A última fronteira do humano

Em "A franja do fim do mundo", Sérgio Abranches combina distopia climática, filosofia e ação cibernética para investigar o que ainda resta da humanidade
Sérgio Abranches, autor de “A franja do fim do mundo”
01/08/2026

O novo romance de Sérgio Abranches, A franja do fim do mundo, apresenta-se como uma distopia cibernética, com um retrato apocalíptico logo no primeiro capítulo, Colapso. Nele, revelam-se os efeitos climáticos que fazem da Terra um local inóspito, com poucas cidades sobreviventes, em que nos é apresentado o professor Ricabê, um dos protagonistas desse enredo instigante, uma vez que funde teoria a uma narrativa de grande ação a partir da tecnologia. Temos toda uma sintaxe cibernética, cuja linguagem é um desafio para o leitor-pesquisador que terá que buscar os significados dos termos técnicos do mundo virtual, de seus aparelhos e mecanismos, bem como do mundo da robótica e da inteligência artificial. A obra se equilibra entre um choque de realidade, com um estilo objetivo e seco, sem deixar a poesia de lado, e arroubos líricos em momentos fascinantes que encantam o leitor.

O livro, entre o ensaio e a ficção científica, se mostra como algo de potente complexidade com a análise de personagens pelo narrador e a profundidade de conhecimentos que os personagens têm, como Ricabê, professor de filosofia, Gal, sua aluna de doutorado em filosofia, e Rãnagá, chefe do departamento de filosofia. A ambientação da Cidade Universitária, em A franja do fim do mundo, transcorre em um local ainda protegido por seus próprios componentes tecnológicos, num tempo futuro muito distante de nossa época atual. A trama estará centrada nesses três personagens principais.

No breu da sobrevivência
A era pós-colapso é dominada por super-ricos que vivem em bunkers protegidos por milicianos. Apesar de ser uma distopia cibernética, o enredo se apresenta como algo que reflete épocas anteriores, com divisões de classes e segmentos de poder na sociedade, com a questão dialética das oposições dos elementos em conflito:

No breu se conhece a verdade. É nele que o real se dispõe para os humanos sobreviventes do colapso. Nas noites apagadas cada um chega ao âmago do ser para se interrogar. É o instante em que vida e morte se tocam. É nele que, noturnamente, as pessoas encontram o começo e o fim, o alfa e o ômega. Toda história pessoal é antes e depois do apagão. É nele que a pessoa se descobre por inteiro. Nele se vive ou se morre.

Quando a noite chegava, as pessoas ficavam na penumbra. Então, o professor Ricardo Abe, Ricabê, conseguia, com seus recursos econômicos como professor universitário de filosofia, comprar as baterias para sair do apagão. Mas nem todos tinham os recursos necessários, o que demonstra os desníveis no âmago desta sociedade estratificada, em que o certo e o errado se reduzem à lei da sobrevivência, algo que será crucial quando Ricabê conhece sua aluna questionadora em sua turma de doutorado.

Ricabê se autodepreciava numa atitude niilista sobre si mesmo e o mundo, o que incomodava Rãnagá, que o considerava um gênio. Tal fato será contestado pela brilhante aluna Gal que, após abordar o professor na Universidade, critica seu estilo abstrato e fora da realidade, embora o considere inteligentíssimo, elogiando-o. O professor vai viver a concretude do real de forma radical a partir do apaga-pega, quando, nas zonas não protegidas e proibidas, se usavam armas avançadas para matar ou morrer no meio das sombras da noite.

Professor e aluna, numa moto elétrica, viverão as aventuras várias vezes, na hora da vida e da morte. Na casa dele, o envolvimento sexual se dá, e um erotismo forte cobre a narrativa de forma visceral, havendo um triângulo amoroso, no qual Ricabê também se envolve com Rãnagá; as duas se diferenciam dele, pois viam qualquer tipo de relacionamento como algo imediato e presentificado. O amor era considerado por sua agoridade, o instantâneo, como um flash, que duraria enquanto pudesse, já que vivenciavam uma era terminal, assim, qual seria a esperança do afeto duradouro?

Apesar da depressão e do desencanto do professor, o sentimento amoroso se manifestava de outra forma, que nos remete a Vinicius de Moraes, para quem o amor se revela, paradoxalmente, como algo infinito enquanto dure. E, após o apaga-pega, na escuridão da cidade, eles iriam às raves, “onde vivia a alegria sintética das festas delirantes”, com vários estilos de música, bebida, dança e beijos ardentes entre Gal e Ricabê, terminando na prática sexual. No Barsenal, havia de tudo em matéria de armas. No início, ele fica com muito medo do apaga-pega, mas acaba cedendo e vai.

Gal é hacker — a mais poderosa delas — e luta contra cibercriminosos, aceitando pagamentos altos por serviços nos quais utiliza vários heterônimos, sendo o principal @Aisha, o que nos faz recordar a tradição de Fernando Pessoa. Ela troca de perfil para se defender e atacar seus inimigos. Câmeras, microcâmeras e drones a protegem em sua base, bem fortificada, mas, mesmo assim, violável, como se verá: “A ciberesfera não era uma cópia digitalizada da socioesfera. Era mais complexa, um outro plano, multidimensional, onde se vivia, movia, falava, usava artefatos, fazia reuniões”.

O importante teórico Karel Kosík nos apresentou seu pensamento de que, na época moderna, a dele, não havia mais a possibilidade do trágico, ao citar A metamorfose, de Kafka, e sim viveríamos a era da catástrofe. Aqui, no precioso romance de Sérgio Abranches, poderíamos falar de um “colapso” a partir de erros humanos através da própria ciência e tecnologia, numa sociedade genocida.

Há uma expedição no avançar do livro, em que as classes dos Legionários e Invasores se unem, apesar de seus conflitos, para ultrapassar a névoa tóxica, a franja do fim do mundo, para encontrarem um universo paralelo e salvarem o planeta. E a Cidade Universitária também seria uma forma de conter o avanço do colapso, mostrando o valor do conhecimento dos professores de várias áreas, pesquisa e práticas.

O valor humano, a essência, húmus da individualidade, que se movimenta para o coletivo seria uma forma de conter o fim do mundo? É essa a principal questão que atravessa este romance enigmático e, ao mesmo tempo, com uma precisão cirúrgica na forma de narrar, no qual temos livros de várias épocas sobre teorias e obras literárias que respaldam ricamente a narrativa, com as referências bibliográficas no final da obra. Algo brilhante que urde o conhecer filosófico, científico e artístico em seu valor ensaístico, que faz dele um romance-ensaio sobre a ficção científica na raiz do seu próprio surgimento, na origem, até o avanço ao longo das épocas.

Entre o humano e o cibernético
Também não falta à obra o elemento místico, com lisérgicos em doses bem controladas, usados para atingir um estágio avançado de consciência por meio da meditação e de alucinações rápidas, mas que parecem infinitas — recurso que Gal utiliza juntamente com Ricabê para suas visões reveladoras. A doutoranda tem até que ir a um monastério para saber quem foi o hacker que atacou o computador de Ricabê e o de seus pais.

No local onde Gal morava, a jovem tinha um nome verdadeiro que não poderia ser descoberto por ninguém, senão seria o seu fim. O invasor deveria ser um hacker tão poderoso quanto ela. No livro, revela-se a pirâmide do mercado de trabalho e da sociedade como um todo. Só que não havia leis tão rígidas nos apaga-pegas, havia um pacto entre duas forças opostas, dos ravers e dos glockers, com uma linguagem virulenta, em que a crueldade domina a cena, com um tom ríspido e rascante. Os corpos, nesse mundo, só serviriam à força do capital, num universo doentio.

Além disso, toda uma semântica tecnológica é vista através do olhar do narrador a partir de Gal e suas conexões com outros heterônimos. A franja do fim do mundo se caracteriza por sua força, por uma magia cibernética que nos envolve e nos faz saber, com sabor e muito gosto, desse universo extremamente rico numa aventura cibernética visceral.

A fragilidade do ser nos é apresentada em reinos do paradoxo, em que o conhecimento não conseguiu conter o projeto armamentista, constituindo-se numa fotografia de nossa própria época, revelada no romance cortante de Sérgio Abranches. O objeto manipulado pelo ser e a cibernética tecnológica como reino do não humano também são questões que se multiplicam no livro.

E, mesmo assim, o autor se utiliza de uma linguagem poética ao se referir a certos nomes, como à região dos lisérgicos, “Alameda do Delírio” ou “Beco do Silício”, com a venda de tudo que era necessário ao mundo do ciberespaço. Os brechós da “Praça das Surpresas”. E o professor Ricabê desconfiava que Gal tinha um trabalho perigoso, que ele desconhecia. Gal é negra e mora no Quilombo Universitário com seus pais, professores do departamento de física. E também morava na cidade, na Zona Central, onde trabalhava como hacker. Torna-se uma ciborgue, devido a um acidente no passado, em que tem partes biônicas no seu corpo. E se revelam as duas faces dessa cidade sobrevivente a partir da fala de Ricabê na sala de aula:

O banarquismo é uma teoria que se nutre, em parte, dessa forma de organização social, que põe ênfase na ausência de hierarquias de mando. Já a organização dominante, fragmenta e isola, além de ser tirânica.

Os clássicos da ciência do passado, da filosofia e da arte utilizados pelo professor não são anacrônicos, mas premonitórios com relação a este tempo da narrativa. Com grande maestria, Sérgio Abranches retrata o cotidiano de uma aula na universidade. E o faz também em relação à Cidade Universitária, vista como algo que ilumina, contrapondo-se à escuridão do apaga, onde não havia lei. A visão do livro não é do senso comum, mas de teorias bem fundamentadas.

Portanto, uma coisa é certa: o professor Ricabê se torna alguém diferente no apaga-pega, deixando o Sombra surgir dentro de si, enfrentando seus demônios internos. E o amor, o prazer e o desejo não seriam os maiores motores dessa mudança, ultrapassando o espaço da ciberesfera para atingir o mais humano em nós? Fica como questão para os leitores.

A franja do fim do mundo
Sérgio Abranches
Faria e Silva
208 págs.
Sérgio Abranches
Escritor, sociólogo e jornalista. É autor dos romances O intérprete de borboletas (Record, 2022), Que mistério tem Clarice? (Biblioteca Azul, 2014) e o O pelo negro do medo (Record, 2012). Publicou vários ensaios, entre os quais Presidencialismo de coalizão — Raízes e evolução do modelo político brasileiro (Companhia das Letras, 2018), finalista do Prêmio Jabuti na categoria Ensaio/Humanidades, e A era do imprevisto — A grande transição do século XXI (Companhia das Letras, 2017), vencedor do Prêmio Literário Nacional PEN Clube do Brasil como Livro do Ano de Ensaio em 2018.
Alexandra Vieira de Almeida

É professora da rede estadual do Rio de Janeiro. Foi tutora a distância durante oito anos da faculdade de Letras do Consórcio Cederj/UAB– UFF. É doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Completou um estágio pós-doutoral na UnB e atualmente está fazendo outro pós-doc na PUC-Goiás. Tem oito livros de poemas publicados. O mais recente é A mecânica da palavra (2022, Penalux). Possui poemas e contos traduzidos para vários idiomas.

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