A mão, o mel e o enigma

Em "Pote de mel e outros poemas", Leonardo Gandolfi reorienta o compromisso da poesia com o presente, e realça o gosto por tradições poéticas orientais
Leonardo Gandolfi, autor de “Pote de mel e outros poemas”. Foto: Marilia Garcia
01/06/2026

“Qual o som de uma mão batendo palmas?”, pergunta um conhecido koan do budismo japonês. “Se encontrar um Buda no caminho, mate-o”, sugere outro. Ao ler Pote de mel e outros poemas, de Leonardo Gandolfi, o leitor pode experimentar um sentido de enigma que talvez se pareça com essas pequenas formas breves.

No percurso do livro, e mais diretamente no poema O corpo de Li Bai, Gandolfi esboça justamente o desenho de um koan — discreto e fugidio, querendo dizer pouco, dizendo muito.

Li Bai
mergulha no rio
para agarrar
o reflexo da lua
e se afoga

Há um valor literário nos koans, concebidos como ferramentas de meditação e ensinamentos — aqui seria necessário embrulhar a palavra ensinamento em várias aspas para que não se confunda o intuito. Veja: “““ensinamentos”””. Não do tipo que moralizam ou educam, mas como algo que promove desacatos nos sentidos: um desafio à racionalidade. Afinal, quem já viu uma salva de palmas solo? Como seria possível uma mão bater em si mesma? Que sentido teria aniquilar um Buda?

Como uma criança que se depara com um mistério que parece irresoluto até ser visto pela segunda vez, quando lemos Pote de mel, corrigimos a coluna para ler outra vez e tentar desvendar o segredo. Vamos à escrita de Gandolfi como sentamos em uma cadeira: sem precisar saber de nada, mas saímos dela com uma súbita elevação, não porque ficamos mais iluminados, mas porque ganhamos um lugar de observação, corrigimos a postura e só por isso vemos mais coisas — outras coisas. Encontramos aí uma justificação possível da poesia: ler poemas porque fazem bem para as costas.

Minha coleção
Onde está a relação entre um poeta contemporâneo nascido no Rio de Janeiro no início dos anos 1980, que escreve hoje a partir de São Paulo, em 2025, e a poesia oriental? Como conectá-lo à escrita dos poetas japoneses aprendizes de samurai, à prática do zen-budismo ou do taoísmo chinês? Tantos séculos adiante, como esses mundos se tocam?

Se é possível pensar na poesia como exercício de olhar por baixo das coisas (ou um modo particular de se sentar), os poemas de Gandolfi — melhor dizendo, do eu lírico que emerge do encontro entre a vida biográfica e a sobrevida da linguagem — se colocam à disposição de recuperar a ligação subterrânea entre essas mesmas coisas.

O título do livro contém adivinha a primeira pista. Quem não se lembra do sorridente ursinho Pooh, de A. A. Milne, que anda por aí há gerações, pancinha de fora, sem se preocupar em encontrar soluções, mas em viver os enganos? No livro-ensaio O Tao do Pooh, o escritor norte-americano Benjamin Hoff descreve a ponte entre o universo do Ursinho Pooh e o taoísmo, a tal ponto de o leitor não conseguir mais desver essa profunda disposição filosófica.

Em maio de 2024, no colóquio Infâncias em jogo, realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio, Leonardo Gandolfi dedicou sua apresentação a destrinchar a associação de Pooh com a poesia, e conta como foi o poeta Manuel António Pina, na ocasião de um encontro entre os dois em Portugal, o responsável por fazê-lo procurar a leitura do Ursinho Pooh. Para Gandolfi, o personagem está o tempo todo elaborando poesia, é um poeta; é aquela figura que anda por aí fazendo perguntas tolas, sem acumular conhecimento algum e sem perder a alegria.

Antes o rio corria
Pote de mel valoriza a materialidade (as folhas debaixo da vassoura, o meio-fio, as jabuticabas e os figos, maçã e mamão em pedacinhos, os dedos do pé), o contato com objetos cotidianos (maçanetas, toalhas, tubos de pomada e pasta de dente), o convívio com as pessoas (a filha Rosa, a parceira Marília, ambas nomeadas na obra) e a concretude da palavra, que tem o mesmo corpo no poema ou no bom-dia ao vizinho. Com elas, o poeta alinhava intimidades (“somente as coisas tocadas/ pelo amor das outras têm voz”, escreve Gandolfi em Teatro João Caetano 1989), e escolhe imagens que ajudam a demonstrar como o grande fenômeno de nossa existência enquanto seres de linguagem é o de nos afetarmos mutuamente. Ou, como diz o poema Mãos:

aquilo que eu toco
me toca de volta com
três vezes mais força
(…)
ao riscar o interior da caverna
é que invento minhas mãos

O haicai mais famoso do mundo, de Bashô, narra uma rã saltando em um lago. Ao longo dos séculos, a cada vez que esse poema é lido, não existe da mesma maneira. De forma parecida, o enigma que Pote de mel parece lançar é: “o que acontece se olhamos as coisas por tempo suficiente?”. Será que o presente, quando habitado em todo seu refinamento de detalhes, revela outro presente?

No poema Fogo, a descrição de como os velhos mestres mexiam nas palavras dá a ver o aspecto material e a simultaneidade de tocar e ser tocado.

eu olho o fogo
e o fogo
me olha de volta
aqui começa o incêndio

Em Um passo, o escritor tateia as quatro paredes do poema, lembrando também os limites do que a linguagem pode fazer, como uma tempestade que só pode ser sentida em meio à tempestade, diz Gandolfi.

O som não entra
pelo ouvido
é o ouvido
que inventa o som

O poema Histórias lembra “do pinheiro/ cantado pelo velho/ poeta Saigyō —/ escrever/ outro poema/ sobre este pinheiro/ diz Bashô/ é o mesmo que tentar/ acrescentar/ um sexto dedo à mão”. Já Março e abril explicita o diálogo com o zen.

Todos
se aproximaram
do riacho
para ver
o grande salto do salmão
alguns traziam cerveja
outros apenas
o coração em silêncio

Pessoas
Se em seu livro anterior, Robinson Crusoé e seus amigos, o autor evoca os mortos e reconfigura o passado vivido em uma linearidade inventada pela ficção do poema, em Pote de mel a familiaridade dessa intenção poética se aprofunda a partir de um outro movimento, o da materialidade. Quem está em primeiro plano é a existência concreta, a fisicalidade — das palavras, do mecanismo de escrita, das relações, do próprio tempo.

A partir daí, aqueles que se foram se transmutam em personagens e desenham a gramática própria do livro; ao entrarem em cena, dão ao leitor a sensação de proximidade com a matéria dos poemas, como entrar em uma festa onde já conhecemos boa parte dos convidados. Assim, Gal Costa e Joey Ramone, Bob Dylan e Rosa, Cora Coralina e Nelson Cavaquinho passam a ser pessoas ficcionais, conhecidas por meio de um mesmo desígnio (desejo) literário, o de tornar o poema um lugar para estar de outro jeito.

Retomando o gesto de tocar e ser tocado de volta, “com três vezes mais força”, no poema Máquina de escrever, lembramos que a ferramenta da escrita só é mágica porque produz fenômenos simultâneos.

ela é mágica porque se eu escrever
o nome dos mortos eles vêm até mim

São muitas as pessoas ausentes enumeradas em Pote de mel, tanto íntimas em vida quanto em influência literária, e também delas emerge a materialidade que o livro precisa para continuar no presente. Os pais, os amigos Nonato Gurgel e Rodrigo de Souza Leão, Mario Levrero. Como pessoas literárias, os mortos recebem uma voz e, com ela, a oportunidade de falar em primeira pessoa. No poema Flechas sem alvo, novamente aparece a dimensão de reciprocidade de mexer nas coisas e ser remexido por elas.

às vezes atingimos
em cheio os nossos vivos

Em um projeto poético tão afeiçoado à matéria que é feita vida, é natural que apareçam suas fissuras. Na tradição japonesa, é dado o nome de kintsugi à técnica de restauro de porcelana quebrada; em vez de esconderem as rachaduras, o kintsugi as cobre com resina de ouro para que sejam ainda mais percebidas e, assim, contem suas próprias histórias. Apesar de não ser mencionada diretamente, essa filosofia de aceitar a imperfeição atravessa Pote de mel de várias maneiras.

As louças que as crianças quebram em uma viagem à praia lembram os pratos que foram da mãe do poeta — vestígios de uma matéria-prima concreta sem a qual a vida dos poemas não existiria. Em Oficina, Gandolfi parece lembrar Drummond, quando evoca em primeira pessoa o conhecido poema O elefante. Depois de quebrados os pratos, o poeta aparece dentro de uma baleia, pensando no pai:

fabrico um pai
de meus poucos recursos
um tanto de cinzas
um tanto de pó
pedrinhas
pedacinhos de ossos

Com o cachorro que tenta morder os pingos da chuva (Graveto), ou a criança que pinta as listras dos tigres para ver se eles voltam a ser tigres (Pote de mel), os poemas reunidos em Pote de mel alcançam a linguagem com as mãos, nem sempre para dizer o grandiloquente; pelo contrário, muitas vezes, um espírito de koan anima as palavras e elas escrevem sobre uma ponte e um leitão, ouvem uma coruja que acha graça em versos com “ideias de menos”. De repente, a barriga ronca e o livro deixa no ar uma sugestão. “Vamos ali comer uma coisinha?”

Pote de mel e outros poemas
Leonardo Gandolfi
Editora 34
144 págs.
Leonardo Gandolfi
Nasceu em 1981, no Rio de Janeiro (RJ). Desde 2013, mora em São Paulo, onde é professor de literatura no Departamento de Letras da Unifesp. É autor, entre outros, de No entanto d’água (2006), Escala Richter (2015) e Robinson Crusoé e seus amigos (2021). Teve editado na Argentina La muerte de Tony Bennett (tradução de Paloma Vidal, Ediciones Lux, 2021).
Renata Penzani

É doutoranda em Estudos de Literatura (UFF), mestre em Estudos da Linguagem (UFRPE). É autora dos livros Coleção de sons de Cecília (Cepe, 2025), Maracujá (Laranja Original, 2023) e A coisa brutamontes (Cepe, 2018) — vencedor do Prêmio Cepe de Literatura Infantil e Juvenil, e semifinalista do Prêmio Jabuti.

Rascunho