Chagas continentais

Lutas por terra e teto estão no centro dos romances de Itamar Vieira Junior, Maria José Silveira e Julián Fuks
Os romancistas Itamar Vieira Junior, Maria José Silveira e Julián Fuks
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Nas florestas, as brigas são pelos limites dos territórios indígenas e pela maneira como o Estado pode lidar com essas áreas. No campo, a tensão entre latifundiários e camponeses se arrasta por mais de século. Nas cidades, a questão se desdobra na luta de milhões de pessoas por moradia, por um teto para chamar de seu. Esses conflitos, que representam algumas das principais contradições do Brasil, estão representados em três romances nacionais lançados há pouco e que merecem a atenção dos leitores. Falo de Torto arado, de Itamar Vieira Junior (Todavia), Maria Altamira, de Maria José Silveira (Instante), e A ocupação, de Julián Fuks (Companhia das Letras).

O baiano Itamar traçou um caminho particular com Torto arado. Vencedora do Prêmio Leya de 2018, a obra saiu primeiro em Portugal, onde foi bastante elogiada, para só depois ser publicada por aqui. Na epígrafe, um trecho de Raduan Nassar entrega para o leitor uma das principais referências de Itamar e um pouco do que será encontrado ao longo de mais de 260 páginas: “A terra, o trigo, o pão, a mesa, a família (a terra); existe neste ciclo, dizia o pai nos seus sermões, amor, trabalho, tempo”.

Torto arado acompanha a história de duas irmãs: Bibiana e Belonísia, filhas de trabalhadores rurais que buscam sobreviver e dar alguma cor à vida numa fazenda do sertão baiano. A cena inicial do romance é carregada de simbolismo e aflição: crianças, as duas descobrem uma faca brilhante que a avó mantinha escondida. Numa brincadeira, levam a lâmina à boca. Uma se corta com certa gravidade, enquanto a outra decepa a língua. Só bem mais adiante que vamos saber quem se calou para sempre e quem passou a ser a voz da dupla. A necessidade de romper a barreira do silêncio e fazer com que a voz ecoe talvez seja a principal metáfora do livro.

Bibiana e Belonísia são filhas de pequenos agricultores que, após o fim da escravidão, viram-se presos às terras de antigos senhores. Vivendo em casas de barro (para que sempre lembrem que aquele lar é frágil, que podem ser chutados daquele canto a qualquer momento), trabalham em troca de ter um cantinho para plantar a própria comida. O acesso, ainda que parco, aos estudos permite àquelas pessoas que vivem sob o cabresto vislumbrar outra realidade. Apesar da resistência de diversos oprimidos, que preferem ficar do lado de seus capatazes, organização e luta se delineiam. Vozes que se erguem contra o machismo, contra os senhores da terra, contra a arbitrariedade da justiça e contra a truculência do poder instituído marcam o rumo da história.

Faço um recorte bem específico de Torto arado. Haveria diversos outros pontos para explorar na obra: o misticismo, a fome, a competência de Itamar para transformar a oralidade em literatura… Infelizmente não lembro quem foi, mas alguém disse que é um livro que já nasce com uma baita cara de clássico. Concordo. Do ótimo trabalho, retiro o fragmento da fala de um dos personagens; é um bom resumo do contexto histórico em que a narrativa está inserida:

Quando deram a liberdade aos negros, nosso abandono continuou. O povo vagou de terra em terra pedindo abrigo, passando fome, se sujeitando a trabalhar por nada. Se sujeitando a trabalhar por morada. A mesma escravidão de antes fantasiada de liberdade. Mas que liberdade? Não podíamos construir casa de alvenaria, não podíamos botar a roça que queríamos. Levavam o que podiam do nosso trabalho. Trabalhávamos de domingo a domingo sem receber um centavo. O tempo que sobrava era para cuidar de nossas roças, porque senão não comíamos. Era homem na roça do senhor e mulher e filhos na roça de casa, nos quintais, para não morrerem de fome.

Miséria e violência
Coincidentemente, Maria Altamira também apresenta duas protagonistas. O novo trabalho de Maria José Silveira, autora de romances como Guerra no coração do Cerrado (2006) e Pauliceia de mil dentes (2012), começa no Peru da década de 1970, quando um terremoto em Yungay, cidade no noroeste do país, provocou soterramentos que deixaram mais de 50 mil mortos na região. Na ficção, uma das raras sobreviventes dessa tragédia é Aleli. Após perder toda a família, a mulher parte sem rumo certo por uma jornada que a levará a diversos países de uma América do Sul tomada por ditaduras. Com a opressão dos militares no pano de fundo, a miséria e a violência ordinária (dois elementos que, junto com a truculência, permeiam toda obra), Aleli busca por formas de se proteger e sobreviver, aliando o talento musical ao bom manejo de armas brancas.

Merece destaque esse périplo que parte do Peru e passa por cantos perdidos de países como Chile e Argentina. Nos ajuda a lembrar que o Brasil deveria olhar mais para essa porção da América quando tenta encontrar o seu lugar no mundo. Cruzando nossa fronteira, Aleli se depara com uma realidade que espelha o que já presenciara em outros cantos. É na região do Xingu que acaba por se enroscar com um líder local. Após parir a filha, crente de que carrega em si uma maldição responsável por aniquilar todos ao seu redor, abandona a criança e segue a jornada rumo ao acaso. Nesse momento que a narrativa se divide. A história da peruana passa a ser contada em lampejos. É a outra protagonista, a filha deixada para trás, que toma o centro do texto. Falo, claro, de Maria Altamira.

Maria cresce no Xingu entre indígenas e ribeirinhos. Aos poucos, vê a região pobre se transformar em alvo de interesses escusos. Os madeireiros já rondavam o lugar há muito tempo, mas a grande virada se dá com a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, projeto hediondo que nasceu na ditadura militar e se arrastou pela história até ser colocado em prática pelos governos petistas. A construção das barragens destroçam a vida local. Direitos e tradições são afogados em nome da suposta civilização, que desaloja dezenas de milhares de pessoas e inunda centenas de quilômetros quadrados de terras que pertenciam aos indígenas.

Enquanto lugares onde muitos construíram suas vidas são tomados pela água, o fluxo de pessoas de outros cantos rumo à região do Xingu acaba por rapidamente degradar a sociedade local. A violência e o consumo de drogas (especialmente o álcool) crescem na mesma proporção em que homens chegam em busca de algum dinheiro. É dessa forma que aquela terra outrora sagrada parece se tornar terra de ninguém, uma terra sem lei. E aqui lembro de uma entrevista que fiz no ano passado com Eliane Brum, jornalista que vive há alguns anos em Altamira: “Viver numa das Amazônias, a do Médio Xingu, me deu uma outra compreensão da vida. Como convivo com povos cujos ancestrais já viveram o fim do mundo antes, caso dos indígenas, e com povos que acabaram de viver o fim do mundo de novo, caso dos indígenas e dos beiradeiros atingidos pela usina hidrelétrica de Belo Monte, tenho testemunhado como eles lutam. Nunca tinha visto ninguém lutar assim antes. Usam a alegria como ‘potência de agir’. A alegria de estar junto e de compartilhar a vida, mesmo na catástrofe. Riem por desaforo diante dos déspotas do mundo”, disse-me Eliane quando conversamos sobre o lançamento de Brasil, construtor de ruínas (Arquipélago, 2019).

Como acontece no livro de Itamar, são os estudos que indicam um outro horizonte para Maria Altamira. A filha abandonada de Aleli deixa a floresta e parte para uma temporada em São Paulo. E se ali a discussão era relacionada à terra, aqui passamos a olhar para um problema irmão: o direito e a luta por moradia. “Desde que chegou a São Paulo, uma coisa que impressionou Maria Altamira foi a organização do pessoal que morava no prédio. Enfrentar os problemas conjuntos, administrar o local ocupado, dividir as tarefas, preparar a ocupação de prédios desocupados que pudessem abrigar mais gente”, lemos no livro de Maria José Silveira, que prossegue:

Havia os profissionais voluntários que vinham para ajudar no que a organização precisasse. Advogados, médicos, sociólogos. Maria observava tudo aquilo, o sofrimento comum e ao mesmo tempo tão diferente de cada um, a luta cotidiana e, como um fio entrelaçando tudo aquilo, o direito de se alegrar e se afirmar: estamos aqui. Seu povo Yudjá também lutava assim: por seus direitos de viver, de morar, de se alegrar e, da mesma maneira, se afirmar: temos o direito de estar aqui.

Pegada social
Não pela forma, mas pelo conteúdo, o trecho poderia tranquilamente fazer parte do romance mais recente de Julián Fuks. A ocupação forma um díptico ao lado de A resistência, publicado em 2015 e que se transformou num dos livros mais elogiados e premiados de nossa literatura nestes anos 10. A ocupação traz características que são caras ao autor: capítulos breves, traços de autoficção e a presença de Sebastián, alter ego de Julián, o olhar para a Argentina, de onde os pais do escritor partiram por conta da última ditadura militar que vigorou no país vizinho (característica que é mais um bem-vindo aceno para nossa porção do continente), o forte diálogo com elementos políticos, a pegada social…

Numa narrativa fragmentada, o livro, como o título explicita, passa por ocupações: a doença que ocupa o corpo do pai do protagonista, o cãozinho Tango, que ocupa algumas das mais belas memórias afetivas, o bebê que ocupa o corpo grávido da mulher de Sebastián e até uma ocupação na própria narrativa. Quem escreve o capítulo 39, composto por uma carta, é o moçambicano Mia Couto, espécie de mentor de Fuks para esse trabalho graças a um programa cultural de uma fabricante de relógios pomposos.

O que brilha no livro, no entanto, são as páginas ocupadas pelos relatos daqueles que residem em ocupações. Sebastián passa dias ao lado dos residentes do Hotel Cambridge, um símbolo da luta por moradia na cidade de São Paulo. Quem vive no lugar são trabalhadores mal remunerados, pessoas deixadas pelos parentes, imigrantes que encontraram no Brasil uma família improvável, composta por desterrados de vários cantos do mundo. É um povo que busca não apenas por abrigo, mas por um lar. Sebastián poderia tranquilamente encontrar Maria Altamira numa dessas visitas. Também poderia encontrar descendentes de Bibiana e Belonísia, gente que, décadas depois do fim da escravidão e da batalha de familiares contra a servidão, ainda luta por um canto que lhes pertença.

“Ocupar era o imperativo de todos eles, ocupar as praças, as ruas, os prédios vazios, povoá-los com seus corpos ainda firmes, com sua vida incontível. Ocupar era uma urgência dos corpos, convertida no mais contundente dos atos políticos, a afrontar a resignação dos serenos”, registra Sebastián, via para que Fuks permita que sua obra seja ocupada pelas muitas histórias que podem ser encontradas no Cambridge.

Dessas histórias, chamo atenção para uma que me causou especial angústia. Após o sumiço do marido que passou “quinze anos rastejando na cozinha atrás de comida”, Rosa precisou lidar com uma infestação de ratos em sua casa. Não foi fácil achar alguém que lhe ajudasse a envenenar os bichos. Só que a matança trouxe um novo problema, este ainda maior. Primeiro foram os corpos dos roedores que começaram a aparecer por todos os cantos. Depois, sem dar conta de eliminar aqueles que morriam no forro, viu sua casa ser ocupada a ponto de precisar deixá-la:

Fui dormir e senti que dormia pela primeira vez em vários dias. Ainda assim, acordei no meio da noite com um respingo no rosto, passei a mão e estranhei a textura pegajosa. Quando acendi a luz, fui dar com uma multidão de larvas na minha cama, nos meus braços, no pescoço, só podiam ser larvas o que eu tinha no rosto. Caíam pelo soquete da lâmpada, era uma nova infestação que atacava a infestação de ratos mortos. Saí do quarto assustada e fui dar com mais larvas na sala, numa trilha longa pela parede, pela cômoda, pelos livros [….]. São um nojo, as larvas. Têm o cheiro daquilo que comem, carniça pura se espalhando pela casa. Eu agora era só raiva, não me sobrava nem consciência nem dó. Fervi um panelão e comecei a afogar os bichos todos, mas eles pareciam se multiplicar por efeito da água, era larva viva e larva morta transbordando por toda parte. Eu não sabia mais o que fazer, eu só sabia que tinha que ir embora.

É na conversa com Sebastián que Rosa brada sua luta: “O caso é que eu cansei de ser ocupada, por homem, por rato, por larva. Agora é a minha vez de ocupar, você não acha?”. Já na visão de Fuks, em referência ao díptico escrito, ocupar e resistir são palavras de ordem que definem as batalhas de nossos dias. Lembrando da conflagração por um pedaço de terra no interior da Bahia narrada por Itamar Vieira Junior e da maneira como as terras indígenas foram tratadas no Xingu de Maria José Silveira, notamos que os verbos também ditam o tom das lutas que marcam boa parte da história do Brasil.

 

OS AUTORES

Itamar Vieira Junior
Geógrafo e doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA, publicou os livros de contos Dias (2012) e A oração do carrasco (2017). Com Torto arado, seu romance de estreia, venceu o Prêmio Leya de 2018.

Maria José Silveira
Formada em comunicação e em antropologia, com mestrado em ciências políticas, estreou no romance com A mãe da mãe da sua mãe e suas filhas (2002, reeditado em 2019). Maria Altamira (2020) é sua publicação mais recente.

Julián Fuks
Doutor em literatura pela USP, é jornalista de formação, com passagem pela Folha de S. Paulo. Autor de cinco livros — um de contos e quatro romances —, foi considerado em 2012 um dos 20 melhores escritores brasileiros com menos de 40 anos pela revista Granta. A ocupação (2019) é sua publicação mais recente.

 

A ocupação
Julián Fuks
Companhia das Letras
134 págs.

Torto arado
Itamar Vieira Junior
Todavia
264 págs.
Maria Altamira
Maria José Silveira
Instante
280 págs.

Rodrigo Casarin

É jornalista, especialista em Jornalismo Literário com pós-graduação pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário e editor do Página Cinco (paginacinco.blogosfera.uol.com.br), blog de livros do Uol. Além disso, colabora ou já colaborou escrevendo sobre o universo literário com veículos como Valor Econômico, Carta Capital, Continente, Suplemento Literário Pernambuco, e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019.

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