A Terra em órbita

"Orbital", de Samantha Harvey, acompanha seis astronautas em uma viagem que transforma a Terra em espelho da humanidade
Samantha Harvey, autora de “Orbital”
01/07/2026

Em abril deste ano, o mundo acompanhou as notícias da missão Artemis II, voo tripulado que realizou um sobrevoo da Lua e apresentou impressionantes registros fotográficos da face oculta do satélite com nosso planeta ao longe. Quatro astronautas partiram a bordo da espaçonave Orion e retornaram dez dias depois, com a amerissagem da cápsula no Oceano Pacífico. Tivemos informações sobre seu treinamento e vimos as entrevistas concedidas ao término da missão. Embora o “turismo espacial” esteja se tornando algo concreto para uns poucos privilegiados, entrar em uma nave e ser lançado ao espaço não tem nada de banal e ainda povoa nosso imaginário como uma das experiências mais intensas e assombrosas que o ser humano pode vivenciar. Por conta da proximidade temporal, a missão Artemis II voltou diversas vezes à minha mente durante a leitura de Orbital, quinto romance da inglesa Samantha Harvey e vencedor do Booker Prize de 2024. O livro também me evocou 2001: Uma odisseia no espaço, o célebre filme de Kubrick, além de uma série de cenas espaciais que fazem parte do meu imaginário (bastante influenciado pelo cinema). A sensação de espanto e maravilhamento ao observar a Lua e nosso planeta nas fotografias da missão Artemis II guarda semelhanças com a experiência de leitura de Orbital, livro que provoca uma sensação parecida por meio de sua linguagem.

Ainda que uma narrativa que se passe no espaço possa ser pensada dentro do campo da ficção científica, Orbital não se classifica dentro de um gênero específico. Harvey é formada em Filosofia e sua escrita tem um viés bastante meditativo. O fato do cenário ser uma estação espacial é definidor na medida em que o livro aborda em detalhes a rotina profissional dos astronautas, mas o escopo da autora está em uma reflexão sobre nossas vidas e nossa relação com o planeta Terra.

Orbital nos conta o período de um dia em uma missão espacial. Acompanhamos 16 órbitas ao redor da Terra vivenciadas por um grupo de seis astronautas: um americano, dois russos, uma japonesa, uma inglesa e um italiano. A noção de tempo é vivida de forma particular pela tripulação, já que, nas 24 horas narradas, eles verão diversos começos e fins de dia no percurso de sua rota. A narração onisciente alterna momentos descritivos bastante focados nas imagens do trajeto da espaçonave — “o Ártico em tons de lavanda, a ponta leste da Rússia desaparecendo atrás, tempestades ganhando força pelo Pacífico, as manhãs vincadas do deserto e montanha dos desertos de Chad, do sul da Rússia e da Mongólia, depois o Pacífico, mas uma vez” — com momentos que apresentam pensamentos e sentimentos da tripulação:

A princípio nas missões todos sentem falta da família, tanta falta às vezes que a saudade até parece roer suas entranhas; agora, por necessidade, eles passaram a ver que a família deles é essa aqui, esses outros que sabem as coisas que eles sabem e veem as coisas que eles veem, com quem não precisam gastar nenhuma palavra para explicar nada.

A narração de Harvey busca transmitir a movimentação em círculos mostrando as paisagens do ponto de vista dos astronautas: fronteiras, rios, vegetações, desertos que surgem e se dissipam enquanto a espaçonave segue sua rota. A sensação de movimento, no entanto, consegue se mesclar a uma linguagem mais densa, trazendo observações sobre o que ocorre no planeta nas quais temas como guerras, clima, ambições, desejos humanos e as histórias de vida dos astronautas entram em cena. O ponto alto do romance, a meu ver, está nessa convergência entre movimentação e imersão. Há ainda uma discussão sobre perspectiva colocada de forma elaborada a partir de menções ao quadro Las meninas, de Velázquez. Um dos astronautas, Shaun, tem uma história especial com a pintura já que seu relacionamento com a esposa tem início em uma aula de artes sobre a obra. Reflexões sobre Las meninas entram na narrativa a partir de discussões sobre quem observa e de que ponto observa, temas comuns em análises sobre o quadro. As mesmas questões estão presentes no romance que oscila entre a observação da Terra do ponto de vista da espaçonave e a vida cotidiana dentro do planeta. Essa relação estabelece mais um nível na temática da movimentação e da imersão que também poderia ser traduzida como o mundo visto de fora e o mundo visto de dentro.

Por dentro do enredo
Orbital não é um livro de leitura fácil para quem está acostumado a seguir uma narrativa convencional. É preciso estar disposto a entrar no fluxo que Harvey propõe admirando as visões da Terra e seguindo o cotidiano metódico dos astronautas. A experiência de leitura sugere um mergulho meditativo. A descrição do dia a dia na espaçonave é bastante detalhista e fruto de uma pesquisa da autora (ela agradece à Nasa e à ESA pelas informações a que teve acesso, ao fim do livro). O convívio com a gravidade, a alimentação específica e as pesquisas realizadas pelos tripulantes ocupam boa parte da narrativa, apesar de não serem o foco central do romance. A obra acaba fornecendo uma visão bem precisa da vida de um astronauta “profissional” com referências a como dormem em sacos suspensos, como utilizam o banheiro, como executam suas tarefas e tomam conta do funcionamento da espaçonave.

Em meio às conversas e pensamentos dos astronautas, surgem elementos da história da conquista espacial — Neil Armstrong, Sergei Krikalev e o acidente do Challenger — e surge também o passado de cada integrante da tripulação e sua relação com o espaço: a diferença entre querer ser astronauta sendo menino e sendo menina, as relações amorosas e familiares, o caminho profissional e a cultura do país que molda cada um deles.

Entre os tripulantes, há destaque para a história de Chie, a astronauta japonesa. Ela recebe a notícia da morte de sua mãe enquanto está na missão e precisa lidar com o luto estando completamente distante de casa. Em um dos capítulos mais belos do livro — Órbita 3 em descensão — a narração observa e comenta os últimos dias da mãe de Chie sem perder o foco no movimento orbital que rege a obra, apontando mãe e filha distantes, mas conectadas e gerando um efeito de simultaneidade:

Acompanhe os dias até o seguinte e depois dois e mais três e então quatro, o corpo foi tirado da escada e a casa está deserta. Daquela luz invisível sob o céu baço do fim da tarde, onde está estacionada a filha da mulher, a Ásia desliza para estibordo. Shikoku e Kyushu passam abaixo, e todo o resto é oceano; o mesmo oceano que assalta o litoral perto da casa de madeira, aproximando-se mais do jardim ao longo dessa última década, onde as abóboras estão começando a amolecer.

Outro episódio que ganha importância e percorre toda a narrativa é a formação de um tufão cuja rota passa a ser acompanhada. A destruição que ele causa na região das Filipinas se mistura às lembranças de viagem de um dos astronautas pelo local. As fronteiras borradas vistas de cima também se destacam, o que suscita reflexões sobre nossa incapacidade de viver em paz uns com os outros, sempre querendo ganhar territórios e perdendo a noção de unidade enquanto habitantes de um mesmo planeta. Outra questão que se coloca é sobre o modo como temos tratado “nossa casa”:

Será que não há como pararmos de tiranizar e destruir e pilhar e desperdiçar essa única coisa da qual nossas vidas dependem?

Nessa rota de misturas temporais e considerações filosóficas que o romance aborda, Orbital proporciona uma experiência de reflexão sobre nosso lugar no mundo e nossa relação com a Terra. É uma bela jornada.

Orbital
Samantha Harvey
Trad.: Adriano Scandolara
DBA
192 págs.
Samantha Harvey
Nasceu em Kent (Inglaterra), em 1975. Formada em Filosofia, é autora de cinco romances e de um livro de não-ficção. Com Orbital, ganhou o Booker Prize de 2024.
Lívia Bueloni Gonçalves

É doutora em Teoria Literária pela USP, professora de literatura e tradutora. Autora do livro Em busca de Companhia: o universo da prosa final de Samuel Beckett (Humanitas/Fapesp, 2018)

Rascunho