A arte de tergiversar

Em romance prolixo, Cristina Bresser de Campos passa todo o tempo afastando o leitor do centro de sua trama
Cristina Bresser de Campos, autora de “Raízes aéreas”
01/08/2026

Logo na segunda página de Raízes aéreas, um relato incidental dá a tônica da engenharia do romance de Cristina Bresser de Campos. A protagonista Fernanda, num papo informal com o garçom Claudio, ouve dele a história de uma senhora que, após perder o marido e já com os filhos casados, decide morar em navios por ser mais barato que o custo de um apartamento próprio. Assim que desembarca de um cruzeiro, a viúva se hospeda num hotel perto do porto só a tempo de iniciar a próxima viagem. Passa o ano inteiro indo de um lado para o outro, conhecendo pessoas de diferentes lugares e jogando conversa fora.

Procedimento semelhante embala a trama movediça que percorre os sete dias da estada de Fernanda em Alto Paraíso de Goiás. Depois de ser demitida de maneira injusta e terminar um longo casamento ao descobrir a homossexualidade enrustida do marido, a fotojornalista se lança numa aventura pela Chapada dos Veadeiros, de modo a encontrar um novo sentido para a vida por meio da aura mística da geografia e da biodiversidade do Planalto Central. Ocorre que, ante as belas cachoeiras e as trilhas pelos parques naturais, não para de chover; o guia e os companheiros de excursão são uns malas; e o temperamento instável dela também não ajuda. Assim, contra as inseguranças dos traumas recentes e os pensamentos intrusivos, engatilha bate-papos sempre que possível, com diálogos abundantes e longos que caracterizam o livro como um falatório geral.

A personagem parece uma mistura de Emília, a boneca tagarela de Monteiro Lobato, e Forrest Gump. Tem sempre um evento, uma pessoa, um lugar que desencadeia histórias a partir de histórias, num vaivém entre locutor e ouvinte que se prolonga por várias páginas. Voltando ao encontro inicial entre a protagonista e Claudio, sabemos do passado do garçom, passando para o relato da viúva do navio, em seguida para uma expedição off-road na Argentina, depois para a apresentação de Fernanda, terminando com o convite de dividir uma pizza. Em todos os casos, seja quem estiver na escuta ativa ou na passiva, frases como “isso me lembra uma história” e “me conta mais sobre isso” servem de conectivos para a expansão do enredo. No jornalismo, há um termo chamado fita-banana, em que amenidades, informações corriqueiras e causos vão se esticando por dias, colando-se uns aos outros para gerar mais trivialidades de maneira interminável. Bresser traz esse dispositivo para a literatura, costurando suas emendas na arte da tergiversação.

Didatismo
Em qualquer oportunidade, o que se apresenta como narrativa principal é deixado de lado e o leitor é deslocado para relatos sobre caronas em caminhões, desventuras no Reino Unido, picardias juvenis e os livros do Gabriel García Márquez sem saber para onde essa prolixidade o levará, até que o assunto mude abruptamente. A autora também se utiliza desses episódios casuais para propor reflexões sobre questões sociais, a exemplo da preservação ambiental, dos maus-tratos aos animais, do etarismo e da violência contra a mulher, no entanto, falta um contexto para inserir essas trocas de ideias no universo dos personagens, de modo que os temas soltos acabam por cair no jargão do didatismo.

Tanto na realidade quanto na ficção, é difícil se concentrar em meio a um vozerio. A falta de foco e de silêncio, além de desbaratar a leitura, afasta a atenção de uma escrita bem articulada, desataviada, capaz de estruturar com manejo os cenários externos e os espaços internos dos participantes da trama, sobretudo o fundo psicológico da personagem central. Fernanda é uma mulher à beira da meia-idade, traída, que intimamente se culpa por nunca ter desconfiado da vida secreta do marido. Quando se dedica a esse aspecto humano, Bresser transmite muita verdade na composição de sua protagonista, condicionando a oscilação da conduta ao constante conflito com seus anseios, suas frustrações, a desconfiança de que seu corpo feminino possa ser novamente desejado, de que possa voltar a ter amor. Além disso, dá forma a uma amizade intempestiva, cuja contraparte é um homem gay, assombrado por fantasmas do preconceito familiar e da condenação, que vivenciou o mesmo teatro do casamento de fachada que recentemente a demoliu. A aproximação dessas personalidades distintas e, ao mesmo tempo, marcadas por dramas similares, faz da relação, por vezes, acolhimento e, por vezes, discórdia.

Claudio se mostra disposto a desempenhar o papel de ombro amigo, acolhendo as lamentações da fotojornalista, deixando-se contaminar pela curiosidade sobre os detalhes do divórcio dela, abrindo-se sobre os abusos físicos e emocionais que sofreu por conta de sua orientação sexual. À medida que esses episódios de memória vão se destacando do falatório e aparentemente se tocando de raspão, o garçom começa a suspeitar que certos fatos e sujeitos do passado podem ter conspirado para o rumo que o destino de cada um tomou. Fernanda, por sua vez, mantém uma postura reticente, desviando-se das coincidências, embora saiba que, no plano secreto, esses repuxos voltam sempre com mais impacto contra si. A autora representa esses ataques da coincidência por meio de fragmentos que misturam devaneios e lembranças, contribuindo para o formato de pedaços espalhados da estrutura; contudo, diferentemente das incontáveis tergiversações, a anacronia e as elipses funcionam, pois estão ali para trazer sentido à história principal.

Relato franco
A boa literatura demanda mais controle que volume, usando da escrita bem-ajustada para explorar as camadas internas do texto. Quando o romance faz esse movimento, revela boas contradições e conflitos humanos em sua dimensão dramática, na apreensão da homossexualidade sufocada em relacionamentos heterossexuais. Bresser, contudo, mostra-se mais interessada no externo, no que está na margem, no acessório e, com isso, testa a paciência do leitor que, depois de ser empurrado de um lado para o outro, pode não estar engajado em captar as boas escolhas, como o final, que, a despeito das tentações óbvias, foge do clichê e entrega um relato franco, isento de artificialidade e dissimulação.

Numa breve introdução que precede os sete dias da passagem da protagonista pela Chapada dos Veadeiros, essa voz interior que se expressa por infiltrações de delírios narra o encontro com uma figura soturna, a quem chama de labrador negro, que irá resgatá-la da prisão de muralha de pedras e abastecê-la de coragem e amor. Diante do receio de acompanhá-lo na fuga, a voz diz: “Meu amor entendeu que eu não pularia, sabia interpretar meus silêncios. Palavras eram secundárias desde o dia que nos encontramos pela primeira vez nessa vida”. Claramente há uma intenção de falar sobre saúde mental, e a autora se sai bem ao se aplicar à extensão dos sentimentos problemáticos da personagem travados a partir de suas perdas. Acontece que tais discussões surgem de forma esporádica, em pequenas aparições engolidas pela estratégia narrativa deambulante, distendida, cuja composição volta aos mesmos procedimentos, à mesma discurseira desbragada. Ao contrário do labrador negro, faltou entender o limite do uso das palavras e, sobretudo, interpretar o silêncio num livro com excesso de ruído.

Raízes aéreas
Cristina Bresser de Campos
Mondru
168 págs.
Cristina Bresser de Campos
É designer gráfica pela UFPR, com curso na Creative Writing na University of Edinburgh. Como escritora, publicou os romances Quase tudo é risível (Benfazeja), Hand Luggage (Czykmate, Canadá) e Rota de regresso (edição da autora), o livro de contos Tempo de jabuticaba (Urutau) e a coletânea de crônicas Pra rir & pra chorar ― 11 anos de histórias de proteção animal. É autora do roteiro Homem da porra, do festival de teatro Parlapatões. Recebeu o Prêmio João Isabel em Manteigas (Portugal, conto), o Prêmio Coletivo São Paulo, microconto, e o Prêmio Campos de Jordão, crônica. Foi também vencedora do Concurso Literário da Degustadora de Histórias — prêmio de melhor romance literário ao Instantâneos de Anas. Tem publicações ainda na Austrália, Estados Unidos, Inglaterra, França, Grécia e Índia.
Sérgio Tavares

Nasceu em 1978. É autor de Cavala, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, publicado em Portugal com o título Equação sobre o abismo. Também publicou Queda da própria altura, antologia finalista do Prêmio Brasília de Literatura. Alguns dos seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Escreve sobre literatura brasileira e hispano-americana para jornais e revistas, além de editar o site A Nova Crítica.

Rascunho