A fantástica fábrica de escritores

Como Norwich, pequena cidade do interior da Inglaterra, tornou-se um polo mundial da literatura revelando escritores premiados com o Pulitzer, Booker Prize e até o Nobel
Kazuo Ishiguro, ganhador do Nobel de Literatura, estudou na Universidade de East Anglia
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23/11/2020

Dentro da sala moderna e bem iluminada não há vestígio aparente do prédio de arquitetura medieval que, em mais de cinco séculos de história, já foi de tudo: de mansão a prostíbulo, de cortiço a açougue. Distribuídas em quatro mesas organizadas em torno de um telão, cerca de 15 pessoas aguardam pacientemente o início das atividades. Computadores portáteis dividem lugar nas mesas com lápis e cadernos, xícaras de chá e guardanapos cheios de biscoito. “Às vezes, tudo o que um escritor precisa é de uma hora para escrever”, diz a poeta responsável por coordenar a sessão. “Criamos este espaço na agenda para proporcionar exatamente isso para vocês.”

A hora livre de escrita faz parte do calendário cultural do Dragon Hall, um opulento casarão do período tudoriano situado na cidade de Norwich (a 158 quilômetros de Londres). É lá que funciona o National Centre for Writing — instituição que nasceu no início dos anos 2000 e foi uma das principais responsáveis por tornar este pacato município a leste da Inglaterra, com pouco mais de 100 mil habitantes, a primeira Cidade da Literatura do país pela Unesco, em 2012.

“Nós oferecemos um espaço onde escritores reconhecidos e emergentes são apoiados e orientados”, diz Peggy Hughes, diretora de programação do National Centre for Writing. “Aqui, o melhor da literatura mundial é facilmente acessível ao público leitor, beneficiando a comunidade local com programas educacionais inovadores.”

Peggy cuida da agenda do casarão desde 2017. Natural do norte da Irlanda, com formação universitária na Escócia, trabalhou no Festival Internacional do Livro de Edimburgo (primeira Cidade da Literatura pela UNESCO do mundo, em 2014) antes de se mudar para Norwich, atraída pelo que define como um “ecossistema” criado ao redor dos livros: “A região tem produzido um grande número de escritores maravilhosos, que fizeram daqui sua casa”, diz Peggy. “Temos uma comunidade de escritores e uma comunidade de leitores, além de livrarias e eventos que alimentam este apetite por literatura.”

Espaço cultural
Com mais de um milhão de itens tomados de empréstimo por ano, a Norfolk & Norwich Millenium Library orgulha-se de ser a biblioteca mais movimentada de toda a Inglaterra. Sediada num galpão que abriga também o centro de informações turísticas da cidade, os estúdios locais da BBC, além de uma pizzaria e um café, a biblioteca foi inaugurada em 2001 após suas antigas instalações serem destruídas por um incêndio, no início dos anos noventa.

A inauguração, prestigiada pela própria rainha Elizabeth, é lembrada hoje por uma placa de metal instalada no saguão do Forum, o imponente prédio com ampla fachada de vidro que já serviu de mercado para os imigrantes franceses da região. Além do acervo de livros, revistas, CD’s e DVD’s catalogados por uma equipe de 80 funcionários, a biblioteca guarda ainda a coleção do Memorial da 2ª Divisão da Força Aérea Americana, cujo quartel general funcionava a dez quilômetros da cidade, no período da Segunda Guerra Mundial.

O espaço é procurado por cerca de dois milhões e meio de pessoas por ano. O segredo do sucesso não está só nos livros. É o que assegura a gerente da biblioteca, Anne Tidd: “Nós nos empenhamos em promover encontros com os visitantes e atender as suas recomendações”, assinala. “Temos uma lista de eventos semanais e mensais, além de várias outras atividades que realizamos em live streaming, em conjunto com a British Library.”

Desafio literário
Entre os eventos, que vão de oficinas de pintura a competições com jogos de tabuleiro, destacam-se as aulas de conversação voltadas para estrangeiros, frequentadas não somente por imigrantes mas também por uma equipe de voluntários formada por idosos e professores aposentados. Em novembro, mês da National Novel Writing Month (a NaNoWriMo — um desafio de escrita anual, realizado em vários países), a biblioteca abre as portas para os escritores residentes na cidade firmarem o compromisso de, em até 30 dias, escrever o esboço de um romance de no mínimo 50 mil palavras.

Marisa Smith, escritora natural dos EUA que mora na Inglaterra há mais de uma década, participa anualmente do desafio. Gerente de uma loja de videogames, Marisa se mudou para Norwich em busca de uma oportunidade no agitado comércio da cidade, um cenário de pequenos negócios independentes, com foco no abastecimento local e na sustentabilidade. “Eu vim para trabalhar numa área completamente diferente”, diz ela. “Mas acabei achando um lugar calmo e muito propício para a escrita, que atiçou as chamas da minha criatividade muito mais que qualquer outra cidade grande em que eu morei, como Los Angeles, Roma ou Londres.”

Marisa é uma entre muitas, na longa galeria de escritoras e escritores que beberam da fonte do Wensum, o rio de águas calmas que serpenteia a cidade e é margeado por píeres, pubs e charmosos conjuntos habitacionais coloridos. Além de ser conhecida como maior sítio remanescente da arquitetura tudoriana, terra de um time de futebol recém-rebaixado da Premier League que também tem um canário como mascote, a capital do condado de Norfolk se notabilizou por ser a terra-natal de Julian de Norwich: uma anacoreta que foi autora do primeiro livro escrito por uma mulher em língua inglesa.

Excelência acadêmica
Em sua história recente, Norwich destacou-se como polo de excelência acadêmica após a fundação da Universidade de East Anglia (UEA), uma instituição privada que criou o primeiro curso de graduação em escrita criativa da Inglaterra. A primeira turma, em 1970, teve como aluno um jovem cujo nome mais tarde viria a se tornar um dos mais relevantes da literatura contemporânea: o britânico Ian McEwan. Naquele mesmo ano, W. G. Sebald se tornaria professor da instituição, onde lecionou até morrer num acidente de carro próximo a Norwich, em 2001, num local que se tornou ponto de peregrinação entre aficionados.

Em 2017, Kazuo Ishiguro, outro ex-aluno da Universidade de East Anglia, ganhava o Nobel de Literatura. A premiação trouxe um segundo pico de matrículas na Escola de Literatura, Drama e Escrita Criativa da instituição: o primeiro ocorreu em 1989, logo após o escritor de origem nipônica receber o Man Booker Prize pelo romance Os vestígios do dia. “Estamos vivendo uma época de pânico global com a pandemia, e a maneira como a literatura se desenvolveu por aqui foi quase viral”, compara Andrew Cowan, um dos atuais professores do curso que ajudou a tirar o projeto do papel, há quase meio século. “A escrita criativa estava como que incubada por mais de 30 anos na nossa universidade, e em torno do ano 2000, subitamente, ela pegou e os cursos foram se espalhando pela Inglaterra, em números impressionantes.”

Segundo Cowan, o quadro de alunos da escrita criativa hoje, na UEA, já é proporcionalmente maior ao de estudantes de língua inglesa, área de pesquisa mais tradicional e consolidada academicamente. Evocando novamente a ideia de um “ecossistema literário” na cidade, o professor afirma que a parceria da universidade com instituições como o National Centre for Writing e a Millenium Library tem contribuído para tornar o título de “cidade da literatura”, recebido da Unesco há quase dez anos, uma realidade perene.

“Nós estamos numa posição privilegiada, que é a de receber alguns dos melhores escritores do mundo em formação”, sublinha Cowan. “Eles chegam aqui e se alimentam uns dos outros, se iluminam mutuamente. As pessoas encaram a escrita muito seriamente e se veem por alguns anos na companhia de outros que também encaram a escrita da mesma forma e ajudam no seu desenvolvimento, e nós professores só temos o papel de seguir adiante com este histórico. Nossa reputação cresce, mais pessoas boas se inscrevem para vir para cá e isso continua, num grande círculo virtuoso.”

Tiago Germano

É autor do romance A mulher faminta (2018) e da coletânea de crônicas Demônios domésticos (2017), indicada ao Jabuti. É mestre em escrita criativa pela PUCRS e fez seu estágio doutoral na UEA como bolsista do Programa de Internacionalização da Capes.

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