Em passagem recente pelas cidades de São Paulo e Curitiba, o poeta Ricardo Domeneck compartilhou com auditórios diversos algo que, em palavras distintas, reproduzo aqui. Disse ele que os tremores pessoais registrados em palavras no papel, em um diário, uma agenda ou coisa íntima para mostrar apenas a amigos ou pessoas de circuitos menores só ganhariam espaço em livro se ficasse claro para ele que essa vivência pessoal poderia, de alguma maneira, ressoar numa comunidade maior, a de leitores não circunscritos aos seus nichos e vivências. É como quando se percebe que, mesmo sem sentir a dor de quem escreve, um leitor pode reconhecer em si qualquer tipo de dor ou assombro que ainda não havia acessado do modo como o poema o fez ver. Quando isso ocorre, pensa Ricardo, a expressão das dores e dos assombros pessoais pode ganhar espaço em um livro e circular, pois os escritos do poeta transbordam para outras comunidades que não apenas as dele.
Ao ler Diáspora não é lar, de Nina Rizzi, as palavras do poeta reverberam aqui. Como tem sido comum na edição de livros de poesia contemporânea no Brasil, a obra é encerrada com uma parte (que entendo ser a quarta parte da montagem integral do livro) bastante biográfica, que revela, entre outras coisas, trajetos e caminhares que levaram a poeta até o livro. E essa seção, em particular, somada ao tom das duas primeiras partes do livro, ilê e diáspora, pode dar a entender que, no conjunto, o livro manifesta uma escrevivência, conforme Conceição Evaristo.
Mas, ao ler a terceira parte do livro, orí iwaju, percebemos melhor a proposta estética elaborada pela poeta. Não apenas porque é a parte do livro em que as poéticas de relação (penso aqui em Édouard Glissant) ganham força na aproximação mais intensa do iorubá (um pouco também do banto) com a tradição mais conhecida, e muitas vezes coloquial, da língua brasileira, mas porque vemos com mais nitidez na poética de Nina que a casa está menos em espólios materiais de famílias (no sentido hereditário eurocentrado) do que em ancestralidade e travessia. Ela, a casa, é o próprio corpo que atravessa. Atravessa e é atravessado. Corpo poroso, mas não à deriva.
Corpo consciente da errância e da necessidade de insubordinação. Ainda com Glissant, corpo não convertido em doce lar porque sabe da complexidade implicada em não voltar; ou ainda, corpo que, sabendo-se um não-voltar, se faz curva para performar a memória.
Tempos em espirais
Muito se tem lido na crítica de poesia brasileira contemporânea acerca dos tempos em espirais implicados na poesia de autores negros. No segundo poema da primeira parte do livro, chamada ilê (podemos pensar, casa), encontramos a seguinte composição: “há um grande passado/ pela frente”. A sugestão do movimento em espiral é evidente. Mas o que chama a atenção é a sutil diferença entre os tamanhos de fonte utilizados no verso 1 e no verso 2 indicando que o primeiro verso é o título do poema.
Se o título, “há um grande passado”, nos coloca imediatamente num campo semântico de lembrança, de história e, podemos explorar também, de grandeza, no sentido de orgulho, o verso seguinte, “pela frente”, não apenas revela a tradição afrodiaspórica, do tempo em espiral, como também nos impele à ideia de que a memória, a casa, o lar, enfim, terão de ser feitos. Eles existem em devir. É como dizer que há um passado e, ao mesmo tempo, que esse passado está sendo feito. Nesse tipo de percepção ética, mobilizada sempre em poética, podemos encontrar um ponto de toque fundamental da nossa poesia do presente, a saber, a dialética-diferencial (Derrida, Haroldo de Campos) entre as tradições eurocentradas modernas e as afrodiaspóricas. Podemos ver isso também nas poéticas de Edimilson de Almeida Pereira, Eliane Marques, Ricardo Aleixo, Aline Motta e André Capilé, com suas singulares soluções formais, entre outras.
Há um vetor tensionado nessas poéticas que emergem da relação que reforça a diferença sem tentar resolvê-las. Daí o título do livro de Nina chamar para a negação. Uma coisa não equivale a outra, Diáspora não é lar, mas ambos os termos, diáspora e lar, estabelecem a dialética em diferença (nunca em síntese) que nos permite ver a (per)formação da casa, da ilê.
Não é coincidência que a parte 2 do livro, compreendida entre ilê e orí (casa e cabeça, respectivamente), se chame diáspora. É da diáspora que tem surgido essa poesia moderna-contemporânea brasileira que nos permite pensar outros mundos no mundo, outros Brasis no Brasil. E, nessa poesia de relação, com raiz errante, vamos compreendendo outras formas do corpo, da casa e de quanto se deve revolver a memória, negar a história, para podermos falar de lar.
Encontramos na diáspora, parte 2 do livro, o seguinte poema:
mulunga minina
uma raça no sul
outra no norte
e uma outra quando branco te fode
‘inda mais outra quando um preto te afaga
sempre minina na cama
sempre mulunga em toda via
num deixa nunca de ter uma raça, de num ter nada
num deixa nunca essa cicatriz de fronteira e fazenda
num basta num sê branca
se num é malunga, minina
reconhecida, feita mula
de cor e de nenhuma
qual o lado certo da tua cor
se a pele a olho nu te trai a furta-cor
num basta num sê preta, minina
tem que sê branca, mulunga
A “cicatriz de fronteira” parece ser a chave da relação ambígua e dura que o poema impõe. Fronteira não como o que separa, mas como o que se faz limiar, ponto de encontro. Ponto fundamental na teoria antilhana de Glissant.
Oralidade
No título, bem como nos versos 6 e 16, encontramos grafada a palavra mulunga. A julgar pela presença forte de variações linguísticas provenientes da oralidade, que também ocorre no título com a grafia “minina”, podemos assumir para mulunga a significação de malunga, que remete, em matrizes afro-brasileiras, à força de resistência de mulheres. Portanto, o poema centraliza a resistência de meninas pressionadas nessa fronteira entre o ser preta ou ser branca. Isso aparece fortemente poetizado nos refrãos “num basta num sê…”. Ou seja, não basta se mover para uma idiossincrasia branca se não for forte e não tiver a casa constituída em ancestralidade (vale lembrar que outra palavra próxima, mulungu, quer dizer árvore ancestral), pois, para a visão colonizadora e branqueadora, não basta não ser preta. De um modo ou de outro, o que se impõe é o branqueamento.
Mas o poema faz lembrar assertiva poética de Ricardo Aleixo, “o preto é invenção do branco”. E a chave da resistência ao branqueamento, que é uma deliberação do branco sobre o corpo negro, está numa precisa formulação de ambiguidade por meio do jogo fonético. Refiro-me ao verso “sempre mulunga em toda via”.
Além de apontar para o fato de que a mulher preta deve estar o tempo todo em alerta, em toda a via, o verso também brinca com o sentido da conjunção adversativa: todavia. Em suma, diante da pressão sofrida sistematicamente por esse corpo preto e feminino, a resposta é ser sempre mulunga.
Ser mulunga também pode ser a proposta ética do livro. Para refazer, ou melhor, para colocar o corpo ontológico maltratado das pretas no centro de qualquer vivência cultural em um país não branco como o Brasil, parece ser preciso constituir o lar na fortaleza das ancestres em convivência com o tempo presente, em performance espiral, não na brutalidade da separação. Como aprendemos com Glissant, o trauma pode ser o ponto de partida para a constituição da memória, mas, para que esta construa casas, e mesmo lares, é preciso que o corpo sangrado se inscreva em poesia. Uma poesia-corpo cuja cabeça, orí, emerja da mistura das heranças. Daí a explosão da parte mais bonita do livro, os poemas de orí iwaju.
Voltando então às palavras que parafraseei de Ricardo Domeneck acima, percebe-se no livro de Nina Rizzi uma larga ressonância em diferentes comunidades, uma vez que parte imensa do Brasil não traz em seus espólios uma herança material doce que possa chamar de lar, porém traz, sim, em suas casas-corpos, a possibilidade de fazer do passado ainda um devir.