O que pode revelar a prosa de uma escritora consagrada sobretudo por sua poesia? A resposta talvez esteja na reunião dos escritos de Alejandra Pizarnik para além dos versos que a tornaram uma das vozes mais singulares da literatura argentina. O volume oferece uma nova via de acesso ao universo de Pizarnik. O silêncio, espaço privilegiado de contemplação, ocupa um lugar central em seu projeto literário. “Sempre fui a silenciosa”, escreve a autora em uma das narrativas breves de Prosa completa. Em outro momento da coletânea, lemos: “Estou morrendo porque alguém criou um silêncio para mim”.
Na escrita de Pizarnik, há um entre-lugar aparentemente paradoxal entre o anseio pelo silêncio — que envolve também a elaboração de um sujeito feminino silencioso — e a ânsia por rompê-lo pela linguagem. Há, então, um profundo diálogo entre a prosa da argentina e sua lírica; não se trata de duas escritas separadas, nem de uma continuidade, mas de uma dialética. A forma poética parece conter em si um modo de traduzir estruturalmente o silêncio. É impossível não se perguntar de que maneira Pizarnik expressa isso em seus textos em prosa.
Prosa interrogada
Prosa completa chega ao leitor com muitos questionamentos. Afinal, estamos diante de reflexões de Pizarnik sobre a literatura e, em especial, sobre sua própria poesia. É um tanto desconcertante acompanhar as narrativas de uma autora que afirma que a “poesia é o lugar onde tudo acontece”. Quais são, nesse sentido, os limites da prosa de Pizarnik, se o verso é “o lugar onde tudo é possível”?
A coletânea chega às prateleiras em tradução realizada a quatro mãos por Nina Rizzi e Paloma Vidal. Antes de adentrarmos o universo de Pizarnik, um prólogo de Ana Becciu — poeta argentina, amiga pessoal de Alejandra e organizadora da edição de sua obra em prosa — oferece ao leitor um guia para a estrutura do volume. Vale apontar: quem prefere estabelecer suas próprias conexões interpretativas talvez queira deixar essa leitura para depois, retornando ao prólogo apenas ao final do livro. Em seguida, Nina Rizzi assina uma nota-ensaio na qual defende a prosa de Pizarnik como “violentamente transgressora” e reafirma a proposta de uma “leitura-tradução”.
O volume é dividido em cinco seções: narrativas breves, humor, teatro, artigos e ensaios, prefácios e reportagens. A primeira é a que mais se aproxima de sua poesia, centrando-se na impressão de cenas, instantes e sensações. Já a seção dedicada ao humor se destaca pelo trabalho com a linguagem, pela repetição de sons e letras e pela manipulação do ritmo textual. O teatro de Pizarnik reúne alguns dos melhores traços do absurdismo e compartilha com seu humor a constante deriva dos sentidos. Em artigos e ensaios, a autora revela grande familiaridade com os escritores de seu tempo e uma crítica literária aguda, que se debruça sobre o texto sem receio de incorporá-lo, por meio da citação, ao próprio percurso argumentativo. Os prefácios e as reportagens, por sua vez, evidenciam alguns de seus posicionamentos acerca da literatura e, em especial, da poesia.
Formas instáveis
De modo geral, embora o humor e o teatro de Pizarnik revelem uma escritora empenhada em experimentar com a linguagem e levá-la ao limite, são as narrativas breves e os escritos de não ficção que constituem os grandes destaques do volume: as primeiras por evidenciarem o olhar contemplativo de Pizarnik, os segundos por compartilharem as suas visões críticas acerca da literatura.
As narrativas breves são centradas, em geral, em uma espécie de “opressão do instante”, na captura de impressões fugidias. Há economia verbal: assim como seus versos perseguem a máxima síntese, parte da ação é aqui suprimida em benefício das percepções subjetivas. Nas descrições, predomina a “câmera-olho”, atenta sobretudo ao que se vê. A escrita nasce do impulso imediato e dá corpo a uma voz narrativa que se confronta com as próprias palavras, interrogando sua origem, como se elas viessem “do nada”. São textos breves que refletem sobre os limites da linguagem e suas impossibilidades. Nesse devir, a linguagem deixa de ser apenas instrumento de expressão para tornar-se experiência, mediação da própria existência.
Em sua prosa, Alejandra Pizarnik tampouco abandona a força das imagens poéticas. A narradora evoca a “chuva ou choro”, imagina “que as coisas deslizem como fumaça”, recorrendo a imagens que remetem ao transitório e a símbolos caros à sua poesia. Acima de tudo, pede “que não haja olhar sem ver”. Em passagens como “porque eu era outra pessoa que não é mais”, coloca em questão a instabilidade da identidade, do sujeito e do tempo. Do mesmo modo, suas paisagens são tão efêmeras quanto a forma, também sujeita à instabilidade. São contos? Poemas em prosa? Prosa poética? Todas as possibilidades cabem, mas também são ultrapassadas pela forma fugaz de Pizarnik. Sua prosa habita um lugar de indeterminação, onde as fronteiras entre os gêneros se tornam tão efêmeras quanto a experiência que procura apreender.
Humor absurdo
No humor, Alejandra Pizarnik brinca com o idioma, produzindo um efeito em que o sentido desliza entre o corriqueiro, o obsceno e o escatológico. Surgem jogos de palavras, como a repetição de sons e letras ou a invenção de uma etimologia própria, que desestabiliza a linguagem. Esse procedimento se aproxima de seu teatro — não por acaso, em seus textos de humor predomina o diálogo, com a reprodução do timing da comédia e de seus mecanismos de interrupção, surpresa e deslocamento.
A peça Os perturbados entre lilases, sob a influência dos estilos de Samuel Beckett e Antonin Artaud, reproduz alguns dos melhores traços do teatro do absurdo. Nessa vertente, a crise existencial se impõe diante da falta de sentido de um mundo pós-Segunda Guerra Mundial. São frequentes os diálogos desconexos, as contradições, as situações ilógicas e repetitivas, que fazem da cena um espaço constante de estranhamento.
Essas ficções correspondem a uma constatação de Pizarnik em sua não ficção. Para ela, o humor moderno é “metafísico e poético” porque determina a “distância que nos separa da realidade”. Nesse sentido, ela o chama de realista “pois aprofunda a noção de absurdo”.
Olhar crítico
A produção não ficcional de Alejandra Pizarnik revela uma reflexão crítica atenta às rupturas e continuidades da tradição literária hispano-americana, com especial interesse pela poesia. Em seus ensaios e textos críticos, a autora confronta diretamente as obras que analisa, incorporando-as por meio de citações e detendo-se em suas minúcias formais e de estilo. Esse gesto de leitura evidencia uma interlocução intensa com escritores fundamentais de seu horizonte intelectual, entre os quais Antonin Artaud, André Breton, Silvina Ocampo, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Octavio Paz. Mais do que simples referências, esses autores constituem um repertório a partir do qual Pizarnik elabora uma concepção própria de literatura e de linguagem.
Em uma entrevista desconcertante, Pizarnik afirma: “Um poema político, por exemplo, não é apenas um poema ruim, mas também uma política ruim”. Isso está longe de significar uma indiferença às problemáticas sociais — e sim uma convicção na potência estética da arte, e não em seu conteúdo. Em outras palavras, sua política é a boa literatura. Assim, o ensaio literário A condessa sangrenta, sobre uma assassina implacável dos séculos 16 e 17, ganha novos contornos. Essa história de violência foi o presságio de Alejandra Pizarnik para o rastro de tortura e sangue que a ditadura argentina deixaria no país poucos anos depois. A escritora encontra, nesse sentido, um modo inventivo de dialogar com o seu tempo histórico.
Exílio verbal
Alejandra Pizarnik define o poeta como o mais estrangeiro, aquele que está em exílio. É significativo como Nina Rizzi amplia essa sensação de alheamento ao notar que a prosa de Pizarnik esteve exilada de sua obra poética por décadas. Agora, ela chega ao leitor brasileiro, que tem mais uma face da autora que afirmou se “esconder da linguagem dentro da linguagem” — talvez o maior dos paradoxos de Pizarnik.
“Como o amor, o humor, o suicídio e qualquer ato profundamente subversivo, a poesia ignora o que não é sua liberdade ou sua verdade”. Nessa sentença, Pizarnik condensa uma ars poética e uma ética da poesia. Ela nos coloca diante de um último questionamento: se a poesia é o espaço da liberdade, em que tudo é possível, que forma assume sua literatura dentro do confinamento da prosa? Confrontando esses limites e a crença em sua impossibilidade de escrever romances, Pizarnik encontrou a transgressão como forma literária. Fora dos versos, ela expande uma ideia de prosa; Alejandra Pizarnik mostra o que pode ser — e até onde pode ir — a escrita de uma poeta.