Entre o riso, o choro e a morta

Em "Cor de defunto", de Cami di Malta, o luto materno encontra humor, oralidade e imagens perturbadoras
Cami di Malta, autora de “Cor de defunto”
01/07/2026

A literatura está repleta de representações da relação entre mães e filhas, das mais variadas formas, organizações e especificidades. Uma das escritoras que coloca a lupa nessa relação tão modular e basilar é Elena Ferrante. Trago a autora italiana — mais precisamente, seus textos sobre a própria produção literária — para abordar uma das características que atravessam essa relação familiar em seus romances: a dor. Mais especificamente, a palavra polissêmica frantumaglia, ouvida da mãe ainda na tenra infância e definida por Ferrante como “o efeito da não perda, quando temos certeza de que tudo o que nos parece estável, duradouro, uma ancoragem para a nossa vida, logo se unirá àquela paisagem de detritos que temos a impressão de enxergar”. Esse caminho entre aquilo que parecia estável e sua transformação em detrito, entre o confortável e o desconfortável produzidos pela perda e suas ramificações, é o cerne do romance de estreia de Cami di Malta.

Escritora nordestina, de Fortaleza, no Ceará, Cami di Malta começou a gestar e a escrever Cor de defunto durante sua pós-graduação em Escrita Criativa na Universidade de Fortaleza. Seu primeiro romance aborda o luto e o abismo que a perda da figura materna provoca na protagonista, Lilá, que perde a mãe ainda jovem. A figura materna — Mainha — é constantemente rememorada, afinal, Lilá trabalha numa funerária e possui um caixão dentro de casa, no qual dorme todas as noites, pois tem medo de cair. A mãe era uma cantora de seresta, que perdeu a visão e, posteriormente, os movimentos do corpo devido a uma doença misteriosa, justificada no romance como algo espiritual. Completando a tríade feminina da narrativa, há ainda Corrinha, irmã da protagonista, que saiu pelo mundo, cortando laços com a irmã, aparecendo apenas no dia da morte da mãe. Para além disso, os retornos constantes ao passado revelam também a existência de uma figura paterna — Ele, grafado com inicial maiúscula, quase um Deus — que aparece na casa dessas mulheres apenas para usufruir do corpo da mãe e maltratá-lo.

Assim, existe um processo de luto que precisa ser elaborado. A protagonista ainda tenta romper o vínculo com essa figura materna, mas, para que isso aconteça, atravessa um périplo marcado por questões sobre a própria existência e pelo modo de lidar com a morte e com o corpo morto. Diversos ícones da memória surgem no decorrer da narrativa com o intuito de rememorar a mãe, a infância da protagonista, o enterro e o luto que insiste em permanecer.

Rindo na cara da morte
Retomando as elucubrações de Elena Ferrante sobre a frantumaglia, a dor surge como mote, presente no desenvolvimento das personagens em seus romances. Cami di Malta escreve justamente um livro sobre a dor, marcado pela oralidade e por expressões corriqueiras do Nordeste brasileiro, realçando a relação da protagonista com a mãe morta, constantemente presentificada ao longo das páginas. O luto e a defunta aparecem já na abertura do romance, quase como um aviso ao leitor sobre o que encontrará:

Quando Mainha morreu, eu fiz um pudim. A morte me deixou com a boca ansiando pelo gosto de caramelo. Nunca havia feito pudins e não sabia o que levavam, como bater, como assar, se era assado. Achei um vídeo da receita e sentei no chão da cozinha pra assistir, meu luto que ainda era morte crua pairando sobre os anúncios de carro e iogurte pro intestino a cada dois minutos.

O luto, por desorganizar a vida do sujeito e ter um tempo particular de elaboração, é frequentemente posto à prova no desenvolvimento narrativo de Lilá. Uma narrativa em vertigem, na qual a protagonista está o tempo inteiro lidando com os fantasmas que a rememoração constante da mãe traz consigo. Esses fantasmas também estão presentes nos vínculos familiares desconexos e fragilizados entre a irmã e o pai.

Por estar tão próxima dessa fantasmagoria que é a mãe, Lilá faz uso de mecanismos de defesa que, no decorrer da narrativa, se desgastam, craquelam e ruem. Assim, há passagens de forte teor cômico; o leitor ri do mórbido, da desgraça alheia. Tudo é muito risível. Cami di Malta escreve um livro engraçado, ainda que muita dor esteja entrelaçada nessas paragens. É como rir e chorar ao mesmo tempo.

Eu acho que morrer se parece com adormecer. Não o adormecer normal da terça-feira às 11 da noite. Mas o adormecer de tarja preta, sabe? Aquele torpor que vai tomando conta de cada limbo, varrendo a consciência pra calçada escura que a gente não vê. Morrer dormindo deve ser como morrer duas vezes. Me pergunto se é por isso que Mainha dormia tanto. Se ela sabia e tava treinando, para se certificar de que não ia morrer pela metade e ficar presa em mais um escuro. Quantas mortes cabem em uma vida meio viva?

Imagética pouco usual
Para além do risível diante da morte e da morta, o romance também trabalha com adjetivações e associações imagéticas pouco usuais, numa tentativa de dar conta do que a narradora está tentando colocar em palavras, sintoma do vazio produzido pela perda da mãe. Os próprios títulos dos capítulos revelam isso: Muitas cabeças para uma mortadela, Rainha da bilirrubina ou Cimento de Jeová. São imagens pitorescas que exigem do leitor um mergulho na lógica interna da narrativa. Lilá tem medo de morrer, medo do fantasma da mãe, medo de dormir na própria cama e medo de repetir no próprio corpo a doença materna. Como colocar em palavras tantos medos desencadeados por essa experiência?

[…] Enquanto a morte não vem, desabo na cadeira de plástico sem apoio de braço. Me sinto exausta de carregar tantos lutos na mochila. São tantos anos, mas foi ontem. São tantas casas, mas tá na minha sala. O luto nunca vai embora, ele só troca de roupa toda semana. As mortes me deixam suspensa no ar, fazendo esforço pra não derrubar a chinela, mini garrinhas tensionadas de esmalte descascado.

O trabalho numa funerária evidencia essa tentativa de aproximação com a morte. Ainda assim, não há compreensão sobre ela. Mesmo convivendo diariamente com corpos mortos ou dormindo todas as noites dentro de um caixão, a protagonista tem medo. Há uma espécie de identificação e flerte entre o viver e não viver, ser um zumbi para as pessoas que estão ao seu redor. Afinal, ver o corpo morto do outro é também um confronto com a própria mortalidade, ecoando aqui reflexões de Georges Bataille.

Outro aspecto importante é o dos animais presentes no romance, que reiteram a transitoriedade da vida, como os cachorros que Lilá e Corrinha tiveram na infância e as baratas, formigas e centopeias que aparecem no apartamento da protagonista. Esses insetos ajudam na decomposição da matéria orgânica, como é o caso do corpo humano morto. As centopeias, por exemplo, aparecem em grande quantidade na casa de Lilá e, numa tentativa falha de cuidado, a protagonista as alimenta com raspas de pele morta de seus pés.

[…] Assopro as centopeias pra separar elas do cabelo e da poeira do chão. Faço dois montinhos, as vivas e as mortas. As mortas se esfarelam ao menor toque, a casca cor de decomposição já seca. Coloco uma centopeia por caixa de fósforo. Cada uma no seu Cantinho. Lixo a sola dos pés numa tigela e distribuo em pitada em cada caixinha. Sorrio pro vilarejo com minhas 36 mães cegas e suas centenas de pernas devolvidas e restos de pés dilacerados com cheiro de cuidado.

Assim, Cami di Malta escreve um primeiro romance extremamente interessante. Mesmo tratando de temas tão densos e recorrentes quanto a morte, o luto e a perda materna, a autora consegue construir uma narrativa marcada pelo frescor, pelo humor e pelo desconforto. Cor de defunto, como a cor do batom usado para dar vida ao corpo sem vida, é sagaz e irreverente. Uma cor de vida em um tema tão nefasto e fascinante quanto a morte.

Cor de defunto
Cami di Malta
Autêntica
112 págs.
Cami di Malta
Nasceu em Fortaleza (CE), em 1992. É escritora e pós-graduada em Escrita Criativa pela Universidade de Fortaleza, onde iniciou a escrita de Cor de defunto, seu romance de estreia.
Douglas Sacramento

É professor, crítico literário e doutor em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA).

Rascunho