Costumamos pensar no começo de uma vida como um ponto de partida, a folha em branco onde as mais diversas histórias podem ser escritas, momento zero onde todas as portas ainda estão abertas. No entanto, se olharmos melhor, não é bem assim. Nascemos já inseridos na história de nossos antepassados e damos continuidade à sua narrativa, queiramos ou não, de forma consciente ou não. É verdade que não somos só isso, e que, ao menos em certa medida e com alguma sorte, podemos mudar o rumo das coisas. Mas, fato é que, mal chegamos, e já somos inseridos na trama dos que vieram antes de nós. “O começo é sempre o ponto mais baixo”, ouvi outro dia numa peça de teatro do dramaturgo alemão René Pollesch, e me assustei com o óbvio.
Em Corsária, de Marilene Felinto, a protagonista está ciente de que, para fechar as lacunas de sua própria história, precisa começar “em página anterior ao zero, número negativo qualquer, o antes de tudo, tendo como enredo a ancestralidade rarefeita”. Com voz narrativa cortante, numa poética que oscila entre contenção raivosa e erupções de indignação, ela parece tirar sua potência da impotência de seus pais, num vigoroso anseio por justiça para os direitos usurpados a eles no passado. O que reivindica é nada menos que esclarecimento, reparação e indenização pelos danos físicos e morais causados a ambos por serem filhos (adotiva, a mãe; biológico, o pai) de abastados holandeses, mas não terem sido reconhecidos como herdeiros, e aos quais até mesmo o nome de família foi negado. Para isso, ela, a filha e “herdeira incerta e não sabida”, que já havia conseguido driblar o carma familiar, formando-se e fazendo carreira no exterior, volta aos lugares onde sua família viveu e ela própria nasceu, seguindo assim as pegadas quase apagadas da própria história. Vale ressaltar que ela o faz sem a autorização dos pais, que preferem “não assanhar casa de marimbondo”.
Para esta peregrinação em busca de provas e testemunhas que embasem diversos processos jurídicos, ela não possui um plano concreto, mas, em compensação, inesgotável fúria e insubmissão. Sabe apenas que quer se concentrar nas cidades de Amsterdã, Timbó, Regalado e Imbiribeira e, de todos os lugares, o mais importante: a região de Três Estradas, onde dá início ao mapeamento das biografias de frente para trás até o dia do seu nascimento.
Uma pergunta
O reconhecimento do nome de família se torna tanto mais urgente quanto ele foi ocultado: de sua mãe, criança doada ao casal Lichthart, descendente de holandeses, e que deviam adotá-la. Mas não o fizeram. De seu pai, filho de uma mulher holandesa com um descendente de escravizados, e que deveria ter sido batizado como van Waerdenburch. Mas não foi. E o que a protagonista almeja com todas as suas forças é saber “por que não”. É essa a pergunta que repete como um mantra para si mesma e para os outros, transformando sua fúria em protesto. Ela, porém, deixa claro que o que reivindica não é o nome em si, mas o direito à herança que vem pegada a ele. Ao mesmo tempo, num movimento por via negativa, espécie de fuga para a frente, ela passa a chamar a si própria de “Seu Ninguém”, tornando claro o oculto ao mesmo tempo que denuncia e resiste ao apagamento, confrontando-o.
“Seu Ninguém”, a apropriação da opressão como instrumento de revolta, me fez pensar no personagem grego Odisseu, herói do poema épico de Homero, que, durante a longa viagem de volta à Ítaca, sua terra natal, precisa, entre outras provações, enfrentar o Ciclope Polifemo, gigante de um olho só. Astucioso que é, Odisseu afirma que se chama “Ninguém”, de modo que, ao gritar pela ajuda de seus companheiros, o gigante urra apenas: “Ninguém está me atacando!”. Isso faz com que pensem que ele enlouqueceu e não vão ao seu auxílio. Também a nossa protagonista parece lançar mão de artimanhas em sua Odisseia particular pelo resgate da identidade de seus antepassados, coletando todo tipo de material, documentos, fotos, lembranças, falas, indiferenças, litígios e, sobretudo, silêncios. E tudo salva em pastas digitais e físicas, sem temer os gigantes de um olho só da burocracia brasileira nem a resistência das pessoas à sua volta.
Por exemplo, Álvaro, seu companheiro deixado em Houston, onde ela também vivia. Homem de senso prático que trabalha com programação computacional, ele não entende o sentido dessa busca tardia que chama de “aventurismo memorialista”, mas se dispõe a ajudar com pesquisas a distância. Ou Abel, o tio, irmão também adotivo da mãe, mas a quem não negaram nem sobrenome nem herança, e que, obviamente, se opõe aos planos de divisão do espólio. A única pessoa que parece compreendê-la e apoiá-la é Betina, uma estudiosa holandesa com raízes na diáspora, com quem mantém uma relação de “amores” e amparo mútuo. Por conta de sua própria pesquisa, Betina possui vasto conhecimento sobre a história e a geografia dos lugares por onde passaram os holandeses no Brasil, e alimenta a protagonista com informações.
Assim, a nossa Corsária atravessa o Nordeste de carro, sozinha, inventariando as injustiças sofridas por seus pais enquanto faz paragens pelas estações de suas biografias, em romaria não só pelo espaço, mas também pelo tempo, revisitando desde a época seguinte à abolição, na qual seus antepassados se espalharam pelo Brasil em busca de trabalho, sempre precário, e expostos a toda sorte de exploração. Porém, durante sua viagem, precisa lutar não só com a rejeição e os obstáculos vindos de fora, mas também com as próprias dúvidas, o desânimo, dividida entre o êxito da vida organizada que tinha em Houston e a investigação que parece não avançar, cingida entre “uma mulher de vida ordinária quase feliz e outra, esta, eu, hoje, na seriedade de um propósito maior, por uma questão de honra”, como ela mesma formula, sem se permitir, no entanto, muito abatimento:
Admiro com espanto pessoas que ficam deprimidas por longos períodos, entregues, largadas, paralisadas. Não é meu caso, não posso fraquejar a esse ponto em que sucumbem os desolados da vida.
E assim segue, sempre tendo que se fiar na memória, sua e de outras pessoas, como na imaginação ou na “memória da própria imaginação”, esse “espaço da invenção, fluido, nebuloso e incerto daquilo que se vai narrar”, como Milton Hatoum descreve a ficção. No caso da protagonista de Corsária, esse é o espaço da própria reinvenção, no qual procura protocolar posteriormente e com minúcia o não-narrado, o silenciado pela História. “No fim deste meu périplo, terei então alguma alegria”, diz, como se quisesse reforçar para si mesma que sua busca faz sentido.
No ensaio A Ilíada ou o poema da violência, a filósofa francesa Simone Weil escreve (em tradução livre minha):
Não se pode perder mais do que o escravo perde: ele perde toda a sua vida interior. E só recupera um pouco dela quando surge a possibilidade de reverter o destino.
Reverter o destino aqui se faz com uma escrita sem concessões; a escrita é a pedra que este Corsária lança hoje para matar um pássaro ontem. E penso que a alegria da qual fala será sobretudo a de não ter capitulado, de ter resistido, independentemente de ganhar ou não sua causa jurídica.