As páginas adiadas

Em "Lacunas", Felipe Charbel transforma livros adiados em “promessas de alegria” e investiga as faltas que também formam um leitor
Felipe Charbel, autor de “Lacunas”
01/09/2026

Livros que falam sobre livros despertam um tipo específico de deleite naqueles sujeitos que estabelecem uma relação vital com suas leituras — sejam as leituras feitas ou vindouras. Há algo de muito prazeroso em reconhecer no texto alheio a mesma paixão por alguns títulos, o zelo por certos exemplares e tudo que envolve o processo de formação de um leitor, digamos, proficiente. É como se um aficionado encontrasse uma fresta para espiar outro aficionado e descobrir, veja só, que não é o único que planeja as leituras de férias com um toque de mania.

É precisamente este o efeito que Lacunas: sobre amar os livros que não lemos, de Felipe Charbel, causa. Bibliografia agora indispensável, a obra possui outra característica que a torna imperiosa. Trata-se de uma obra literária, sim, mas do gênero ensaio. Por isso, ainda tem a virtude de ocupar o espaço ensaístico que poderia ser mais explorado na literatura contemporânea nacional.

Hiato íntimo
Um bom leitor tem consciência de que não leu tudo o que deveria ou gostaria de ter lido. São as faltas que ganham sentido em Lacunas. Antes de falar delas, todavia, é importante inverter a ordem de prioridade, avançando em direção ao que Charbel chama de “[um hiato]”, assim, entre colchetes. Para destacar a diferença temática que ali fica estabelecida, há uma mudança na cor de papel e até na fonte dos caracteres. Em seu hiato, o autor faz um ensaio sobre o período pandêmico como observador dos fenômenos coletivos de negação da ciência, misticismo e messianismo. É nesse momento que se consolida a impressão final de que Charbel é um ensaísta “necessário” — termo desgastado como os “afetos” e “atravessamentos”, mas que aqui é a palavra exata. Porque necessitávamos de um ensaio como “[um hiato]”, texto que descortina uma memória recente, mas nem por isso menos traumática.

Para falar sobre o negacionismo da vacina e teorias da conspiração, Charbel relembra os ímpetos místicos de sua mãe no início dos anos 1990. As visões obtidas em supostas “viagens astrais” na época e as informações sobre uma espécie de apocalipse, obtidas por informantes “do outro lado”, culminam na propagação de boatos durante a pandemia de covid-19 em 2021 e o radicalismo político na eleição de 2022.

Dessa vez, os desafortunados que seguiram nesse planeta assolado por doenças eram os vacinados. Já os demais, os que sabiam da “verdade”, seriam enviados em naves intergalácticas para algum planeta aprazível, onde teriam uma existência de delícias e viveriam numa paz de mil anos.

Seu maior medo — por isso ela me implorava para não tomar o “veneno” — era que nunca mais fôssemos nos encontrar, visto que, vacinado, o meu acesso às naves não seria concedido.

A esta altura, não foi dado o devido destaque ao tema principal do livro, os livros que não lemos. Mas é que a discussão íntima das consequências dos boatos delirantes da pandemia talvez nunca tenha sido feita com a competência de Charbel. Parte significativa daquilo que faz com que o ensaio “funcione” está naqueles traços intrínsecos ao gênero ensaístico. O autor não buscou exaustivamente na sociologia e nas ciências políticas o fundamento, mas na sua própria experiência. Lembrar e narrar operam também como método.

Lacunas leitoras
Passar boa parte do tempo buscando fontes confiáveis para desmentir teorias da conspiração, enviar links que comprovam fatos e responder às falácias pelo WhatsApp no intuito de salvar aqueles que amamos são atos desgastantes. As lacunas de livros não lidos na vida de qualquer leitor tendem a se ampliar quando esse cenário de níveis altos de cortisol alto pelo estresse da sobrevivência é rotineiro.

Quiçá os dias de quarentena pudessem ter sido ocupados lendo os sete tomos de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. Mas a preocupação com os milhares de mortos era justificativa mais do que suficiente para todos nós adiarmos a leitura para um momento mais agradável. Em busca do tempo perdido, aliás, é uma das lacunas deliciosamente admitidas por Charbel e pragmaticamente solucionada mais tarde. Quando resolve a pendência autoimposta, o faz sem a idealização que tanto atrasara o encontro definitivo entre ele e Proust.

Dois traços me definem como leitor: a voracidade e o sentido de déficit. Leio rápido e leio muito (a ansiedade é soberana nos meus dias), mas nunca dei conta de sanar as minhas faltas, que só vão aumentando a cada dia que passa. A biblioteca de lacunas é bem mais sedutora que uma parede coberta por livros lidos.

Desconfio que as lacunas são o que existe de mais valioso na composição química de um leitor. Elas nos individualizam tanto ou mais do que aquilo que absorvemos no contato direto com um livro (…).

Leitor incompleto
O trecho acima sintetiza a ideia do ensaio de um autor que, embora queira solucionar as suas lacunas, reconhece que elas são partes indissolúveis de quem se entende como leitor. Não há maneira honesta de ler toda boa literatura mundial — aqueles livros e autores que são mais ou menos consensuais por sua importância e qualidade — e ler tudo aquilo que se deseja ler livre de obrigação e apenas por prazer.

Charbel presta um serviço de utilidade pública para a comunidade leitora ao elencar os tipos de lacuna. Afinal, nem toda lacuna é igual. Há, nas suas palavras, “leituras que protelamos por gosto”.

As vigas de sustentação de uma biblioteca não são os livros que lemos e depois guardamos, que nos orgulhamos de ter em casa. Trata-se do oposto disso. São lacunas que concentram as maiores promessas de alegria de qualquer coleção de livros (reler pode ser mais prazeroso do que ler pela primeira vez, mas só regressamos ao que já foi cobiçado, ao que algum dia identificamos como falta ou como desejo ou as duas coisas ao mesmo tempo).

Ora, pensar em livros não lidos como “promessas de alegria” é um acalento para quem sente viver em dívida eterna. É a partir desse ponto que o autor cava fundo ao tentar entender os livros que não leu, até mesmo com certo viés psicanalítico. “Por que é que não li os livros que preferi não ler?”, questiona-se. E segue investigando ao “confirmar que os hedonistas literários se deliciam com os prazeres da protelação quase tanto — ou até demais — do que com os prazeres da leitura”.

Tipologia das lacunas
Charbel evoca Borges, para quem não existiam lacunas formativas. Portanto, todas as lacunas seriam amorosas. É sobre elas que o autor se debruça. A sua tipologia começa com a “lacuna interessada”, quando tem curiosidade legítima sobre um livro e até faz leituras preparatórias, mas “o entusiasmo acaba se convertendo em bloqueio” e, portanto, em novo adiamento. Depois, “a lacuna como presente que nos ofertamos”, como quando protelou ler Guerra e paz, de Tolstói, mesmo acumulando diferentes edições. Para ele, era uma satisfação presentear-se com a lacuna. Quando finalmente leu, não ficou feliz como imaginava. Em seguida, “a promessa do tédio”, quando a certeza de aborrecimento com descrições e até o número de páginas é o que “abre o apetite” para a leitura. O autor elenca ainda “a lacuna supersticiosa” e cita como exemplo Em busca do tempo perdido, que precisou interromper por afazeres cotidianos, um desentendimento conjugal e até por tê-lo perdido no metrô. Esses livros, diz, “soam como agouro”. Há também a “evasão do difícil”, talvez a mais popular entre os leitores e para a qual cada um terá uma definição muito particular do que é difícil para si. No momento da escrita da lista, Charbel cita como exemplo Ao farol, de Virginia Woolf. A seguir, classifica a lacuna por “leitura fracassada”; afinal, nessa tipologia, o autor fala dos livros lidos sem que “uma única cena aderisse à memória”. Há também as lacunas por “aversões imprescindíveis”; o exemplo de Charbel é o de Graça infinita, de David Foster Wallace, livro adiado mais pelo séquito de fãs do que pelo livro em si. Os livros não lidos por raiva, num esforço para responder à imposição, compõem a “lacuna obstinada”. O autor confessa que só foi ler Dom Casmurro, de Machado de Assis, perto dos 40 anos, mas obteve uma máxima recompensa. Por sua vez, a “monogamia literária” diz respeito àqueles conscientes de tudo o que falta ler, mas que optam por reler sempre os mesmos livros. E, por fim, a lacuna por “chegar tarde demais”, quando um livro parece ter perdido o prazo de validade — o caso de alguns clássicos infantojuvenis quando lidos na vida adulta.

Outros títulos
O livro de Charbel chega aos leitores em um momento em que outros “livros sobre livros” foram lançados. Não é possível afirmar que se trata de uma tendência e, na verdade, não faz diferença. O que importa é que os bibliófilos podem complementar e comparar suas leituras, somando Manifesto pela leitura, de Irene Vallejo (Dublinense), e O idioma materno, de Fabio Morábito (Relicário). Ambas são leituras leves, uma em defesa da leitura e outra sobre tudo que envolve a bibliofilia: editores, revisores, escritores e, claro, leitores.

Lacunas: sobre amar os livros que não lemos
Felipe Charbel
Relicário
128 págs.
Felipe Charbel
Nasceu em 1977 no Rio de Janeiro (RJ). É escritor, ensaísta e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Charbel é autor de Janelas irreais — um diário de releituras (Relicário, 2018) e Saia da frente do meu sol (Autêntica, 2023).
Paula Sperb

É jornalista e crítica literária.

Rascunho