Nosso corpo estranho, do gaúcho Reginaldo Pujol Filho, é um desses livros que causam certo mal-estar nas prateleiras. Parte da crítica e da teoria literária, apesar dos esforços contemporâneos para romper com formas fixas, insiste na necessidade de classificar obras em categorias. Outros são do time que defende a anarquia dos gêneros, mas por vezes ignoram aspectos formais decisivos. Como, então, pensar um livro cuja matéria são os textos de uma exposição fictícia?
Os letreiros que amontoam curiosos em museus (e que uma outra parte do público apenas ignora) saem das margens para conquistar o protagonismo em Nosso corpo estranho. Trata-se mesmo de uma obra de ficção? Sim, o subtítulo João Pedro: retrospectiva refere-se a um artista que nunca existiu. Seriam, dessa forma, contos? Ou um romance fragmentado, capaz de sintetizar a trajetória de seu personagem? Afinal, sua vida e obra “sempre andaram juntas”.
O leitor já encontra aí uma série de deslocamentos. Pujol Filho traz para o centro de seu livro algo que é relegado ao segundo plano das exposições. O autor se coloca como o curador da mostra, a retrospectiva do artista brasileiro João Pedro Bennetti Bier. De sobrenome chique, família rica e fama de controverso, JP é a cara do mundo das artes. Ainda assim, o pertencimento de sua obra ao mercado artístico brasileiro é uma questão fundamental. Trata-se de um gauche, incompreendido por seu próprio tempo.
Agora, a retrospectiva tem a ambiciosa missão de resgatar João Pedro, um “corpo estranho que é nosso”, para a arte brasileira, “embora ele tenha sido mantido estrangeiro de nossa história”. Aos 18 anos, João Pedro já vivia sozinho em Nova York (onde teve contato com ícones como a estrela-guia da pop art Andy Warhol) e sua obra pouco dialogava com o momento político brasileiro, o processo de abertura democrática, no início dos anos 1980.
O título do livro — também o título da retrospectiva — resume de modo exemplar as questões levantadas por ele, pela curadoria da mostra e pela obra de João Pedro. Primeiro, o pronome possessivo, indicação de algo que nos pertence coletivamente. Ao fim, o estranhamento. São muitas as reflexões possíveis, que cabem dentro dessa contradição. Em um de seus textos fundamentais, O inquietante (1919), Sigmund Freud já apontava que o infamiliar, aquilo que é estranho e alheio, poderia conter em si o “familiar”, o conhecido.
Materialidade
No meio disso, está o corpo. Por meio dele, João Pedro se torna um símbolo da construção formal do livro: a materialidade é colocada em primeiro plano; um texto que chama atenção para seu próprio “corpo”, que gera estranhamento e desloca-se de seus pares. A relação entre forma e conteúdo é bem costurada, mas seria mais proveitosa se viesse como uma provocação, levantando questionamentos. Mesmo considerando a adoção de uma voz narrativa que se apropria da paródia, acentuando a ironia, são pouco sutis, por exemplo, os trechos que afirmam conclusões que poderiam pertencer ao leitor:
Corpo estranho geograficamente, entre o país natal e a cidade que nunca dorme, mas também nunca abraça. Corpo estranho em busca de novas expressões em meio à década da retomada da pintura. Corpo estranho ideologicamente, acusado de ser alienado por não dialogar com o Brasil em plena abertura política nem com a luta pelos direitos civis das pessoas soropositivas.
Ora, o leitor é convidado de honra desse universo ficcional: é ele que (re)constrói no exercício imaginativo as criações artísticas de João Pedro. Nada mais justo que tenha a liberdade de interpretar e dar sentidos ao “corpo estranho” a partir de sua leitura. Ou há aqui uma crítica às exposições que buscam guiar o olhar de seu espectador, castrando perspectivas que fujam ao foco da mostra? É possível, mas não deixa de causar certo incômodo.
Nosso corpo estranho teve uma trajetória curiosa até a publicação pela Fósforo. A obra surgiu inicialmente como parte da tese de doutorado em escrita criativa de Reginaldo Pujol Filho. Para a banca de defesa, foi montada uma exposição, processo documentado pelo trabalho acadêmico. Em seu formato final, na publicação em livro, as obras são suprimidas, ausência que testa os limites da linguagem, a partir da ausência imagética.
Participação ativa
As palavras, assim, devem dar conta da experiência. Se Jean-Luc Godard sugere em seus filmes um “pensar com as mãos”, Pujol Filho propõe um pensamento quase cego, que se reestrutura e imagina no exercício da reinvenção, pressupondo a participação ativa do leitor. É algo à beira do platônico: vemos obras que não existem, que estão apenas no campo das ideias e, nisso, criamos uma espécie de mimese interior.
Difícil não se envolver com a vida errante de João Pedro Bennetti — tão errante quanto é possível com todos os seus privilégios, o livro deixa claro. Os textos da mostra dão fragmentos da trajetória de JP, quase um personagem romanesco em sua essência. Não por coincidência, o curador nos apresenta a ideia de “vidarte”, ou, como é comum dizer no meio artístico, uma vida é um “work in progress” [trabalho em andamento]. “Quando nasce um artista?”, provoca Pujol, curador-narrador. A resposta é direta: poderia ser na primeira festa promovida por sua mãe?
Os vícios do meio artístico continuam sendo expostos. O curador quer nos apresentar a poética joaopedriana, tão potente que foi “capaz de antever a multiplicação de telas”. Constrói-se, assim, a imagem do artista torturado, trancado em seu estúdio e a serviço do fazer criativo. Por outro lado, é curioso que esse artista, que rejeita tudo e a todos, nunca tenha rejeitado o patrocínio familiar — ironia que não passa despercebida pelo narrador, que acaba por explicitar uma crítica que poderia ser elaborada pelo próprio leitor.
Nosso corpo estranho é exemplar na criação de imagens — obras que nunca vimos nos parecem tão vividas em nossa própria recriação. Em um de seus primeiros trabalhos, com título de “Me:untitled”, lemos que o artista usou materiais como as bandeiras brasileira e dos Estados Unidos, o passaporte, sangue e sêmen. Uma combinação no mínimo inusitada. Em outra, tensiona a influência de Andy Warhol em sua obra com uma performance no limite da apr opriação. Quebra-cabeças são usados para representar quem é artista “mas não quer ser peça fácil de se encaixar nesse jogo”.
Ironia afiada
A arte é um grande fascínio das letras. Uma sátira desse universo, com seus jargões e figuras típicas, foi, não muito tempo atrás, tema do romance Os coadjuvantes (2022), de Clara Drummond. Reginaldo Pujol Filho leva essa representação ao máximo com uma ironia afiada e consciente. Impossível não se divertir com a leitura. Esse corpo estranho é nosso, diz o curador, “é João. é Pedro”. O livro abre com Caetano Veloso: “de perto, ninguém é normal”. Não é arriscado dizer que o narrador-curador abraça a língua do “Temercore”, momento do final da década de 2010 em que jovens progressistas criaram quase um dialeto próprio para discutir a cultura do país, em reação ao avanço do conservadorismo.
O “ser ou não ser” de João Pedro espelha uma falta de sentido. Por meio dos recortes da curadoria, temos o sujeito fragmentado, ao mesmo tempo romanesco e trágico. Nosso Hamlet das artes pouco convence, os textos da exposição revelam a tentativa das palavras de dar conta de uma poética que pouco se sustenta. Nisso, Reginaldo Pujol Filho chega perto do espírito cultural de nossa época. Resta a figura mítica desse artista-herói, tombado pela epidemia da aids antes dos trinta anos — e cabe ao ensaio resgatar sua arte.
Experimentações são sempre bem-vindas na literatura. Basta lembrar do OuLiPo, grupo surgido na França dos anos 1960 em busca de soluções originais para a escrita, ou do sucesso de Anne Carson, eterna cotada ao Nobel, cuja poética se funde ao ensaísmo. No Brasil, temos a preciosidade de Maria Esther Maciel em Pequena enciclopédia de seres comuns (2021), obra que reafirma a força da escrita híbrida e inventiva. Ainda que o êxito de Nosso corpo estranho talvez não seja consensual enquanto experimentação, trata-se de uma leitura que surpreende positivamente. Resta torcer para que, em meio a tanta autoficção, o livro não se perca nas prateleiras.