A experiência mágica

Narrado em imagens, "O primeiro dia" transforma confinamento e liberdade em uma experiência visual entre realidade e imaginação
Henrique Coser Moreira, autor de “O primeiro dia”
01/09/2026

De vez em quando acontece, mas só de vez em quando: um livro consegue traduzir sentimentos indizíveis. Quem lê tem a sorte de saber que esse vislumbre existe, dura apenas alguns instantes, mas dá conta de alimentar o desejo de ler pela vida afora. Afinal, o que acontece com o desejo, como bem disse Walter Benjamin, é que ele quer se repetir.

O primeiro dia, de Henrique Coser Moreira, é um desses casos. Publicado em Portugal pela Planeta Tangerina (2022), o livro evoca a aventura, tantas vezes fantástica, de viver em liberdade. Trata-se de uma obra desdobrável, aberta a múltiplas leituras, que permite reviver o gosto de um dia que, ao contrário das histórias que sempre podem ser lidas outra e outra vez, não se repete.

Henrique Coser Moreira — ao lado de Bruna Ximenes, Vitor Rocha e Felipe Cavalcante — foi um dos quatro artistas brasileiros selecionados para a Illustrators Exhibition de 2026, mostra de ilustração considerada uma das iniciativas mais prestigiadas da Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha (BCBF). A publicação portuguesa de O primeiro dia recebeu ainda diversos prêmios e distinções na cena internacional, como o Prêmio Internacional Serpa/Planeta Tangerina para Álbum Ilustrado, o Selo Cátedra 10 — Lusofonia Além-Mar, a inclusão na lista The Horn Book Fanfare 2024, o Golden Island Award do Nami Concours 2023 e a seleção para a Illustrators Exhibition da Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha, em 2023.

Silêncio inventivo
Os livros-imagem têm particularidades. Como eles narram por meio da ilustração, as palavras possíveis sobre eles — e sob eles — são as dos leitores. Se é que elas vão precisar mesmo existir, as palavras que as histórias visuais nos dão saltam das páginas quando precisam convidar o outro a ler junto. É o que torna coletivo o gesto de ler. Valorizar a coautoria — eletrizada de intenção e planejamento — entre obras e leitores está no centro da investigação de diversos estudiosos da narrativa visual voltada para crianças e jovens. Narrar por imagens requer uma generosidade comedida dos autores: um deslize e o leitor já viu demais, a chave está em guardá-la antes e distribuí-la depois.

Quando lemos O primeiro dia, os elementos narrativos nos instigam a ler uma intimidade que é primeiro individual, antes de se tornar compartilhada. A infância pode então ser lida como experiência de fabulação que não se restringe à criança, mas se expande pela linguagem, em que se quebram os limites entre fantasia e concretude. “Em lugares secretos, nas suas órbitas vazias, na sua boca aberta, há presentes. A experiência mágica torna-se uma ciência”, já dizia Walter Benjamin, em Rua de mão única (1928). Nessas experiências, “as coisas passam-se como nos sonhos: não conhece nada de duradouro.”

Como em uma HQ, o livro é dividido em quadros sequenciais, ou seja, o que vemos são fragmentos de uma história maior. Nesses contornos delimitados, quem lê será convidado pouco a pouco a desvendar o não dito. As imagens são construídas por uma economia de discurso, em que mostrar menos é imaginar mais.

Olhar enquadrado
Nas primeiras páginas, vemos as imagens em campo aberto — um amplo céu azul com poucas nuvens e gaivotas, depois o ponto de vista aéreo de um agrupamento de casas rodeadas de árvores. Só então vem o enfoque em alguns detalhes — a gangorra, o escorregador, o balanço, o banco de praça. Para descrevê-los, usamos artigos definidos, talvez este não seja um parque qualquer, ele está completamente vazio. Mas por quê? Finalmente, na página 6, chegam as crianças, talvez elas tenham a chave do segredo e queiram contar pra gente. Talvez não.

Quatro janelas diferentes estão abertas, quatro histórias de vida. Cada uma sugere um contexto. Algumas estão mais abertas, outras menos, há detalhes nas cortinas e nas cores, tudo importa como indício de leitura; todas as crianças estão debruçadas, olhando para fora. Seja qual for o motivo do isolamento, não é uma experiência única, mas comunitária.

Então, voltamos ao ponto de vista externo. Vemos um pássaro branco pousado no topo de uma árvore levantar voo e ficar cada vez mais longe no horizonte. A dimensão das imagens se comporta como uma câmera — ou um par de olhos —, afastando-se e aproximando-se da cena. Se o mundo lá fora parece vazio e inabitado, é porque está mesmo.

Real imaginado
Pausa na leitura.

Em março de 2020, eclodiu a pandemia de covid-19. No começo deste texto, lembramos a capacidade de a literatura abarcar experiências que nem sempre cabem em palavras ou imagens. Naquele período, vivemos globalmente a obrigação da quarentena, os protocolos sanitários, as proibições de contato. Vivemos também o número de mortes sendo calculado dia após dia, o gráfico quantitativo televisionado como método diário de controle e segurança. A verdadeira experiência, no entanto, era de outra natureza. Medo, solidão, angústia, o corpo sofreu de inumeráveis coisas incontáveis. No sentido narrativo, como transformar tudo isso em história?

Voltemos, então, à ficção de Henrique Moreira e seu trunfo de elegância.

Pistas abertas
Sem dizer que estamos em uma narrativa que pode ter uma referência direta, O primeiro dia abre caminho para associações sem fim. O título, composto pelas únicas palavras colocadas em cena, pode adquirir sentidos variados no encontro com a vivência do leitor. Na edição, vale destacar a escolha dos aparatos editoriais: o texto de contracapa sugere e motiva, sem fixar um único percurso de leitura. O desejo quer se repetir, afinal.

O objeto, neste caso, funciona como um suporte de pistas ilimitadas, e por isso também compõe a narrativa. Vemos um calendário passando os dias, a televisão passando as notícias e a previsão do tempo, o gato passando pela casa, a menina passando sua infância. O tédio entra na narrativa também, e aponta para outras interpretações possíveis.

A reviravolta de O primeiro dia acontece quando o autor sugere que alguma coisa se rompeu na rotina de confinamento. Depois que ganha uma provável permissão para sair, enfim vemos a personagem lá fora. Ela deita na grama, e seus olhos brilham diante das belezas naturais, como rios, flores e bichos. Onde estão as outras crianças?

Liberdade possível
De repente, uma mão estende uma caneca para a protagonista, que brinca entre matas frondosas, animais livres e vida selvagem. A cena pede atenção e vai instigar ainda mais; já já, o adulto vai trazer um cobertor que parece tão quentinho quanto chá e chocolate quente. Na imagem, a menina está fora de casa, mas há elementos de dentro: o gato de estimação continua ao seu lado.

Assim, o livro vai jogando com sequenciamentos que oscilam entre o real e o imaginado. Entre o vivido e o sentido, o desejo ganha espaço e se desdobra além de uma leitura absoluta. Se a criança cria pelo devaneio, o leitor pode entrar no plano da imaginação, e a infância deixa de ser um tempo apenas cronológico para se transformar em um estar no mundo. Seja como for, os sapatos amarelos esperam do lado de cá da porta, quando saírem, encontrarão um universo de possibilidades à espera.

O primeiro dia
Henrique Coser Moreira
L&PM
40 págs.
Henrique Coser Moreira
Nasceu em Curitiba (PR), em 1998. É ilustrador e designer gráfico e tem formação em Design Gráfico. O primeiro dia, seu livro de estreia, foi publicado pela primeira vez em Portugal, em 2022. Em 2024, venceu o Prêmio Internacional de Ilustração da Feira do Livro Infantil de Bolonha — Fundación SM.
Renata Penzani

É doutoranda em Estudos de Literatura (UFF), mestre em Estudos da Linguagem (UFRPE). É autora dos livros Coleção de sons de Cecília (Cepe, 2025), Maracujá (Laranja Original, 2023) e A coisa brutamontes (Cepe, 2018) — vencedor do Prêmio Cepe de Literatura Infantil e Juvenil, e semifinalista do Prêmio Jabuti.

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