalou Noemi Jaffe (na Folha de S. Paulo, por ocasião dos 30 anos de poesia de Paulo Henriques Britto), em boa parte de sua obra “quem nos fala, de forma única, é o próprio nada, que, se não nos atrai, é, entretanto, inescapável pela forma com que se apresenta”. Ocorre que nem mesmo esse nada pode ter a palavra final.
Ao presenciar o vazio e a ironia no centro do palco, os fiéis leitores de PHB já sabem o que fazer: ouvi-los com toda a atenção, e jamais levá-los plenamente a sério. Se o oficiante lhes permite algum protagonismo, não é para lhes entregar a palavra derradeira, mas sim para colocá-los também em xeque. As ruínas, os vestígios de sentido — que resultam dessa traição imposta ao nada — são as lascas que nos atravessam e engajam. E sob as cascas da ironia, mínima e ágil, alguma coisa se move e se junta às intraduzíveis calhas, às tábuas que tornam possível navegar em um mundo que perdeu quase toda a inocência.
Essa assombrosa máquina de recorrências, todavia, não arrebanha leitores passivos, à mercê dos desígnios de seu exímio arquiteto. Muito pelo contrário, para sua maior eficiência é necessário que a adesão seja problemática, repleta de arestas, jamais pacificada. Nesta ritualística e engenhosa casa, o conflito não só é aceito como se mostra fundamental. Pois, como bem explicitou Eduardo Horta, no artigo Paulo Henriques Britto e a angústia do sentido, trata-se de uma obra que recusa a intransitividade poética; nela, a impossibilidade do sentido não é vivida “como uma experiência de luto apenas”, mas também ao se confrontar o absurdo, numa “espécie de ética do enfrentamento”.
Nenhuma leitura toda mansa, pacificada e obediente pode avançar sobre essa terra de combates. E olha que não estamos tratando de vastos campos de luta! Nas palavras do próprio PHB, em Artes e ofícios da poesia (Artes e ofícios, 1991), organizado por Augusto Massi, trata-se de uma área fronteiriça “entre a referência clara e o ludismo verbal. Talvez seja uma área um tanto estreita, uma mera linha divisória, sem espessura. Talvez por isso me seja tão difícil escrever poesia”.
A despedida das coisas
A pergunta, então, persiste. Se é verdade que a contemporaneidade é marcada pela resistência à estabilização de sentidos, pela fragmentação das experiências, pelo colapso das grandes narrativas, por uma aceleração temporal e pela dificuldade de atribuir alguma coerência duradoura ao real… Qual é a razão de criar ou acompanhar essa poética obsessiva, esse ritual de enfrentamentos?
No poema Curtain call, que “encerra” Embora, o poeta não responde. Ele nos lança porta afora, sob o duro e necessário fardo da solidão — numa despedida que nenhum leitor há de levar a sério, tampouco ignorar:
Continue trilhando esse caminho
que você chega lá. Naturalmente
— e você tinha dúvida? — sozinho.
Como sozinha chega toda a gente,
talvez? Não importa. Importam os fatos,
os feitos. As coisas que se vê, ouve,
pega e quebra. O que conta são seus atos,
e não suas intenções, se é que houve
intenções. — Respire. O ar é seu. São seus
os pulmões. Não são? É, de agora em diante
vai ser assim. E quanto a ser feliz…
não estava nos planos. Você não quis.
Você devia ter pensado antes,
não é mesmo? Hora de ir embora. Adeus.